Em baixa

5.11.2013 -


A luz do minúsculo banheiro de piso frio cor-de-rosa muito clarinho e azulejos em bege nas paredes havia ficado ligada. O vapor da água quente, recém saída do chuveiro a gás impregnou o espelho da bancada que comporta a pia. Loções hidratantes, tinta para cabelos, o pente de madeira adquirido com a promessa de que, este, baixaria o frizz dos fios de seu cabelo médio ondulado. A toalha felpuda em azul marinho, ainda úmida, tapava o vidro do box e os vestígios de pele morta, suor da noite passada e pelos no sabonete que ele costumava deixar como herança no chão molhado. Parou. Acompanhou o reflexo do rosto inchado como quem se comove com o próprio martírio. O olhar levemente direcionado para a direita denunciou: a privada. A mesma tampada impecavelmente levantada que foi motivo de tantas discórdias e reclamações matinais, já rotineiras. Por certo, depois de expurgar do corpo a sujeira para iniciar o dia de forma limpa, abrira a braguilha, expelira sua necessidade, e – invariavelmente – esquecera seus fluídos mictórios suscetíveis aos três metros quadrados por outros três de parede do ambiente. Desabou diante daquele objeto que tanto já fora estopim, jogada no tapete ainda molhado. Grunhia a dor daquele “mais tarde volto para pegar o resto das minhas coisas” que ecoava em sua cabeça como o fim. Havia sobrado ela, despedaçada e o pingo de mijo, intacto na cerâmica do vaso em rosé.

 As gotas salgadas que lhe saltavam os olhos caíam na curva do sorriso, ali perto do canto da boca – e quando gemia em soluços, podia sorver aquela mistura de choro e café bebido há pouco, logo antes de a discussão de intensificar e tomar proporções holocáusticas. Uma merda. Que grandessíssima merda começar o dia assim. A ideia de ligar ao trabalho e inventar qualquer disenteria, virose, enxaqueca ou piolho lhe parecia plausível – não fosse dia de reunião, já teria dado um jeito de avisar a secretária antes mesmo que a subordinada chegasse ao escritório. Essa sim, tornara-se mais sua confidente que Carlos com o arrastar daqueles cinco anos de relacionamento que com as minúcias, contradições, pequenas implicâncias e a falta de tolerância diárias, ruíra ao costumeiro desgaste. O amor que um dia os uniu já não tinha mais o viço de relação simples iniciada, a vontade de estar junto sempre que possível, as labaredas de noites e noites infinitas onde recomeçar a cada meia-hora era como raspar o fósforo na caixinha e deixar queimar. Olhava a privada como quem encarava as nojeiras todas que minavam a vida a dois e que, com o tempo,  fizera esmorecer os sonhos de três filhos meninos, casamento no exterior, moradia fixa no Bom Fim. O respingo de mijo a fazia fixa naquele pedacinho dele que ainda residia ali e no final da tarde faria mudança para outro banheiro pequenininho qualquer.

 O moderno smartphone tocava, tocava, tocava enquanto, absorta ao detalhe representante dos excrementos de quem foi até o limite de amar, mas não conseguia mais, Joana era a figura catatônica de quem não compreendia o fim. Era mesmo o namoro dos dois o inferno esbravejado por ele horas atrás? Neurótica, ansiosa, impaciente, sentimental: sabia de cor as adjetivações que o amado usaria para justificar o sufoco que sentia na pressa de ter ido morar junto e deixado para trás a liberdade das noites em que a cama de solteiro pertencia a ele e ninguém mais. Assim como o controle remoto, a sala de jantar sem livros por todo o canto e as quartas-feiras, antes sagradas para a combinação futebol sete e barzinho com os amigos de escola. As calcinhas na torneira do chuveiro, a toalha em cima da cama, a louça sempre suja: ser completamente íntimo das manias, maluquices, e peculiaridades do outro era um desafio diário à elasticidade do amor - aos poucos corroída, fragmentada, desunida à paixão inicial que arrebatou ambos jovens demais, recém formados – ela, em Administração, ele em Ciências da Computação - como aceitar que tanto sentimento investido se esvaísse assim, pelo ralo?

