Queridos coxinhas

3.14.2013 -

Preciso desabafar. Confesso que não entendo, até hoje, tamanha atração: vocês nos seus últimos modelos de calças jeans compradas no exterior, tênis casual em cor neutra e camisa pólo, eu quase sempre com as roupas que mais tarde venho a saber que, em suas opiniões de almofadinhas, julgam "estranhas". De repente, em plena festa, o meu top de couro curto (que mais tarde falará algum de vocês que me deixa "despeitada" e uma "mina bala" da cintura pra baixo, onde o quadril é vasto) chama a atenção do seu olhar treinado para fuzilar loiras grandonas com cabelo comprido e sapato alto. E vocês vêm sempre com aquele papo de "facul", com um Red Label e energético na mão, enquanto eu degusto minha cerveja, sem me importar nem por um segundo com a barriga estufada das horas futuras. Contam causos das viagens de Miami e Ibiza, narram as peripécias do último feriadão com os amigos todos solteiros em alguma praia perto daqui. Eu bocejo, falo qualquer coisa como "que bacana" e vocês se apaixonam. Não entendo.

Toda vez que algum de vocês me busca em casa no seu carro do ano para jantar em algum sushi caro da cidade, juro que preferiria estar comendo pastel na Cidade Baixa se tivesse uma conversa proveitosa quanto ao último livro lido e fôssemos a pé, afinal, moro pertinho. Monto meu look de acompanhante coxista desejando muito apenas colocar uma sapatilha e um vestidinho mais solto, só que o perfume masculino caríssimo carregado e o relógio enorme me amedrontam um pouco: penso também o que pensam de vocês, com uma menina tão "esquisita" à tiracolo. É sempre uma batalha travar qualquer assunto que não caia no combo futebol-trabalho-estudo-futuro e sempre tem no final a frase que considero elogio de "tenho certeza que você vai ser uma ótima escritora" ou algo parecido.

No carro, quase sempre escolhem aquelas músicas animadas de academia; eu cantarolo mentalmente qualquer descoberta hipster francesa ou finjo uma surdez momentânea, tudo pra que meu lado um pouco rude não se manifeste e me faça trocar pra rádio que toca bossa nova. Sempre me despeço jurando que é a última vez que saio com qualquer cara que esteja lendo a biografia do Eike Batista ou a nova bíblia de vendas do último mês. Lá estou eu de novo entrando no meu prédio que fica no Centro sufocada de tanto perfume bom e com a cabeça girando, vazia, no ritmo eletrônico do som alto, imersa no mais absoluto tédio antes de dormir. Aliás, "top", pra mim, só se for cropped (e comprado com meu próprio dinheiro, já que papai e mamãe não me confiam o cartão de crédito, não).

No geral, vocês são lindos, não me entendam mal. Posso contar nos dedos as vezes em que a química falhou - pouquíssima vezes em que, a física escultural dos corpos de academia cinco vezes por semana compensou bem. Apenas não entendo a estranha paixão que dura algumas noites mas não passa disso nunca, obviamente pelas gritantes diferenças. Quero montanha, enquanto vocês desejam praia. Prefiro qualquer meio de mato à Jurerê Internacional. Caetano, Gil, Chico ou Elis no lugar do aclamado coxês David Guetta. Não aguento mais escutar, quando conto que curso jornalismo, que eu poderia "ser a nova Patrícia Poeta", não. E, francamente? Pouco me importa sobrenome ou quem foram, são ou serão seus pais no glorioso mundo empresarial. Chega. Vocês são adoráveis, charmosos, uns queridos: apenas preciso de alguém pra devanear sobre questões um pouco mais profundas que a próxima balada do final de semana. Como eu disse, não são vocês em seus pedestais de exclusivíssimos caras da alta sociedade: o problema sou eu e minha idealização de uma vida mais simples, isso sim.

Eu, que pego ônibus e leio enquanto o fim da viagem não chega, preciso de mais do que apenas quem me pegue de jeito de vez em quando - que abrace minhas ideias sem pensar somente em dinheiro, pelo amor de deus. Eu renuncio minha vocação para Miss Coxete aqui, se é que um dia esta saiu do imaginário dos mesmos e chegou a existir. Espero, de coração, que aquela garota que malha glúteo dez vezes ao dia e lê 50 tons de cinza enquanto faz bronzeamento artificial e compra na Colcci seja legal e conquiste o coração de vocês, de verdade. Elas irão adorar os cremes Victoria Secrets, confiem em mim, mauricinhos do século XXI. Assim como os papos sobre musculação e whey protein, as festas chiques de Punta e novos apps imperdíveis para iPhone. Aliás, mandem um beijo pra suas avós: elas com certeza criaram vocês com os mimos a que qualquer mãe de mãe tem direito. E o tanquinho está ótimo, podem parar de olhar pro espelho enquanto fazem sexo, juro. Só tirem as meias da Tommy Hilfiger, por favor - é um pouco broxante.

