Certidão de óbito

4.21.2013 -

   Ao olhar a sepultura do avô, Bianca descumpriu o que havia prometido à si mesma: sentia as lágrimas descerem as têmporas feito água escaldante; em conflito com o ar gelado do mês de junho. Impossível não se comover ao ver a terra sendo sobreposta ao caixão, as pás violentas cheias da matéria-prima que selaria ali o fim de uma vida. A ficha caia feito uma bigorna em sua cabeça: estava morto, não tinha volta. Apertou a mão da avó com a força de quem se esforçava para manter-se de pé num dia como aquele. Como seria agora viver na companhia de apenas um dos seus entes mais velhos – e também, queridos?

   O oxigênio havia se extinguido, a múltipla falência dos órgãos dava fim à tortura de um mês na agoniante UTI. Tudo acontecera de forma violentamente rápida: a dor aguda no peito que assolava de vez em quando, o infarto, a mal sucedida cirurgia. Exames após exames, e a detecção de um tumor no estômago. Após 78 anos de uma conturbada vida de viagens, fugas, mudanças e árdua labuta. Fernando que era Pereira, mas antes de se casar com Irene fora Valente, partia dessa pra outra – melhor mesmo, será? Dos dez netos presentes, somente eu havia lembrado da predileção do avô por cravos brancos. Apenas a minha comoção era a de quem havia perdido mais que a sabedoria idosa do patriarca da família: era praticamente uma parte da paternidade presente em sua vida que viraria pó, depois cinza e mais tarde só osso trancafiado numa caixa enorme de madeira debaixo do solo.

   “Esposo querido, pai dedicado e obstinado trabalhador”, era a frase escrita abaixo do nome e datas de nascimento e de partida na lápide recém encomendada. Choravam alguns tios, abaixavam os olhos os irmãos, estremeciam de frio e uma sensação etérea de que a vida era mesmo esse turbilhão que dura segundos, intervalada a períodos de tédio que quase enganavam quanto à eternidade da existência. Queria abraçar o pai, porém as constantes brigas, todo o drama envolvido e sua saída repentina de casa faziam Bianca apenas se debruçar sobre a falta de ombros da avó.

   Corria o pranto da face até quase os ombros como se fosse o aguaceiro da alma – no limite – a ser despejado. O cemitério imerso na ventania congelante, as tumbas todas lado a lado, a família assim dispersa e ao mesmo tempo, reunida em torno da situação que em nada se parecia com as celebrações natalinas, os almoços de dias dos pais, mães e aniversários, o concretismo de que depois dos ritos todos, sob os óculos escuros não avistaria mais o corpo esguio e alto made in Portugal, não escutaria mais os conselhos sábios que falavam em juízo, estudos e oportunidades bem aproveitadas.

  Fazia um ano, mas o oco das lembranças em preto e cinza ainda servia como pano de fundo da estranha sensação do quão efêmero é estar aqui e não ter ideia de até quando. Seria a paz do descanso uma promessa ou efetivamente um pedacinho de céu prometido? Marcado na certidão de óbito: natural o caos todo de se ir aos poucos e não perceber o quanto ficou pelo caminho. Falecer cabe um pouquinho a todos nós.

(Escrevi esse conto pra oficina que estou fazendo de Criação Literária com o genial Caio Riter. E bem, não é lá muito meu estilo mas, como vocês sabem, eu tenho puta dificuldade em escrever qualquer coisa que fuja do opinativo - basicamente, crônicas. Por isso, sei que não tá "nos trinques" mas, espero que tenha ao menos agradado. Tudo é treino, gente. E ah, esse conto tinha como temática a morte e nasceu de um exercício de desbloqueio em aula. As palavras em negrito eram sorteadas a cada cinco minutos e a gente tinha que produzir o que viesse à mente. Bacana, né? Em casa, dava para dar uma editada. Essa ficou, mais ou menos, minha versão final. Enjoy it!)


7 Comentários:

  1. Adorei, Camila! Tô me esforçando pra conseguir escrever crônicas, não consigo tirar meus textos da 1º pessoa crítica e ativa no texto, mas tô tentando. rsrs Parabéns, gostei muito. Deve ter sido complicado fazer isso de usar as palavras sorteadas, mas ao mesmo tempo, desafiador. Isso que é bom. Você é muito talentosa e me inspira! Continue nos dando o prazer de ler seus textos! Grande beijo!

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. "Falecer cabe um pouquinho a todos nós."

    A morte é progressiva, estamos todo caminhando para ela, todos os dias, às vezes conscientes disso, na maioria das vezes sem perceber que o fazemos, mas é um processo que se inicia ao nascer, e evitamos pensar nisso porque o desconhecido nos assusta.

    Seu texto me deu um aperto no coração, a morte está sempre a espreita, a gente a ignora, mas ela sabe a hora de atacar e pronto, e ponto, ponto final no livro da gente.

    Ótimo conto, mesmo, desperta a reflexão sobre o que normalmente preferimos evitar.

    Parabéns.

    www.eraoutravezamor.blogspot.com | www.semprovas.blogspot.com

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  4. gente, adorei mesmo seu conto. Adoro seus vastos e intensos adjetivos e advérbios sincronizados como um verdadeiro balé. Até que você se dá bem em crônicas Camila, faça mais, adorei. E amei a finalização, "falecer cabe um pouquinho a todos nós". - Herbet Silva

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  5. Triste, mas real. Ficou incrível!

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  6. Sinto-me um ser soturno (?) ao dizer que gosto de textos assim, pesados; cemitério, morte. Por outro lado, só na ficção mesmo: fugi, simplesmente não fui no enterro de nenhum dos meus avós, pra não guardar essa lembrança amarga e real e deixar só no imaginário, ainda que igualmente dolorosa. Lendo, me deparo com: "o corpo esguio e alto made in Portugal". Ok, basicamente, meu avô. Mudou nome, mudou localização do tumor, mas a morte em si acaba sendo um pouco igual pra quase todo mundo, em qualquer lugar do mundo.
    "O oco das lembranças em preto e cinza ainda servia como pano de fundo da estranha sensação do quão efêmero é estar aqui e não ter ideia de até quando." É.

    Como disse a menina acima, complicado e desafiador o método do sorteio de palavras, mas como sempre, tu te saiu bem. :) Keep going!

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  7. Sinto-me um ser soturno (?) ao dizer que gosto de textos assim, pesados; cemitério, morte. Por outro lado, só na ficção mesmo: fugi, simplesmente não fui no enterro de nenhum dos meus avós, pra não guardar essa lembrança amarga e real e deixar só no imaginário, ainda que igualmente dolorosa. Lendo, me deparo com: "o corpo esguio e alto made in Portugal". Ok, basicamente, meu avô. Mudou nome, mudou localização do tumor, mas a morte em si acaba sendo um pouco igual pra quase todo mundo, em qualquer lugar do mundo.
    "O oco das lembranças em preto e cinza ainda servia como pano de fundo da estranha sensação do quão efêmero é estar aqui e não ter ideia de até quando." É.

    Como disse a menina acima, complicado e desafiador o método do sorteio de palavras, mas como sempre, tu te saiu bem. :) Keep going!

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