Feministinha

3.19.2013 -

Junto de um grupo de amigas, a revolta começou a pulsar quando foi dada a largada para as frases clichês carregadas de sentimentos arcaicos da década de 50, como "agora, espera para transar com ele só depois da QUINTA VEZ que vocês saírem juntos" e "não liga, não procura, não chama por mensagem: deixa ele vir, teu ÚNICO papel é esperar". Teve também "se comporta, agora ele vai cuidar todas as tuas redes sociais, evita as fotos bebendo". Exasperei, eu. Primeiro, por dentro: não porque tivesse qualquer selvageria indomável dentro de mim que fizesse com que parecesse, ao olhar grosseiro da sociedade uma "vadiazinha dessas que os caras descartam". Não. Pelo contrário, quem sabe. A minha timidez sabe bem até demais o que deseja - porém, age pouco porque é demasiadamente pensativa, é quase um crime contra mim mesma o tanto que sou racional. Fazer o que bem entendesse, depois de muito e muito matutar, entretanto, era uma das minhas especialidades (e continua sendo).

Enfim. Internamente, ouvi aquelas garotas - algumas mais novas, outras de idade próxima; eu com certeza era a mais velha - e porra, fiquei ainda mais reflexiva. Todas bem vestidas no princípio de inverno gauchesco. Todas estudantes noturnas de universidades pagas, para poder trabalhar durante o dia, sair após a aula se desejar e ver gente descolada que pensa parecido pelos bares próximos. Bonitas, de classe média, bom gosto e humor altíssimo. E todas se contentando em esperar, após ter curtido muito sair com aquele rapaz que chamava sempre só que nunca ia - tem que ser um pouquinho difícil, vocês sabem, né? Se for fácil demais, os moços fogem, se escondem nas colinas de uma fraqueza masculina que é só se interessar pelo que for hard level. Isso pra compromisso. Pra namoro. Porque todas somos muito jeitosas e limpinhas e com perfume adocicado (blergh) e condenamos essas garotas que fazem sexo como homem, porque querem, gostam e tão afim. Nessa parte eu quase sempre revirava os olhos em silêncio, sem nem saber por onde começar a argumentar sobre a guerra que travavam contra elas mesmas. 

Não que eu fosse uma libertária transgressora gordinha que não se depila e que nenhum cara chama pra sair. Pelo contrário: na época, eu estava no melhor momento do meu vindouro relacionamento da época. Cheia de certeza de mim mesma, completa e segura com as escolhas que tinha feito até então. Talvez por isso, ao ver as artimanhas de solteiras próximas a mim - coisa que eu poderia vir a me tornar a qualquer momento (a fragilidade das relações é sutil, a gente finge que nem tanto, mas sim) - senti as artérias pulsarem e quando vi já tinha deixado escapar um "meninas, vocês não podem estar falando sério". Hoje, continuo não acreditando muito nesse discurso pró-homem que muitas enfiam na cabeça e seguem à risca, tudo por medo de ficar sozinha caso o cara conheça a sua autenticidade.

Fui obrigada a escutar uma aula sobre sedução, estratégias, e os joguinhos ridículos todos de esquenta e esfria a que muitas relações se estabelecem. Peguei minha sinceridade no colo pra que não pulasse em cima daqueles conceitos antigos todos afim de escalpelar tamanho machismo impregnado também nas cabecinhas frágeis de quem não aguenta mais perder para a sua versão eufemizada, caso aja diferente do que diz na cartilha rosa bebê das moças bem resolvidas. Voltei mentalmente ao começo do meu namoro, um ano e poucos meses antes desse papo todo: fazia eu o que bem entendia, na hora que quisesse; falei todas as vezes que quis, procurei quando me senti à vontade, não esperei até o quinto encontro coisíssima nenhuma, me permiti mostrar todos os lados de quem age conforme o que sente, em primeiro lugar, conjurado ao emaranhado de pensamentos agitados da minha cabeça - nada obsoletos, menos mal. 

Quis discursar sobre como, quando um cara acha você magnífica pelada ou vestida até o pescoço, de maquiagem ou toda suada, bonitinha dançando numa festa qualquer ou esbravejando numa ferrenha discussão literária, as coisas todas acontecem porque todas essas teorias são apenas pequenos pontinhos pretos em meio ao brilho todo que uma pessoa, quando toca na gente, sopra. E de como elas, tão maduras, confiantes, algumas atuantes de um feminismo - de fachada, desses de só ir nas tais Marchas das Vadias e só - se deixavam tomar por regrinhas babacas que as obrigassem a ser indiretas no grau mais tosco possível.

