Sr. Pantufas

3.27.2013 -

São 14h de domingo. O cheiro da carne que assa na churrasqueira do andar debaixo subiu e não faz muito, me acordou. É um desses típicos dias de acordar tarde, ver futebol e passar com a família. Meu telefone toca. É minha amiga. Eu, que tentei contato logo quando despertei pra saber que fim havia dado o resto da noite, atendo. Sou atropelada por palavras que dizem: “Encontrei a definição do homem pantufa”. Pantufa? De pijamão ainda estou eu. Minha ressaca de quem chegou perto das 5h em casa processa devagarinho o disco rígido das idéias. Ela explica: bom de usar em casa, vergonhoso na rua. Rouca e surpresa, eu rio. Ela também.

Sentadas num barzinho vazio pra um sábado à noite com dois telefones celulares habilitados a fazer chamadas, tínhamos as armas praticamente letais da arte de qualquer distração de final-de-semana. O sujeitinho sem queixo que muito acompanhava todos nossos movimentos enviou seu telefone antes de ir embora, num cartãozinho minúsculo. Gui, se chamava. Gargalhamos quando a garçonete - que mais parecia a Mart'nália e se irritou quando perguntei - seu nome trouxe o pequeno bilhete. Tinha uns boys na mesa de trás que tentavam puxar papo. Nós duas, militantes do girl power doutrinado por mulheres decididas e de atitude que escolhem com quem bem se relacionam, cagamos muito: ligamos e chamamos e enviamos sms pra quem também nos dá moral mas que, esses sim, tem algo que peculiarmente, interesse.

Eis que vim a conhecer, então, o sr. Pantufa. O rapaz, que na verdade de senhor não pode ser chamado, tinha seus quase trinta anos. Educado, cordial, graduado e moço simples: havia vindo do interior pra tentar a vida no profissionalismo engenheiro ambiental da cidade grande. Chegou ao boteco e sentou-se conosco na mesinha apertada que ficava no ambiente aberto do estabelecimento. Pediu cerveja importada, prestava uma atenção incomum à nossas conversas, acumulava barba na parte inferior do rosto – o que pra minha companheira de Heinekens, sem dúvida, importava. Mas como já havia a mesma dito, talvez fosse o tal amor feinho daquele poema da Adélia Prado: estrábico, barrigudinho, a camisa mais curta que deveria. Cabelos de um encaracolado ralinho, estatura baixinha e voz um pouco esganiçada. O par de olhos verdes da colega de sexo feminino merecia avistar coisa muito melhor enquanto sensualizava. Zarpei no táxi até meu destino, enquanto os vi entrarem juntos no carro de trás pra sumirem algumas ruas mais à frente.

Tratei de aproveitar a minha noite como se o amanhã fosse demorar horas pra nascer – e raiou, lá pelas seis, enquanto tirava a maquiagem e me tapava até o pescoço pra dormir até o meio do dia seguinte. Segui acreditando que amiga minha devia merecer que deus fizesse algum cara muito melhor a desejar direitinho assim. Mal sabia eu, quando ela explicou que, recém tinha chegado em casa e que tinha sido ótimo permanecer horas a fio na cama deitada ao lado de um homem a qual a feiura, de forma bizarra, atraia e era também capaz de agredir. O desgrenhar da escassez capilar ia contra a ereção prolongada que o fazia incansável. A falta de carisma e beleza compensavam com a maneira atenciosa e devota a qual ele agia diante da amiga, uma deusa feminista a seu ver, praticamente. Era desses que pega um táxi e vai, vai mesmo diante de um "você tem 10 minutos para chegar aqui". Em oito, adentra a porta, desleixado e montado no seu desajeito todo.

Ela era feliz com o sr. Pantufas enquanto a luz do dia permanecia apagada. E se esquivava dos programas conjuntos, preferia permanecer calada em silêncio ao seu lado, deitada no segundo travesseiro da cama de casal esperando pelo próximo round. Culto, inteligente e querendo a agradar: que mais ela poderia querer? Um pouquinho de beleza, só um tiquinho que fosse. Um pó de pirlimpimpim que o fizesse, ao menos, bem vestido em um toque. Desejava coragem para sair de chinelos na rua com a despreocupação de quando éramos crianças e até pijama era permitido, alheia de olhares julgadores do mundo adulto. Só que lembrava do olho torto, o esquerdo, de uma vesguice tremenda. Das calças mais curtas que o permitido pela sociedade. Da voz nada máscula que a ligava quase todo dia porque o tédio era grande para contar banalidades desinteressantes. Era disputada a briga entre as noites calientes e divertidas que a distraíam e o terror de ter que encontrá-lo ao claro, quase com susto, na manhã seguinte.

Adepta da rusticidade dos homens, a garota que eu conhecia há cerca de três anos não fazia a escolha óbvia dos magrelos loiros ou de altões de olhos claros, porém, até mesmo a fealdade humana tinha limite: se desfez da confusão mental que era ficar com quem a sentia fazer tamanha vergonha; de si, quando o abnegava. Dele, quando em conjunto em locais públicos. Ignorou-o em um canteiro qualquer da provinciana cidade grande que mais parecia pequena com pressa, sem olhar pra trás. Mesmo confortabilíssimo, era outro número: o Sr. Pantufas merecia que outros pés descansassem as mazelas mundanas dos fins de noites sob seu corpo sedentário. Numa dessas esquinas da vida, encontrou. Quem o achasse Manolo Blahnik na cama, e Louboutin fora dela também. Amor feinho, segundo Adélia, tem mesmo dessas: cuida do essencial; o que brilha nos olhos é o que é: eu sou homem você é mulher.



5 Comentários:

  1. Amei o texto! Nesse texto dá pra perceber o quanto você cresce a cada dia como escritora, a riqueza de detalhes e o estado de transe que o leitor fica, o estado no qual eu mesma fiquei ao ler o texto.Não consegui tirar os olhos da tela até que chegasse o final do texto! haha
    Camila, parabéns! E eu adoro seus textos mais sentimentais , de amor. Mas também gosto demais dos textos que fogem desse tema, são tão ricos quanto. Apoio completamente a exploração de todos os temas possíveis para os seus textos!

    Grande beijo!

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  2. Esse texto tá mais que demais, Camila! Tu vais ser uma grande jornalista, uma grande escritora. E ainda aguardo muito, por aqui, o teu livro... Beijo grande da tua fã.

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  3. Camilaa, como já disse algumas vezess, não tenho tido muito tempo de vir aqui. Mas hoje li esse texto, e nossa, incrível a tua evolução na escrita!! Fico aqui, de longe, torcendo muito por ti. Esse texto está demaiss mesmo!!! Beijosss

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