Polenta nos braços

4.04.2013 -


- Ma non come essas raspas do bolo, nena. Vai tudo pras teta quando tu crescer, é!

Era isso que dizia minha avó materna, firme na crendice proveniente do nordeste gaúcho de que, menina que se aventurasse a eliminar os restos da massa de bolo da tigela veria todo aquele excesso ir se acumular nas glândulas mamárias logo mais, quando desenvolvesse. Na época, colocar silicone era cirurgia feita por pouquíssimas. O medo de que eu viesse a usar um número grande demais de sutiã no futuro e sofrer com dores nas costas por carregar uma farta comissão de frente – como a maioria das mulheres da família – fazia vovó ficar alerta. Mal sabe a mãe da minha mãe que, descendente de italianos, corpulenta e grande desde muito nova, todo essa demasia de açúcar, farinha e ovos deve ter pego alguma rota de desvio e foi se depositar justamente nos meus dois braços (assim como o queijo colonial, o pão caseiro, a sopa de capeletti, a polenta e as chimias elaboradas); a parte do meu corpo que, decididamente, é o alvo mais freqüente de críticas e chorosas reclamações. Uma típica braçuda polenteira, é o que eu sou.

A polenta, quando se está cozinhando, é uma iguaria molenga que comemos aqui no Sul e que é preciso muita força e braçadas de nadadora a cada rodada da colher de pau em volta da panela pra que ela encorpe e fique mais apetitosa ao degustar. Por essa razão, as moças que a cozinham no interior do Rio Grande do Sul costumam quase todas falar o dialeto italiano, se abastecer com as guloseimas altamente calóricas da culinária made in Itália e ostentar avantajados muques, braçaços, brações. Assim como meu tipo corpóreo, costumam engordar nos quatros membros – enquanto fica a cargo do tronco permanecer como a parte mais delgada da minha imagem (o rosto quadrado e a cabeça grandona não ajudam). É nas duas extremidades da minha parte superior que se focam os olhares frente ao espelho antes de sair, em fotos ou quando empresto uma roupa a alguma amiga; sempre protuberantes, desastrosas, fofinhas bisnaguinhas de células gordurosas que me fariam mais feliz caso resolvessem sumir do mapa da minha anatomia.

Entendo a piração quanto à barriga saliente, a praga da celulite, a falta de peito, o desalinho do dentes ou a baixíssima estatura. Compreendo, mesmo que a culpa pela minha insatisfação corpórea se baseie na gordura adiposa que se localiza vez que outra entre os ombros e o cotovelo. Junto da calça jeans durona, é indicativo de que nos últimos dias, talvez alguns quilos tenham se juntado à grossura das pernas. Por mais que tenha emagrecido alguns manequins nos últimos anos, minha praga é talvez o sonho de muitos marombeiros desses que toma whey protein atrás de whey protein e vê resultado nenhum: quando malhava, era incrível a capacidade pra ficar ainda mais acentuado o meu traço de moça que comeu demais na infância iguaria da culinária italiana - entre elas, a raspa da massa dos bolos que cozinhava sob olhar atento da dona Rosa.

Para moças que sofre com os furinhos indesejáveis nas pernas, calça. Baixinha demais? Salto altíssimo. Se a barriga é que incomoda e os braços e pernas são finos, nada como um vestido soltinha. Olheiras, espinhas, nariz de batata ou boca pequena: maquiagem corrige. E quanto ao bração, que fazer? Mesmo tapado, continua ali, quase um anexo de mim mesma com vida própria e onde se deposita a desconfiança em mim mesma. Por mais que os outros jurem que é paranoia da minha cabeça. Ou que existem pequenos defeitinhos muito piores como ser alta demais num mundo onde os homens tão cada vez mais baixos, ter cabelo ruim que nem com chapinha sossega ou uma escabrosa dentição. É nessa visão quase infernal de olhar pra esquerda (poderia ser pro polo oposto também) e ver mais carne que o desejável que se instala a minha frustração. Regata, casaquinho, baby look: nem com muita dieta me sai a aura da menina que bate a massa da polenta com a barriga colada no fogão. Nos braços, instaurada; na minha mania, loucura de desejar lipar esse excesso pra ver se passa. Rapei tigelas à toa: muito gostaria que a avó tivesse correta e a parte crua sabor chocolate, baunilha ou coco decidisse ter se alojado no peito, viu? Me abraça, eu juro.


