O foda-se, esse botão.

3.26.2013 -

Perguntei no tom mais doce que consegui à minha psicanalista: mas como são chamadas as criatura que pensam demais? Não vale ser-humano. Digo, os maníacos de pensamento, os obsessivos por idéias, essa gente que como eu só sabe remoer e matutar e alimentar o minhocário cerebral com algumas impagáveis neuras por dia. Tem que haver uma nomeação, qualquer definição que estampe na testa e avise à distância aos passantes: caminha do outro lado da rua um desses excessivos da cabeça, nem olha muito que é capaz de contagiar. Pode, pode não ser doença. Assim como deve ser também algum masoquismo a quantidade de cálculos e versões e frases que raramente saem do repeat quando a trilha sonora fica apenas no silêncio verbal - e o cala a boca mental inexiste. Isso quando não escapam algumas palavras mal colocadas que, surpreendentemente, causas espanto e furor, entendidos do mal e dores de cabeça injustificáveis, devido a falta de cautela antes de deixar os dentes se entreabrirem e formarem a sonoridade (aparentemente inocente) de ferinas frases. Fora do automático, troco de marcha mil vezes antes de decidir que é melhor ir de primeira e selecionar o botão capaz de me blindar contra tanto cenário chato e personagem sem graça desse enredo, arrastado quase drama europeu.

O foda-se, esse botão imaginário a que muitos acionam pra conseguir uma almejada vida distante de culpas, era pra mim sinônimo de um medo burro que tudo ficasse ainda pior – era possível? Se tornou aos poucos a escolha mais acertada para que os dias adquirissem, quem sabe, leveza. É desígnio dos que tem coragem, apenas. Tanta gente nem aí pras merdas que os outros pensam a respeito, milhares de pessoas muito mais felizes por serem donas de suas opiniões nem sempre compartilhadas e situações de desembaraço silenciosas, grupos e grupos de ansiosos, egoístas, sentimentais, bons vivants, infantis e demais seres com suas vontades supridas e frases ditas e ligações feitas, satisfeitos em suas vidas satisfatórias: sábios sem pestanejar em selecionar-se em primeiro plano, apertando contra os olhares escusos e as bocas tortas os cantos de lábios que sorriem tímidos pra verbalizar mentalmente: foda-se, esse é o mantra daqui em diante. É ver o balde chutado alguns centímetros à frente e conseguir gargalhar ao invés de povoar o imaginário com uma infinidade de bobices que poderiam ser mas na verdade fogem da realidade.

Liga o foda-se quem não se acovarda ao ouvir o tututu do sinal ocupado. É atitude pra quem consegue se colocar no centro das prioridades e só sossega depois das demandas internas todas supridas. Sem teorema ou equação que faça achar o ponto preciso onde se localiza, pode estar na escolha de um rumo incerto profissional, na venda do carro que nem gostava tanto pra ir e voltar do trabalho de bicicleta, no largar do noivado cafona porque o desejo sexual já não era uma comunhão entre o recente casal – ela, uma vez na semana e tudo bem; ele, uma vez ao dia e uma quantidade enorme de tesão reprimido fodendo outras áreas da vida. Essa gente que compra passagem só de ida pra bem longe e parcela no cartão a aposta de felicidade. Na confiança de que o único julgamento que absolve todos os réus, auto-explicativo, é o próprio. É ali, mais sensitivo que visual, intuitivo a certeiro, é no mergulho sem avaliação de profundidade que dá pra optar entre escrever uma vida no lugar de apenas redigir lugares comuns.

Sentada na mesma poltrona de toda segunda-feira, recomecei mais uma semana falando e falando até a boca ficar seca; contando causos e pedindo pela afirmação de uma profissional - tanto fazia se era o movimento favorável do rosto de descer e subir ou em formato de sorriso. Pensa menos, ela pediu. Pensa menos que tem vezes que articular demais hipóteses e criar diálogos e fantasiar em cima de situações que na realidade não passam de monstrengos idílicos feitos das névoas do medo da vida. Pega a coragem e vai viver, Camila. Assim é que se abastece de momentos pra coleção das memórias bem vividas.


9 Comentários:

  1. Obrigada pelo texto, Camila, mais uma vez. Estou num momento da minha vida que PEDIA por algo, assim, encorajador.
    E ah... Prefiro muito mais teus textos sobre segurança, mais egocêntricos e mais realistas.

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  2. PRA MIM!!!! hahahah muuuito bom, Camila! Sério, muito meu momento MESMO!

    Parabééns!

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  3. Gosto demais seus textos, tenho até alguns salvos no meu blog. Me encontro na mesma situação de um fluxo de pensamento maior e mais intenso que queria e realmente quero apertar o foda-se, mas tá difícil. Mas vamos tentando não é mesmo?
    Boa sorte com seus pensamentos e se encontrar alguma resolução, CONTE-ME sahsausasahuashusahusahusahuhusaas
    Beeijo

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  4. Pensa menos!
    Recomendações do meu psiquiatra. Só que quando saímos da terapia não tem como o cérebro não ferver de pensamentos, não tem como pensar no que foi dito, no que foi feito, e no que se pode fazer. E ah, eu lembro que a cada sessão eu voltava pensando: Quanta coisa pra ''digerir'' em uma semana até a outra sessão.
    Somos pensadoras compulsivas. Ações são fáceis ou se faz ou não; porém pensamentos?Só o sono salva e se conseguirmos dormir ou as palavras. Pensar é bom traz uma nova visão do nosso mundo e do mundo que vemos e dá vontade de falar tanta coisa que está ali quase sem esfregada no rosto das pessoas.
    Pensar demais é um tanto que perturbador porque é quase um ''parto cerebral'' como diria Nietzsche, ficamos ali pensando e remoendo e de alguma forma esse pensamento tem que ser externalizado ou ficamos engasgadas.
    Camila, amei essa nova linha de textos e pensamentos que correm sem freio e precisam ser colocados no papel, assim sem muita idealização. Realmente tu é ótima. Beijo

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  5. Eita, guria. Dos mais incríveis dos últimos tempos!
    Ah, nós e nossas overdoses de pensamentos. Quer saber? Foda-se. \o/

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  6. Realmente, eu entendo. Pensar demais as vezes só cria preocupações e a gente caba se importando demais com tudo! É uma loucura isso! Sabe que pra mim é muito difícil ligar esse botãozinho! Eu sempre me preocupo demais com tudo,com a vida na universidade, com minhas escolha de curso, com meu futuro na área... Com tudo! haha

    Grande beijo, amei o texto!

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  7. escolhi pensar menos e tô numa fase bem melhor. pensar demais, imaginar demais ou criar situações às vezes acabam prejudicando. já liguei o foda-se! \o/

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  8. "Pensa menos que tem vezes que articular demais hipóteses e criar diálogos e fantasiar em cima de situações que na realidade não passam de monstrengos idílicos feitos das névoas do medo da vida"
    Ótimo Camilaaa! Uma super motivação pra todos que são assim. Parabéns!

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