O dia em que me tornei Penelope

6.05.2013 -
 


   Já tive, já tive um George Clooney pra chamar de meu. Vocês já devem ter tido também: acontece como fato tão isolado na vida da gente que dá até pra chamar de milagre, por engano. Foi abrir os olhos certa manhã de sábado, ainda 7h e o assistir dormir. Nossa, que charme é esse que consegue ultrapassar a barreira da boca entreaberta de sono profundo onde todos os outros ficaram? Uma rápida espiadinha no espelho que ficava ao pé da cama: eu, euzinha mereço um astro de cinema desse nível? Cara aí de cima, tem certeza? Melhor aceitar e admirar um pouco mais essa obra renascentista espraiada assim, babando um pouco pra chamar de minha. E lá me convencia eu que entre as felizardas com sorte no amor - dessas que deixam o lado avassalador da paixão foder todas as outras áreas da vida - o mais fascinante dentre os homens de todas as faces dessa Terra havia me escolhido. Que fosse

   Não se chamava George, obviamente, mas sabia me encantar mesmo vestido feito mendigo, vestido pra passar o dia entre à preguiça. Fosse de Crocs ou blusa de listras com bermuda xadrez, fosse adoentado e de saco cheio da cara do mundo ou até mesmo com corte novo de cabelo: o mesmo charme inicial, que me fizera refém de um sentimento de posse nunca antes experimentado, apenas engordava, engordava e ganhava forma com o passar dos dias. De unilateral nada tinha nossa fugaz união: achava incríveis minha forma peculiar de visão de mundo, a sonoridade singular de ideias e espontaneidade de ações nunca comandadas pelo estado racional da mente. Além de, claro, grande admirador de atributos físicos como largura de quadris, finura de cintura e o cabelo que via como fios de ouro - enquanto eu mesma apenas o enxergava como cor de rato. Podia me puxar pelo braço Javier Bardem, Santoro ligar incessantemente, Somerhalder falar manso no ouvido: nojo, pena, estremecimento nenhum e a vontade ainda maior de me encontrar logo com o senhor único do meu altar, a personificação do encanto.

   Fascinada, escrevia bilhetinhos, deixava cartas e alimentava minha obsessão pelo ciúme pela beleza do que - ou de quem - erroneamente julgava me pertencer. E Mr. Clooney, o que comigo deleitava o prazer de conviver com uma criatura por ele irresistivelmente apaixonada, passou a sufocar. Com a venda de uma paixão quase patológica sob os olhos passei a fazer vista grossa para saídas, controlar horários e depender quase sempre de um sentimento que não via se deteriorar com tanta falta de liberdade. As pessoas, em suas sãs consciências, viam nada espetacular onde mais tarde vi que talvez não tivesse mesmo: mas filha, cê tá bem? Mas amiga, ele é normal, sei lá, acho nada demais... George continuava lindíssimo enquanto todo o tesão que sentia por mim desaguava cada vez que agia como se fosse sua mãe. Mesmo sem querer, doente de um entusiasmo arrebatador, quase quase o perdi. Até aquela manhã.

   O dia em que acordei Penelope é outra data que merece destaque. De cabelo recém escovado, máscara nova encobrindo os cílios e um vestido vermelho justo, poderia ser também Alicia Silverstone em algum clipe do Aerosmith ou Scarlett Johansson como a diva ingênua e meio desajeitada irritantemente bonita de todos os filmes em que atua. Depois de tanta alimentação correta, investimento em novas roupas, cuidados com as pontas duplas e gastos no salão para chegar ao nível do astro de cinema que imaginava acordar do meu lado de vez em quando, deu pra visualizar minha sensualidade atropelar todo o borogodó daquele gentleman mulherengo que não se prendia a ninguém e que num rompante de atração, me selecionara no meio de tantas para compartilhar momentos, caminhar ao lado, passar noites. Tanta literatura sobre mulheres poderosas e comportamentos errôneos deve ter chamado a fada madrinha pra mudar as engrenagens da minha cabeça, enferrujadas e maquiavélicas, pra algo reluzente feito os sapatinhos da Cinderela.

   Sempre tão neurótica e obcecada, enérgica e vivaz feito essas mulheres de Almodóvar, deixei que a autoconfiança subisse à níveis antes nunca alcançados. Com cabelo bom e essa visão maravilhosa de mim mesma, construída em meio ao caos de um imaginário deturpado em ilusões, desliguei o celular e fui viver. George Clooney nunca mais foi o mesmo - pra mim, que passei a vê-lo como pessoa real e gostar de forma decente de suas qualidades e defeitos e pre ele, que tinha nome e na verdade desceu do pedestal onde o coloquei pra ter certeza que tinha do seu lado alguém de carne, osso e segurança. Um pouquinho de ansiedade também, vá lá, mas controlada servia até como lembrança de ser humana - que era.

8 Comentários:

  1. Gostei, gostei, gosteeeeiii!!! parabéns :D

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  2. Camila. Você é ótima. Ou melhor, mais que ótima. Desde a primeira vez que entrei no seu blog há uns anos atrás, nunca mais consegui sair daqui. Você tem uma característica literária que é só sua. Não sei explicar. Mas é só sua. Parabéns, como sempre.

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  3. Seus textos só melhoram. Tá mandando muito bem.

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  4. Você voltou, e eu depois de sumida na minha correria, também. E que ótimo é ler-te em um texto tão ótimo, assim. Peculiar e sempre, sempre muito bom. Parabéns, Camila!

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  5. Toda vez que leio um texto seu a cena se repete: começo a leitura sem muito interesse, mas basta ler o 1° parágrafo e até a minha postura em frente ao computador muda! Os meus olhos não conseguem dar atenção a mais nada, a não ser às suas palavras. Que fluem, formam frases lindas e inteligentes. Continue assim. Você é perfeita em tudo que escreve. Beeijos

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  6. Guria, parabéns! Teus textos só melhoram e a minha vontade de escrever, nem que seja um pouquinho, o tanto que tu escreves, só aumenta.

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  7. Relendo o texto, fiquei impressionada como tu soube encaixar tudo. Eu, que conheço a história toda, fiquei maravilhada em tão boas linhas, tão bela escrita, tão talentosa forma de se expressar. Tá tão tão tão bom. Um dos melhores, certamente. bj bj meu

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