Sala de espera

5.16.2013 -
  

  Faz menos de dez minutos que ele me deixou e frente ao casebre bege claro com janelas pequeníssimas e disse "aqui, o cheque, Malu". Escutei duas músicas no meu ipod e ainda não dei passo algum depois de virar e analisar bem a arquitetura toda como quem pretende desenhar um futuro: na hora de fazer é fácil, podia escutar a mãe maldizendo dentro da minha própria cabeça. Agora era entrar - ainda que de cabeça baixa - dizer meu nome e horário - ainda que onze ou doze minutos atrasada - folhear qualquer Veja, Crescer ou jornal do dia que estiver ao alcance até que a ansiedade escorra das pontas dos dedos para o papel.

Que é que eu tô fazendo aqui era pra estar estudando pro exame de amanhã álgebra é um saco e a professora tá mó gorda quando eu for velha quero ser tipo a tia Clarisse essa mulheres que usam tailleur são tudo pobres de espírito ao menos o Alvinho é rico e o pai dele passou esse cheque com assinatura de mil sobrenomes que só as pessoas com muito dinheiro tem eu tenho no bolso um chiclete de menta a chave de casa e o tal do papel se amanhã chover e eu ficar enjoada demais dá pra faltar a prova matemática é tudo difícil eu só acho fácil somar a quantidade de vezes que eu pedi pra gente colocar a camisinha assim sussurrando gemendo de leve e óbvio que o Álvaro colocou porra nenhuma se fosse menino ia chamar Bernardo menina Clarissa um A trocado só pra homenagear a minha tia ela parecia a princesa Diana e tinha toda uma delicadeza que a minha mãe não herdou e eu muito menos.

  Maria Luísa Pires da Fontoura. 9 de novembro de 1991. Isso, 17 anos. Não, nenhum problema de saúde. Sangue A+. Olha, acho que tem umas 16, 17 semanas. Não, ninguém me acompanhando. Ok. Ao meu redor, uma menina muito mais nova e uma senhora que, visivelmente, não tem condições de pagar os quase 5 mil que meu futuro-ex-sogro desembolsou às pressas quando descobriu que poderia ser avô. Pego um copo d'água, já que a vontade de um cafézinho é sabotada pela gastrite desenvolvida. Estou atrasada mas, pelo visto, o médico ainda mais. Desligo o celular como quem interrompe a própria vida por algumas horas. Uma delas é chamada, a mais nova. A moça restante no consultório todo montado em tons de um verde bem clarinho me encara.

Se a mãe soubesse que ao invés de estudar na casa da Amália tô sentada eu aqui do lado de uma garotinha que deve ter sido estuprada e da empregada de qualquer família que o rapazinho abusou porque achou que lhe era de direito com certeza eu levaria uns bons tabefes ao chegar em casa então ela que fique pensando que entretida no livro de contas que não vou usar nunca mais eu olho pro relógio cinco vezes por minuto e os segundos se arrastam ao invés de passar a mão na minha cabeça quando como o Alvinho fazia nas tardes em que a gente fumava maconha tomava duas cervejas e ria demais na cama dele agora deve ter lá qualquer vadia que não vomita nem tem barriga e não tá num carniceiro qualquer esperando que a mãe não saiba nunca que rompeu uma vida porque quis a igreja ia julgar eu nunca vou nas missas mas rezo Ave Maria e Pai Nosso todas as noites às vezes peço algumas coisas como se existisse algum deus que realmente escutasse eu ouço todas as manhãs o som do despertador e aperto o modo soneca ao invés de desligar parece como agora quando cada segundo brilha muito e deveria passar logo pra eu acordar desse pesadelo todo. 

  Faz só meia-hora mas ainda aguardo. Noto que existem duas portas e minha esperança de logo ser chamada é chama que se renova. Chega outra garota que deve ter pouco mais que a minha idade e com a voz baixa se dirige à secretária, a passos vagarosos, os movimentos mais lentos ainda. É bonita, o cabelo médio repicado ruivo avelã, liso, a pele muito branquinha, a magreza expressa numa calça colada bordô que chega a ser bonita aquela demonstração de anorexia. Aperto contra o peito o caderno e os livros, a falta de som de rádio, televisão ou conversa alguma invade o ambiente e aponta contra todas nós o preço a ser pago por uma irresponsabilidade grotesca dessas. "Maria Luiza", a voz grave de homem maltratado pelo tempo me chama. Levanto, mochila nas costas, o peso da carência indisciplinada nos ombros: rastejo como um condenado ao caminho da forca. Me dispo e visto aqueles aventais que os enfermos sempre colocam; o bumbum de fora sentindo o frio de junho em cada pelo eriçado. Sentada na cadeira ginecológica, adormeço com o líquido fincado na veia que me dopa e transcende pra uma realidade grogue onde minhas curvas estão no lugar e eu apenas estudo aritmética com alguma colega dona de caderno caprichado que sabe mais a matéria.

