Amor a gente não escolhe

4.28.2013 -

Moça, faz um favorzinho? Um só, juro. Ali, alcança aquele amor que tem cara de durável, espessura de inquebrável e um quê de honestidade, por favor? Ah, esse custa mais? Sim, entendo. Claro que deve ser dificílimo de se achar e, né, no mercado tá em falta - eu acredito. E aquele ali, pequenininho mas que se diz aumentativo quando se coloca numa garrafa pet de 2 litros? Ah, é auto-enganoso. Faz todo sentido: vemos com a nossa idealização de meninas órfãs dos filmes Disney, imaginando que seja esse bichinho minúsculo o príncipe de ossos largos que cavalga num quadrúpede de crina branca e coisa e tal. E que nada, acaba-se que é só mais um sentimento murcho entre tantos mal resolvidos dentro do peito ao longos dos anos.

Certo, vamos praquele ali, mais à esquerda, refinado, cheio dos bons gostos e costumes desenhados na embalagem e descritos no rótulo, pelo que vejo daqui. Vem pouquinho desse, né? Por que? Ah, porque enche o saco.. Eu imagino. É daquelas perfeições que incomodam, tanto que a gente embesta com os nossos defeitos aumentados, né? Ih, descarta. E aquele vazilhame bonitão lá de cima? Pô, gostei. Corado. Robusto. Bem disposto. Energético. Mas poxa, vazio? É, por dentro, vazio. Se dá pouco porque muito se recebe, é mesmo. Composto de Narcisus-me-amo não dá, a indigestão é grotesca ao longo do tempo, realmente. Me ajuda, moça. Tem tanta opção e tão pouca que eu colocaria numa mesinha de café pra admirar enquanto esquento por dentro. Sabe que discordo? No fim das contas parece igual, mas acaba tudo completamente diferente. Deve ser tipo a varinha do Harry Potter: eu vou deixar é que algum me escolha.

Que bela grafia a desse. Mas cheia de embaraços e rabiscos que eu não consigo ver por dentro. Ah, muito devolução. Incompreendido, coitado. Se poucas conseguem ler e entender de verdade o que ele carrega em sim, por que levam? Iludem o pobrezinho... Ele é que as ilude? Ih, captei. Captei: usa da pompa racional pra atrair e se fazer de charmoso intelectual quando na verdade tem um puta medo por dentro de se entregar. Coisa mais complicada, credo. Passo. Esse em formato de pastilha, é tudo pra um dia só? Nossa, quantos, hein. E há procura? Verdade, nada melhor que os amores-paixão de uma noite só pra reavivar a auto-estima dos corações quebrados, verdade. Um desses tamanho giga até teria espaço lá em casa, problema é aqui dentro: de que jeito inserir? Bate mó medo de não conseguir acomodar direitinho e fazer sofrer algo tão grandioso - e dispendioso, e caro, e que vai me tomar tempo e um baita pedaço de mim mesma junto. Inofensivos aparentemente, mas perigosos esses também, viu?

Amor-amigo, amor-carente, amor-de-verão, amor-rascunho, amor-distante, amor-pra-depois... Nenhum me serve, não acho algunzinho que seja que preencha os requisitos de durabilidade, compreensão, respeito, reciprocidade e safadeza. Nadinha, moça. Ah, o balaio das promoções em nada me atrai. Que vou querer eu com sentimento barato? Não dá, sabe, eu quero dessa parcela da vida o melhor - mesmo que apenas aos meus olhos, entende? Além de insatisfeita crônica, sou uma encrenca das exigentes. Esse aqui, curioso esse aqui. Cheira bem como nenhum dos anteriores. Não tem a beleza óbvia, mas é de um charme que também não vi nos outros, não. Custa caro? Ah, sabia, sempre tendo a optar pelo mais caro. Diz que marca a vida da gente e que consegue arrancar risadas até mesmo nos dias cinzas. Tá escrito aqui que não é perfeito, não está maduro - talvez por isso, ainda um pouco amarelado - e que gosta de programas ao ar livre, além de ser cheio de defeitos: muda de ideia com frequência, talvez precise amaciar o ego, ronca enquanto dorme no inverno. Talvez não seja o ideal, mas moça, que vou fazer eu se ele brilha? Feito pó de pirlimpimpim na minha frente como nenhum outro até então. Ouço daqui o palpitar de um coração a cavalos, a galope, apressado: é esse, é esse, é esse. Ao menos até que se consuma por inteiro. Vou levar - sei lá eu até onde ele também me leva. Se for até algum aprendizado, o futuro é de lucro.

4 Comentários:

  1. Vei, deu vontade de chorar. Sei lá, lendo esse texto lindo eu vi que não sei bem o que quero, na verdade até sei, mas na falta dele, acabo levando pra casa qualquer frasco de "amor" que eu encontro. :( parabéns, guria, LINDO texto!

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  2. O engraçado é que, na verdade, lá no fundinho bem sabemos o que devemos levar. O problema é que as vezes, na pressa de encontrar, a gente acaba carregando malas pesadas demais, com bagagens difíceis de suportar.
    Que sejam encontrados (ou que nos encontrem). Ainda que caros, raros, distantes.
    Texto maravilhoso, flor. Parabéns!

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  3. Realmente... Verdadeiro demais o teu texto!

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  4. Amor não se pensa, não se escolhe, se investe, tem atitude e se sente. Mas pouca gente sabe disso e ainda não sabe porque nao encontrou ninguem ainda...

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