10 Comentários:

  1. Guria, em pensar que eu achava ser a única a ter braços a moda italiana?
    Já ouvi diversas vezes dizerem que era paranoia, que eu devia me preocupar com outras coisas ou até mesmo, deixar pra lá. Mas como? Se ao me olhar no espelho, os braços parecem ser ainda maiores e a vontade de que eles diminuam é proporcional?
    Estamos no mesmo barco, Camila. Então, o que nos resta é nos abraçarmos e desejarmos que os braços, quem sabe um dia, sejam finos.

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  2. Até parece. Você é linda!
    Mas é sempre assim né, a imagem do espelho sempre nos aponta um defeitinho que incomoda.
    Sei desse seu drama há um tempo, com esses braços. hahaha
    Mas te digo, não vejo nada demais.
    Tu é uma linda Camila.

    Um beijo

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  3. Sim Milinha, compartilho desse mesmo problema, dessa tristeza pra provar blusinhas mais apertadas e do medo de estragar casacos das amigas. O drama diário de olhar para o espelho e o olho focar apenas no braço, que já é quase uma coxa. Liparia se pudesse, porque como tu disse, malhar apenas salienta mais. É complicada essa vida de polenteira, ô se é. Um beijo sua linda, siga escrevendo.

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  4. O texto é ótimo. Lembrei dos meus braços forçudos. Mas a foto não ilustra, menina. Você está delgada, inclusive os braços.

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  5. É difícil achar a mulher que tá 100% contente com a sua silhueta ou aparência, sempre acha que pode mudar uma coisinha aqui e outra aqui e esquece que, muitas vezes, são essas coisinhas aqui e ali que a fazem ser bela e especial. Uma pessoa me disse isso uma vez e carrego comigo sempre. Carregue contigo também, Camila, porque, acredite, você é muito bela e muito mais do que especial, não só pra mim, mas aposto que para todas com as quais você abre seu coração e escreve esses textos. Inclusive, venha cá e me abrace <3 hahaha

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  6. nossa, me identifico muito! Assim como tu, eu tmbm tenho esse "braço de polenteira",e por incrível que pareça, não tem roupa q disfarce...principalmente em foto!
    mas é como dizem por aí né...ninguém é perfeita! ahahaha tinha que ter alguma imperfeição. Ainda bem que essa imperfeição é no braço e não no caráter :p
    Excelente texto, chega quase a ser um papo reto tipo "cara a cara"
    Keep Writting!
    Um beijo!

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  7. Tô há dois meses malhando feito louca só pra saber como é ter os braços fininhos. É um sonho. Acredite: Você é compreendida!

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  8. Meu problema não é com os braços, mas sim com a barriga/pneus, sim, um vestidinho ajuda, mas fico impossibilitada de usar uma regata mais apertadinha, ou aquela nova moda de cropped. Enfim, sou fã dos seus textos, sempre dou uma passadinha aqui pra ver se tem algum novo pra eu ler! :)

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  9. Nem me fale nesses braços...tento, tento perder, mas parece que me ama tanto que não me largam jamais!
    Beeeijooos

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  10. É incrível como todo ser humano, por mais perfeito que possa parecer, implica com alguma região do corpo. Mais incrível que isso, é notar que defeitos tão gritantes acabam sendo notados somente por nós mesmas e passam despercebidos pelo resto do mundo, não é mesmo?! Quando eu era criança, implicava com as "batatas da perna", achava elas totalmente dispensáveis no corpo. Além disso, como sempre fui magrinha, virou rotineiro implicar com a falta de carne nas pernas, bumbum e, adivinhe?! NO BRAÇO!
    Ou seja, sempre estamos buscando o que não temos! E sempre existe os prós e contras de tudo.
    Mas saiba que continua linda! E a polenta nos braços se torna irrepáravel se comparada ao restante do seu corpo. ;)

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