Não é a mamãe

6.24.2013 -
   
   
   Ainda lembro do grande drama daquele 2003 histórico: se fosse menina, teria que dividir o quarto. Menino, e meu irmão é quem passaria a compartilhar a metragem quadrada ao lado do novo fedelho da casa. Afinal, quando a sua mãe - que declaradamente dizia ter fechado a fábrica - declara que está grávida, do alto dos seus 11 anos as preocupações fúteis como divisão de atenção, espaço e gratificações era o que reinava na minha cabeça. Ou em como ia ser despertada nas madrugadas por um bebê chorão que não me deixaria dormir e trocaria de roupa umas duas ou três vezes por dia. Talvez a Avril Lavigne não falasse sobre mais um irmão em todo o álbum Complicated, que eu conhecia de cor e salteado. Com certeza não.

   Ultrassonografias, dicionários de nomes e uma barriga em estado crescente mais tarde, passei a me sentir encantada com a ideia de acompanhar desde os primeiros instantes daquela nova vida. Tinha ideias magníficas para nomes - sempre antigos ou fora do lugar comum Maria alguma coisa ou Ana outro clichê, amava ir comprar roupinhas e imaginava como seria cada detalhe daquele punhado de DNA em formação gestando de dentro do mesmo útero materno que já ocupara. Irmã de menino tem todo um despacho que nem ciúme me fazia sentir: Matheus nascera pra ser o principezinho da casa, enquanto eu, permaneceria a primogênita querida. A liderança permaneceu, porém, com um viés de mãe substituta que teci ao longo dos anos - quase sem perceber.

   O misto de audácia e orgulho que me toma, contudo, toda vez que perguntam se a menina de cabelos escorridos e olhos que sorriem é minha filha. E poderia? A impossibilidade dos doze anos que nos separam me fazem crer que não. Todo meu tamanho e carranca, em contraste com a pequenez em formato de doçura de uma das melhores crianças que conheço - e não falo com irmandade no discurso, acreditem - fizeram que desde as voltas de carrinho pelas ruas do bairro pensassem os achistas de plantão que, com a alta propagação das gravidezes precoces, que eu cheia de coxa e peito e altura com 13 ou 14 anos, poderia ser parte da estatística, oras.

   Sempre foi de muito bom gosto poder passear com uma criança tão bonita, saudável e de inalante bondade por aí, sempre. Com o passar dos anos, Alícia começou a tomar conhecimento daquelas perguntas toscas como "é tua? mas que novinha!" ou "teve ela cedo, né?" que surgiam dia na pracinha, outro no clube ou no caixa do supermercado. Quando ganhou idade, passou a responder, atrevida "não, ela não é minha mãe" e saíamos as duas de mãos dadas e risada no rosto - como puderam pensar isso, esses tolos? 

   E não cessou com o tempo. Continua. Ainda assistimos atentos olhares urbanos que pensam "que bela dupla" e somos obrigadas a escutar cantadas onde a "mamãe" (falsa, postiça, irmãe) é parabenizada pela beleza jovial que possui. Quase nos acostumamos, um pouco porque há horas em que mimo e estrago e noutra me vejo dando sermão. Outro pouco porque passou a fazer parte de nossa rotina enquanto irmãs. Esses dias, um garoto disse algo que deixou nossa boneca desolada. Fui a primeira a saber. A fúria me tomou, ele que não passasse pela minha frente. Não é a mamãe, mas dá quase na mesma. 



4 Comentários:

  1. Que texto lindo, guria! Sou filha única, mas sempre desejei ter uma irmã para compartilhar essas "meninices" que são maravilhosas.

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  2. Lindo texto, linda relação das duas!! Não tenho irmã, mas tenho uma priminha que compartilho quase dos mesmos sentimentos e situações... é bom demais! Beijão

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  3. Passei pela mesma história em 2002, quando aos meus 10 deixava de ser filha única (apenas aí a diferença, n temos um boy por aqui heheh). Também já ouvi muito ao buscar ela na escola ou em lojas, na rua mesmo, o clássico 'é tua?'. Bitch, please. hahaha' Digo às vezes que já sei o que é ser mãe, que já fui um pouco e por isso não tenho pressa pra ter uma pra chamar de minha - se é que vou ter.
    E, ah, comentário necessário: lin-das! :)

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  4. Me sinto especialmente tocada com este texto. Só que minha história é um pouco diferente. Fui "filha única" (coloco entre aspas porque tenho um irmão mais velho por parte de pai mas que nunca morou comigo) por 15 anos. De pois disso minha mãe engravidou DUAS vezes! Mesmo pai e mesma mãe, a diferença do mais velho pra mim: 16 anos, e do mais novo 18! Pois é, chamam meus pais de avós muitas das vezes que saímos todos juntos. rsrs. Mais o amor é incondicional, e não sei o que seria de mim sem eles, também acompanhei todo o processo e acompanho ate hoje! São meus!kkk E cm n podia deixar de dizer, seus textos são lindos, parabéns! um beijão.

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