Da quase nunca de vocês e agora não mais,

Camila



15 Comentários:

  1. Que texto fantástico, mas fiquei em dúvida se ria ou se chorava, porque convenhamos que essa realidade não nos agrada em absolutamente nada.

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  2. Os coxinhas de hoje são sinônimo de indecisão.
    São homens que querem conquistar pelo o que possuem e não pelo o que são. E mais uma vez reforçam que nós mulheres nos interessamos pelo carro, marca da roupa, viagens ou todo a lenga-lenga. Talvez pra alguma isso seja o critério número um e se for cada uma com a sua escolha, só que pra outras esses quesitos são o último da lista. O importante é ser e não o preço do que do que se tem.
    Não sei porque pensei na música da Rita Lee- Pagu. Amei o texto ♥

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  3. HAHAHAHA muuito bom, Camila!

    "o problema sou eu e minha idealização de uma vida mais simples, isso sim." bem isso! Parabéns, mais uma vez!

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  4. Camila, continua a gênia de sempre expondo a visão por detrás dos óculos Ray ban das análises fisíco-culturais nossas de cada dia! Magnífica.

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  5. Aliás, "top", pra mim, só se for cropped (e comprado com meu próprio dinheiro, já que papai e mamãe não me confiam o cartão de crédito, não).

    Me diz da onde vem tanta inspiração e sensibilidade para criar textos que refletem fielmente nossa realidade ?

    Beijos.

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  6. Se não é a realidade de todas, é a de muitas, com certeza. Servir de "acessório" pra boyzinho é o que mais têm se visto por aí. E nós, que queremos coisas diferentes, ficamos como "estranhas", "desajustadas" em um mundo que não é o nosso.
    Amei seu texto. :)
    Beijo gigante.

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  7. Reitero aqui o que disse no Face:

    Camila, me perdoe, mas eu preciso soltar um palavrão ao ler esse texto: puta que pariu! Você disse ABSOLUTAMENTE tudo. Triste esses caras rasos, que se preocupam tanto com as aparências e esquecem especialmente de ser. Outro dia conheci um coxinha – ou playboy, como se diz aqui – e o cara com uns 35 anos mais ou menos não sabia conversar. Era lindo, é bem verdade, mas perdeu completamente o encanto por não possuir nada além de músculos, carro importado e dinheiro. Você é ótima, guria! Parabéns!

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  8. coxinhas? eca, eca eca!!!!
    o texto tá ótimo Camila mas a nova cara do blog melhor ainda, tá linda!!!!
    Amei, amei! beijos

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  9. Fazia tempo que não aparecia no blog e uma das primeiras coisas que fiz foi vir correndo aqui pra saber como você estava. Senti saudade das suas palavras e imaginei detalhadamente os "coxinhas". Você é incrível e espero que seja mais do que uma Patricia Poeta! hahahaha beijo grande

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  10. kkkk Eles também não me chamam a atenção em nada, mesmo aqui no PR sendo um pouco diferentes: ouvem sertanejo, usam bota e chapéu e se vangloriam por serem "brutos".

    Ridicularia em pessoa!

    http://meublog.com/

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  11. Triste realidade que você escreve com tamanha clareza. Ótimo texto, Camila!

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  12. "Espero, de coração, que aquela garota que malha glúteo dez vezes ao dia e lê 50 tons de cinza enquanto faz bronzeamento artificial e compra na Colcci seja legal e conquiste o coração de vocês, de verdade. Elas irão adorar os cremes Victoria Secrets, confiem em mim, mauricinhos do século XXI. Assim como os papos sobre musculação e whey protein, as festas chiques de Punta e novos apps imperdíveis para iPhone."

    Adorei, é um texto para todas nós que não aguentamos mais esses coxinhas que só falam em suplemento, academia e baladinha. Me poupe!

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  13. Adorei esse texto, e ri demais com esse "Espero, de coração, que aquela garota que malha glúteo dez vezes ao dia e lê 50 tons de cinza enquanto faz bronzeamento artificial e compra na Colcci seja legal e conquiste o coração de vocês, de verdade."

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  14. Camila, parabéns pelo texto! Certa vez li em um de meus livros a seguinte frase: ''Que falta que me faz alguém que não ache tudo normal.'' É isso que traduz meu sentimento em relação a esses moçoilos, que parecem se multiplicar à velocidade da luz. Preocupa-me a 'coxisse' generalizada, que toma conta também do gênero feminino, tornando as pessoas mais e mais vazias de profundidade (palavra que mais soa com abismo nos tempos atuais).

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