Brinquedo livre

6.08.2013 -

"Brinquedo livre, pessoal!"

Algumas meninas organizam com as almofadas de sentar na rodinha uma super cama de casal para brincar de mamãe e filhinha. Os meninos mais agitados sacodem carrinhos com as mãozinhas pequenas de quem tem 4 ou 5 anos - alguns poucos, 6 - como se fosse as mesinhas da sala fossem uma enorme pista do Hot Wheels. Um lê, outra pede que eu faça uma trança em seus finos cabelinhos louros. Um deles senta ao meu lado. Carrega uma Polly despida e um Pica Pau em tamanho proporcional. "Sabe profe, eu só brinco com essa bonequinha aqui porque ela pode se mexer bastante" e logo a faz cair de um precipício numa luta perdida enquanto a juba vermelha sem ações golpeia, golpeia, golpeia. "Posso bincá zunto?" "Tá, mas tu vai ser o Pica Pau", impõe o primeiro inventor da peripécia. Apenas observo. "Agora eles vão se apaixonar, tá?"

"O que é se apaixonar?", me vejo obrigada a interromper. Se olham, riem em olhares cúmplices, me fitam embaraçados no assunto de gente grande. "Beijar na boca, né!" um deles diz. "É? Eu não sei", vou além para ver até onde eles vão também. Atento a tudo ao redor, um outro interrompe como sabedor do significado de todas as palavras do mundo "EU SEI, profe! Eu sei!". "Então me explica, porque eu não sei, não..". Ficam perplexos diante da minha ignorância ensaiada de adulta: mas como é que a professora NÃO sabe? "Eu vou te explicar", resolve o mais velho entre os três, atravessado no assunto.

"É assim ó: primeiro o menino e a menina se conhecem. Daí eles ficam muito amigos, e fazem bastante coisas juntos, veem filmes, vão no parque. E vai passando o tempo, eles começam a se achar bonitos e quando ficam grandes viram namorados. Só que primeiro, tem que ser muito amigos, né? Aí eles podem se beijar na boca. Depois casam e têm filhos. Isso é só por último."

"Mas eles bezam na boca, né profe?"

"Beijam, mas primeiro é melhor se forem muito, muito amigos. Porque daí existe uma chance de que isso não seja só paixão e vire amor, como o colega disse"

Nesses minutos de observadora das brincadeiras alheias (e também aluna), constatei, quem sabe, o óbvio: a ignorância do acréscimo de idade nos faz deixar de enxergar com clareza algumas coisas. Se, feito receita de bolo, a amizade fosse o ingrediente primordial para qualquer relacionamento "dar certo" - o que eu tenho preferido trocar por "ser alegre" - a ingenuidade de estar apaixonado teria o mesmo gosto da hora de brincar com liberdade. Opcional, cúmplice, leve e cheia de novidades criativas. De um envolvimento amigável que consegue se tornar não só faísca, labareda e tesão: também admiração mútua, conversas coloridas e um jardim inteiro de consideração. Como menino que escolhe a Polly, tão cativante a sua flexibilidade. Crianças, esse pequeninos oráculos das grandes verdades que a gente esquece pelo caminho.



4 Comentários:

  1. Não canso de elogiar seus textos. Bem escritos, com um ponto de vista que só não é mais interessante do que o das crianças. Me lembrou daquele livro colombiano (acho) com os aforismos das crianças de 6, 7 anos.

    Parece que o tempo vai tornando a gente mais frio, mais direto, e acabamos perdendo a paciência de observar, de brincar com as situações e as palavras como fazem as crianças.

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  2. Incrível sua capacidade de transformar simples momentos em belos textos. Você tem alma de escritora! Abrir o seu blog e encontrar um texto novinho em folha para ler é sempre resultado de um dia mais feliz. Não pare de escrever nunca e cultive esse dom que é único e te faz diferente dos demais. Beijos beijos, Camila! Sou sua eterna fã número 1.

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  3. Criança é tudo de bom! e enxergar através dos olhos delas, faz toda a diferença e sentido também!!! só pessoas com sensibilidade descobrem isso...
    Um abraço!
    http://aescritora.com/foradocomum

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  4. gente que amorrr <3
    "É assim ó: primeiro o menino e a menina se conhecem. Daí eles ficam muito amigos, e fazem bastante coisas juntos, veem filmes, vão no parque. E vai passando o tempo, eles começam a se achar bonitos e quando ficam grandes viram namorados. Só que primeiro, tem que ser muito amigos, né? Aí eles podem se beijar na boca. Depois casam e têm filhos. Isso é só por último."

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