 Atendeu. "Márcia, inventa uma desculpa qualquer, qualquer uma, eu nunca estive tão mal na vida", conseguiu dizer entre soluços. Desligou o telefone. Fechou as cortinas da casa. Pegou dois Rivotril e tacou na boca; num gole só absorvera os ansiolíticos, que dos males, o pior: ficaria calma, controlada e racional. Podia ouvir a voz da mãe na cabeça, ecoando aqueles eu-te-avisei de cada final de romance anterior. Pegou o telefone, discou o número da genitora. "Alô, Joana? Filha? Corre pra cá e vê se para de chorar, tu não é disso!". Vestiu o primeiro vestido que seus olhos encontraram, no chão do quarto. Lembrou da última noite em que passaram juntos - Carlos arrancara a peça com tamanha pressa e força e talvez o sexo fosse o que ainda os enlaçara: mesmo de camiseta e cansado após um dia maçante de quase 10 horas de trabalho, comparecia como nenhum outro antecessor. Uma pena as frequentes brigas, a sua venenosa paranoia, o descaso e a acomodação dele. Deixou escorrer mais algumas lágrimas, rolantes sob o queixo, caídas sob os ombros e colocou um par de óculos escuros.

 Ainda a luz do banheiro acesa. O vaso ali, o puxador da descarga intacto. A gota, a tampa virada pra cima, o fedor de mijo dançando sob o ambiente. Olhou firme pra teimosia masculina daquele que fora já motivo de tantos suspiros e canções de amor cantaroladas enquanto cozinhava. Que baita merda tudo acabar assim. Ela, que não era mulherzinha dessas que chora, é que não correria atrás. Se ele quisesse ir, que fosse. Com força, puxou o botão como se fosse possível expurgar da vida. O som do descarrego a fez lembrar aquilo que havia esquecido: o amor morre em alguns lugares para renascer em outros. Era isso. Ver a água renovada cintilar e se mover na patente reforçou sua fé nessa constante renovação a cada esquina de futuro que cruzamos.

 Tampa baixada, página virada. Coração em processo de desocupação, mas sem respingos. Menos mal.


(Esse é mais um conto que produzi nas minhas aulas de criação literária. Cada um sorteou um objeto e, dentre vários, fiquei com a privada. Pra tentar fugir do óbvio e das escatologias todas, migrei pra situação tão costumeira que acaba passando batida - mas que irrita a maioria das mulheres - de, os caras, não baixarem a tampa do vaso depois de fazer xixi. Bom, tentei. É isso. Espero que gostem, xoxo)

7 Comentários:

  1. Que demais Camila! Ler contos teus é uma coisa bem diferente, mas gostosa de igual forma. Quem sabe escrever consegue de qualquer jeito, eu acho. Essa oficina que tu faz me parece bem bacana, penso em fazer algumas também, sempre ajuda. Gostei mesmo, continue treinando e se aperfeiçoando, tá ficando ótimo! beijinho, té mais

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  2. essas tuas aulas de Criação Literária estão te rendendo bastante querida Paier, estou adorando seus fins dessas aulas. Adorei o conto, é verídico isso. Quando minha irmã divida a suíte dela comigo, ela me ensinou três coisas fundamentais: Baixar a tampar do vaso sanitário, não deixar restos de pastas de dentes na pia e sempre, sempre, sempre bater na porta antes de entrar, em respeito a sua privacidade.
    X.O.X.O Querida Paier, fico feliz que sue blog se estabilizou, vou viciado nele e como uma boa droga faz, não consigo viver sem.

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  3. Camila, seus contos estão ótimos! Estou adorando essas suas aulas de criação literária, estão sendo ótimas para você!

    Beijos e continue escrevendo muito! haha

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  4. Camila tu é ótima.
    Sigas assim, beijinhos

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  5. Este comentário foi removido pelo autor.

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  6. Camila, sempre que sento em frente ao computador para ler seus textos, o mundo pára por um tempo. Você consegue prender, roubar a atenção, instigar e fazer com que eu me obrigue a ler tudo até o fim! Continue assim. Não pare de escrever nunca!

    Beeeijos querida!

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  7. Camila, não poderia deixar de comentar esse texto. Incrível a forma de usar algo tão simples, tão costumeiro e transformar numa situação pra mim, impensável: como imaginar um pingo de xixi no sanitário sendo ponto de partida pra um conto tão carregado de emoções? Só você. Seu jeito de escrever, de desenrolar os fatos no texto, me encantam. Espero ansiosa para ler um livro seu. Espero que seja breve! Beijos!

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