Essa espera me agonia a cara dessas outras aqui também na merda é algo casa de massagem que nada cê entra e pedem esses dados como em qualquer consultório aborto nunca pensei que ia fazer quem diria já fui até contra nos tempos de crisma e catequese que a vó me levava toda orgulhosa família portuguesa é assim hoje não acredito em mais nada as religiões são todas iguais mesmo fé eu tenho em mim e só queria ser como aquela menina que entrou agorinha e ter as pernas bem fininhas dois cambitos eu uso 42 com certeza ela usa bem menos acho que 36 bordô é uma cor bonita aposto que é publicitária todas são estilosas eu tenho essas tatuagens que fiz ano passado juntando o dinheiro da mesada acho que não serviria pra ser também criatividade não é meu forte cadê esse cara que vai tirar logo esse criança de mim eu mãe imagina só já roí três unhas e quebrei a do dedão Maria Luísa só o pai me chama assim e quando tá puto que frio do cacete tirar casaco blusa meia calça tênis e ficar pelada como na casa do Alvinho só que agora tá só o bumbum se eu conseguir algum atestado na saída posso faltar a prova amanhã eu mãe nem de bebê eu gosto acho todos com cara de joelho se fosse dessa moça mais velha a ruiva aposto que ia ser lindo mas meu ia nascer todo minúsculo e moreninho ficar mais gorda que isso não dá tem o vestibular daqui uns meses preciso tomar jeito na vida vergonha na cara vou começar a estudar semana que vem como se a mãe nunca fosse suspeitar de nada que vim nessa casinha pequena num bairro família queria médica mulher vai que esse maluco me estupra eu nem vou saber tá tudo cada vez mais cinza e preto um sono do cão invadindo só espero que seja rápido.
  As horas que se seguiram passaram incrivelmente rápido. Como num cochilo bom, depois do almoço, adormeci calmamente e acordei sem dor alguma. “Ocorreu tudo bem, para dor tome Paracetamol ou Dorflex, nunca Buscopan”, disse o médico, enquanto eu arrumava a gola da minha blusa de lã recém recolocada. Assenti, acolhendo a ordem de quem parecia entender mais do funcionamento do meu próprio corpo que eu mesma. Recolhi meus pertences, saí do consultório e consegui balbuciar um “obrigada” tímido antes de fechar a porta. O Álvaro havia dito pra ligar assim que terminasse, prometeu que me buscaria ali e deixaria em casa. Também responsável, a voz do outro lado da linha pediu que eu aguardasse uns dez minutinhos antes de esperar em frente à casa minúscula antiga num bairro classista da cidade. Sai, abri a bolsa e tirei o maço de cigarros pela metade. Acendi um, sentei no meio fio e pude sentir a vibração do celular avisando que em poucos minutos ele estaria ali. O vazio emocional que me tomou conta invadiu sem licença, piedade e dó. Sabia que adentraria o carro sem parte da minha inocência e que metade de um trauma havia sido trançado nas horas em que tiraram um pedacinho minúsculo de uma mistura de mim pra sempre.

Agora já foi tinha ido embora já com quatro meses ou coisa parecida eu nem quis saber sexo olha muito o ultrassom pra quê não dá pra se apegar à ideia de ser mãe se nem comprar bebida sozinha num supermercado eu posso incrível como foram só alguns momentos mas eu consegui sonhar com um quartinho todo rosa ou as roupinhas azuis que eu compraria junto com camisa de time e algumas horas depois isso nem existe mais foi escolha minha o Alvinho só concordou chorou pro pai pagar imagina só ele também paizinho de família que coisa mais cafona acabou de entrar na faculdade eu quero passar em Nutrição e fazer os outros comerem bem a começar por mim lá em casa só tem porcaria se bem que eu amo biscoito de chocolate em especial Bono se eu tivesse tido essa criança ia aproveitar o barrigão pra engordar tudo que desse e colocar a culpa no nenê mas agora já nem tem mais nada disso melhor esquecer as bonecas e sapatinhos vermelhos e fraldas de vários tamanhos assim como a bolinha pequena pra ele chutar quando caminhasse no um aninho Clarissa ou Bernardo morreu esse nomes pra caso um dia eu queira ser mãe de verdade também sei não se vai existir essa vontade foi tudo tão traumático, contar pro Álvaro depois a angústia de não saber o que fazer vomitar no banheiro sozinha não conseguir dormir de barriga pra baixo agora passou passou e eu vou fumar um cigarro será que era menina eu ia adorar no fundo uma bonequinha viva pra vestir como bem entendesse e se fosse garoto ia matricular em judô futebol Lucas também era legal o Álvaro sempre liga nas piores horas nem fumar em paz dá que saco chega daqui a pouco melhor secar essa lágrimas que fracote eu não sou que isso ainda bem que mãe também não por enquanto.


4 Comentários:

  1. Nossa, guria, tu tá cada dia escrevendo mais lindamente!!! Me prendeu muito esse texto, do início ao fim.

    Parabéns, parabéns, parabéns! Beijãooo

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  2. concordo com a Bruna Cabreira, a cada dia escrevendo maravilhosamente. Parabéns querida Paier ;*

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  3. Excelente, Camila! Bem diferente do teu estilo, mas ótimo como sempre :)

    ;*

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  4. Bá, curti! Como já comentaram, diferente do teu estilo - até chegar ao final não sabia se iria ver outro nome ou não, na verdade - mas me surpreendi! Tão diferente quanto teu quanto sensacional.

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