Ao frio que tanto odeio

7.21.2013 -



Agora que você já veio, me fez descer do armário as roupas que não gosto tanto e nem exibem como de fato é minha silhueta, além de uma gripezinha aqui, em conjunto a algumas tosses furtivas acolá, já pode ir. Pra que durar tanto tempo? Quase seis meses em que nos vemos degradar aos poucos de cor (a pior parte é a pele do bege ao gelo, e por fim, ao branco quase leite), parecer mais acima de qualquer peso, e vestir camadas e camadas de roupa - é quase ver se ir com a ventania ferrenha aqui do Rio Grande do Sul os cuidados e caprichos tão cadenciados com a estética, na fase agradável do ano (leia-se: verão e primavera). Os dias cinzentos e aquela vontade desoladora de ouvir o repertório para cortar os pulsos, mesmo com a felicidade ali, na manga; palpável e absoluta. Nostalgia, nó no peito, vontade que só o cobertor de orelha tem capacidade de extinguir. As mãos congelam, e pedem luvas. A boca racha, e clama por manteiga de cacau, protetor solar, batom ou qualquer coisa que não deixe sangrar. Os cabelos, ou ressecam, ou se permitem o oléo que no verão não existe (tão bem faz a água gélida tanto a pele, quanto a fios. Algo praticamente de usufruir no inverno). Você quer tomar banho, e quase congela. Entra no chuveiro, e pretende morar submergida dentro daquele minúsculo box. Sai, e é logo invadida pela friagem novamente. Fortes sensações, essas da temperatura baixa. Há que se ter coração forte, vontade empunhada e um tanto de saúde em dia, com certeza. Salvam e aquecem: café, chá, chimarrão, foundue e sopa.

Na hora de sair, mais aperto. Se não for de guerra, bem possível que a vontade de ficar debaixo das cobertas, quentinha na cama, impere. Quer se sentir sexy? Complicado. Não esqueça o casacão por cima: uma obrigatoriedade, claro - e que ficará na chapelaria de qualquer casa noturna que você invente de entrar. Tentando sensualizar, você treme. Fala, e é possível ver no ar a fumacinha que faz cada sílaba proferida. Dia de prova no ápice da estação: espirros, catarradas, narizes que escorrem, e logo mais, são assoados. Repugnante, um nojo. 

O sono aumenta, assim como a fome. E os alimentos? Todo um arsenal que pede que a dieta seja interrompida já, no presente momento. Densos, com milhares de substâncias capazes de a fazer perguntar, quando chegar a primavera: cadê aquele corpinho enxuto e até mesmo tostado antes de toda essa parafernália começar? Se enfurnou dentro do armário, com as peças que realçam as curvas e apoderam a auto-estima que agora se esconde por trás de meias-calças grossas e blusões de lã. Coloque uma touca, está terrível lá fora. Que mão gelada, está agasalhada? Compre um par de luvas. Durma de meia, os pés se aquecem mais rápido. Aliás, o sono, esse vilão: quando fortemente por nós pego, difícil de largar. Despertador que toca, toca e toca, e você ali pensando: só mais oitocentos e noventa e dois mil minutinhos, por favor. A vida chama, não dá. As responsabilidades, além de prosseguirem, teriam que se adaptar ao slow motion que é viver quase congelando a todo instante. Ou pior: se ambientando no quentinho de casas, bares e ambientes, e tendo que enfrentar o ar gelado que bate na face. Dualidade demais pra quem não se divide quase nunca.

Acha de bom grado conviver com as quatro estações? Troque comigo, se mude pra cá. Venha viver na pele - e adoecer, possíveis são todas as doenças respiratórias e alérgicas de se adquirir ao menor sinal de imunidade baixa - esse looping de sensações térmicas que o Sul do país comporta. Só não tome vinho demais, que este até aquece e alegra o momento, mas um adendo: no outro dia, a dor de cabeça é grande e a tontura, uma consequência. Já que veio, pode ir. Mostramos nossas botas, vestimos todos os casacos do armário na tentativa de não repetir roupa e usufruímos das enfermidades, caldos, sono pesado e a degradação corpórea infernal dos dias inertes. Falta muito pro suor escorrer na face ou embaçar o óculos na praia, e pro povo se permitir algumas vulgaridades que só o verão nos dá? Torço pra que não. Que venham os dias de barrigas e braços de fora. Logo.

1 Comentários:

  1. Nossa que legal esse Blog, olha devemos ter alguma ligação, Pois tambem sou Paier, Me Chamo Fhilipe Paier, gostei muito do blog, espero poder entrar em contato com você, até mais ;)

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