Bengala

7.14.2013 -


"Era quase uma bengala, sabe? Bengala mesmo, apetrecho de velho. Vê se pode: principalmente logo ao acordar e antes de dormir. Qualquer desatenção e era ver desfalecer no chão, feito gente debilitada mesmo, aquelas certezas que deveriam estar enraizadas de papel único nesse mundo, valor próprio e convicções; era ser deixada naquele banco, como quem toma xícaras intermináveis de chá, para apenas com aquele objeto ridículo conseguir me deslocar vida afora. E nem sempre esperava, paciente e cordata. Não: havia dias em que grunhia e choramingava atenção, esperneava pelos cantos e, até obter um pouco daquele carinho - que mais servia de apoio do que complementação - ensaiava caretas enfezadas e um discurso melindroso de cansar a entrada dos ouvidos."

Deu um gole longo no café preto forte e sem açúcar. Abriu a bolsa, pegou o celular. Checou o horário. Prosseguiu:

"Sabe, era cansativo precisar do pequeno bastão emocional que me fazia conseguir andar durante os dias. Deveria ser ainda mais para o pobre coitado, tão responsável por questões de logística, detalhes sórdidos, surtos ecumênicos e por fonte única de amor. As outras muletas, aquelas que fizeram com que vencer esse desafio de perambular sozinha fosse para mim a grande questão mundana a ser resolvida, foram primeiro os pais - quem gere a gente tem sempre culpa do mostro que cria - depois algumas amigas, até que fiz dele meu meio de transporte predileto. E olha que leveza nunca me foi característica, nem do corpo e menos ainda."

Chamou o garçom, pediu a conta. Exterminou o conteúdo restante na xícara, concluiu:

"Teve o dia, numa manhã, em que ele se foi. Assim, simples, pegou as coisinhas dele e resolveu que além de ser hora de descansar, que tava na hora de fazer com que eu aprendesse a saber ir por conta própria também. Tudo que ele havia me ensinado, o cuidado com os passos, o espaçamento entre cada um, o adocicado gosto de ser um pouco livre e poder decidir caminhos. Na época, encarei aquilo como a maior abandonada, da música, sabe? Fiz revolta, ecoei palavras ofensivas, senti a cólera infectar o sangue antes de dormir. Depois me deprimi. Nos dias de reclusão, apenas quando silenciei consegui notar que, se em movimento, talvez eu ocupasse a cabeça e conseguisse mesmo ter amor por mim no pódio das obrigações, em primeiro lugar. Como todo processo, foi demorado: houve dias fiz birra, esgoelei e chorei lágrimas intermináveis ao relento. De pouco a pouco foi que consegui baixar a cabeça, abrigar esse esfolamento que é crescer e ir sozinha. Lentamente. Pé ante pé. Quando dei por mim, já estava dançando. Reencontrar ele ou não, no meio da multidão, era um detalhe pequenino demais pro tanta estrada pela frente. Com o tempo a gente aprende a deixar; e também, a ir."

Assenti. Quis sorrir, mas apenas levantei num salto, tipo quem acaba de despertar dentro de uma epifania. Perguntei se ela, na fina flor de sua avançada idade, gostaria de ajuda para levantar. Orgulhosa, de imediato recusou.

Foi então que compreendi.

10 Comentários:

  1. Só amei e precisava ler algo assim!! Beijaoo

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    1. Lindona, fico muito feliz em ler isso. Mesmo! Obrigada pelo carinho de sempre. Beijão pra ti!

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  2. MARAVILHOSO! COMO TODOS OS TEXTOS SEUS. ♥

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    1. Ei xará, muito obrigada. De coração <3 Um beijo pra ti!

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  3. Muito bom! E eu senti que o seu jeito de escrever está mudando (aka: aprimorando, melhorando etc). E eu amei esse clima novo do blog, uma vibe clean, relax... curti! beijos :)

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    1. Guria, que coisa ótima ler isso. Mesmo! Fiquei bem contente, obrigada, viu? E sim, ando mais tranquila e menos verborrágica. Espero que isso seja bom :) Beijos!

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  4. Nada além de incrível pra dizer. Beijo Mila! ;)

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  5. Ficou belíssimo, mesmo mesmo. Reli agora, depois de ter lido quando tu postou. Tu realmente sabe fazer poesia daquilo que sente, é meio que dom. E ah, adoro essa tua foto com chapéu mexicano, tá sorrindo né, e é assim que te gosto. beijão

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