9º andar

4.09.2013 -

Tem o olhar atento na leiteira pra não deixar ferver demais, subir. O refúgio da íris que toca de leve o celular e constata: 7h30. Pão francês, peito de peru, patê. Uma vez o ritual de passar, posicionar no meio, fechar, apertar. Duas. O leite desligado e um abraço desastrado de quem prefere não engrenar assunto qualquer pela manhã - que antes desenferruje os mioloso, se beba café, leia o caderno de economia no jornal. É a terceira vez que acordo num apartamento que nada tem a ver com as duas casas onde estou acostumada a dormir: tem a masculinidade toda de uma decoração minimalista, a bagunça proposital na qual apenas um homem solteiro com mais de 25 anos consegue se encontrar, a minha blusa no chão da sala. Do 9º andar do charme de um bairro cheio de árvores, parques e boêmia a leveza que quase se estica janela à fora: é sublime a sensação de ser tão dona de si e não deixar pelo caminho pedaço nenhum pra ninguém.

Tem o porteiro que já sorri e diz "boa noite, senhora" - e eu me sinto com dez anos a mais por tamanha educação e pelo chamamento em si. E o sorriso mais largo e cheio de dentes onde dá vontade de cair pra dentro do esmalte branquíssimo e da dentição bem alinhada. Sushi na mesa arrumadinha às pressas da sala, vinho suave pra mim que já começou o outono. E tem beijo, tem ofegância, tem a comida ali à espera porque quase nunca dá pra sair do corredor vestida e chegar até o quarto seria facilmente um sinônimo de vitória. Meia-luz e janela aberta, poucas palavras e Red Hot tocando, você viu no que deu os protestos todos? Voz do povo é a voz de deus, pera í que é a minha avó me ligando. Oi, não vó. Não, hoje eu vou dormir fora. Tá bom, qualquer coisa liga. Risos, risos, risos. Mãos quadradas que puxam pra mais perto o meu rosto - agora de leve. Meio metro a mais de corpo sendo o abrigo das neuroses que eu digo, dos absurdos que eu conto, desse convite não proposital ao meu sagrado; aquela parte do mundo próprio que resume o íntimo.

Tem horas madrugada adentro, um documentário sobre o holocausto e duas taças na cabeceira da cama. Um celular sem bateria e outro desligado. A luz da lua iluminando o quarto. Uma insônia que parece ensaiada só que é combo de ansiedade e olhar atento; sintonia, assuntos, química; disposição do modo mais brando já solidificado em fluídos antes. Dois olhos que velam meu sono e se encantam com os suspiros de criança e as frases saltadas de sonhos das galáxias todas desconhecidas. Pares de pés que se entrelaçam porque começa a esfriar e a incongruência entre o calor corporal e o frio das extremidades não pede cobertor mas lençol nunca é o suficiente. Tem barba ralinha e paletas largas e cheiro de homem e é fácil pegar no sono depois de gastar toda a minha lábia e acordar cedo com energia e bom funcionamento equivalentes a um celular recém carregado - como é dócil despertar dentro daquilo que ainda não teve tempo de adormecer dentro da gente.

Tem o pulo cedo da cama, banho de quase meia-hora, escovação filha dos caprichos; demoradíssima. Ele esparramado e espectador desse ritual todo de vestir, dobrar e fixar a imagem no espelho apenas pra checar estar tudo ok e sem olheiras. O puxão forte e incontrolável pra voltar pro colchão durinho. Não dá, a gente vai se atrasar. E quando vi me prende os braços e tira de órbita e para o tempo. Enquanto ele corre pro banho eu vejo algo pra comer e na geladeira tem Laka aberto e tem também, além do trivial, Ice Tea que é a minha bebida favorita. E também o essencial pro café da manhã na sacada assistindo o caos na avenida, que começa cedo. Jorge Ben na caixa de som do iPod. A mão com o antebraço tatuado (um charme, um charme) deslizando os dedos sob os pequenos pelinhos loiros da minha. Tem um dos melhores beijos que já experimentei, noites com cotação cinco estrelas e toda a liberdade que eu preciso. Ele, mesmo tragando um cigarro com a paciêcia de quem sorve o mundo, dono de uma beleza que sob a minha ótica é ímpar. Tem amor não, mas por enquanto é mais que suficiente.

11 Comentários:

  1. Muito bom Camila, gostei. Achei ótimo e leve esse texto. Bem teu estilo, despojado, bonito e com algum diferencial.
    É bom se permitir e fazer coisas que antes não nos julgávamos capaz. É boa essa liberdade de ser mulher e dona do nariz, embora ainda não proprietária exclusiva do coração. Faz bem deixar as pessoas entrarem, mesmo que sejam visitas, mas pra dar uma arejada no que temos dentro da gente. É renovação, é fase nova, é vida que segue, felizmente, sim.

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  2. Sou APAIXONADA pelos teus textos detalhados! Consigo imaginar tudo direitinho e encaixar algumas coisas que tem mais a ver comigo... sentir e viver junto contigo.

    Muito bom, adorei mesmo! E aproveita esse novo momento :D

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  3. Esse tá demais!!! Parabéns, Camila! :D

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  4. Consigo ver tudo se formando, na medida que você conta. Você é maravilhosa, menina. E muitas vezes, estar em paz é melhor que amar. Muito melhor.

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  5. O ar de vida nova cria uma paz interna incrível. - Herbet Silva

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  6. Nossa, quanto tempo que não venho por aqui e quando venho me surpreendo com esse texto. Diferente e instigante. INSTIGANTE, descrevo assim em uma palavra.

    Continua Calmila, beijo

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  7. Incrível sua forma de escrever, de detalhar. É fácil se colocar dentro do cenário que você descreve. Leio sempre seus textos, recebi na época uma carta sua com meu texto preferido. Guardo até hoje com carinho. Que bom ver através do que você escreve que você está bem, tranquila. Beijos!

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  8. Camila!Uau! Que texto, que texto! Parabens!Aproveita esse momento mas não se force à deixar de pensar, pensar e pensar como às vezes você se queixa. beijos

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  9. Camila, você escreve MUITO bem! Tenho lido alguns de teus textos e me apaixonado por todos. Você é incrível.

    Caramelo de Limão

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  10. Guria! Sei que pode parecer um comentário vago e repetitivo mas, adorei esse texto. A imaginação fértil e a tua boa escrita detalhada, faz que saímos um pouco do ar.

    Um beijão.

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  11. Oi Cá. Essa é minha primeira vez aqui no seu blog. Me apaixonei. sério.
    Fiquei imaginando que esse tal carinha tem que morar na av. Paulista, ou quem sabe, ali pertinho do Ibirapuera, com arvores e avenidas se misturando, só pode ser minha querida São Paulo. Preciso dizer que te imaginando como personagem desse conto incrível, tenho imaginado que ele não pode ser menos elegante que tu, pois que loira linda que você é. Enfim, tudo é perfeito, blog simples e cheio de conteúdo, me apaixonei.

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