Falei. Disse que, se elas lutavam fora da temática "relacionamentos com o sexo masculino" para que houvessem direitos iguais, se detestavam ser chamadas de bagaceirices pela rua todo santo dia, se rachavam a conta de vez em quando porque achavam justo em função do valor alto do restaurante, se usavam as roupas que bem entendiam e clamavam pela justiça salarial entre homens e mulheres, quando desempenhando igual função: por que sempre essa romaria de se fazer de morta e enterrada, de não dizer pro cara "eu só quero alguém pra dar esporadicamente, sem compromissos e sem cobranças", de sofrer em casa porque ele desmarcou de última hora e roer unhas e comer todo o chocolate da dispensa enquanto morre lentamente por dentro de agonia? Por que se anular e viver conforme os outros pensam ser "o correto", que é não mostrar que é bacana em razão de um mistério que os caras compram a prestações (uma hora fica meio cansativo fingir tanto, vocês sabem)? Atitude, infelizmente é um man repeller, só que do bem: afasta os babacas que acham o feminismo uma droga e que só vão querer comandar as coisas, nos mais diversos sentidos daí em diante - liberando no terceiro, quinto ou décimo encontro, sinto informar.

Fui chamada de "feministinha", em tom de deboche. Como muito sou de vez em quando por algum otário de balada que tenta me agarrar à força ou dirige palavras escrotas sem ao menos me conhecer - as quais, eu quase sempre revido. Existem mulheres que são muito mais engajadas que eu pela causa e lutam de verdade, seja compartilhando conteúdo, fazendo parte de organizações e comparecendo às tais marchas, eu sei disso. Porém, se porque exponho minhas ideias e elas não tem a marca quadrada de quem aceita ficar quietinha num canto esperando pelo próximo passo seguinte do príncipe encantado (que pode ser hoje, amanhã, nunca mais se assim ele bem entender). Tem horas que dou graças a deus por conseguir fugir um pouco disso tudo e, por mais que deteste usar calças, vestir o próprio manto em benefício exclusivo: o meu. Poucas sensações carregam muita, muita glória como quando se chega de manhã saciada das próprias vontades e com uma infinidade de possibilidades pela frente. Se despir desses preconceitos e deixar de frear desejos, pensamentos e ações é o primeiro grande passo para pertencer somente a si - com todo o respeito, seja no primeiro, terceiro ou quinto encontro, se assim a paciência permitir. 





4 Comentários:

  1. APOIADÍSSIMO!Não aguente mais isso de 'não liga' 'não manda sms' 'não chama' 'espera ELE procurar'. Se deu vontade e acha que vale, se quer... pra que se anular? Não gosto desse comportamento e é bem difícil fazer os adeptos desse tipo (inclusive os homens) entenderem nossa posição, sabia?
    Apoiado, apoiado, apoiado!Afinal, 'o interessado dá um jeito', né Camila? :D
    Beijos

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  2. Nossa.. adoreiii o texto de hoje..
    Tbm estou cansada de machismos.. Se eu quero eu faço, não é pq estou seguindo as "regras" que não vou ter meu "sapo".. rss
    Apoiadissimooo!!!

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  3. Ser o que REALMENTE somos. Acho que as coisas precisam e devem ser assim, talvez seja esse mesmo o grande problema.. Somos mulheres com infinidades de jeitos: umas calmas, outras agitadas, persistentes, desistentes. Cada uma carregando seu jeito, manias e valores! Esperar a resposta masculina, esperar até quinta vez, cuidar o que publica ou não em redes sociais.. Deve ser baseado justamente nesses valores. Não da pra acreditar que ainda se pense que com ‘’joguinhos’’ se consiga alguma coisa por que mais cedo ou mais tarde temos que mostrar quem realmente somos em um relacionamento. E se a mulher for calma e prefere esperar? Acho ótimo! Se isso vier dela.. do jeito dela e não de algo ridiculamente estipulado pela sociedade, e isso tudo teu texto mostrou perfeitamente.. ótimo assunto pra ser cada vez mais discutido. Parabéns adorei o texto, Camila!





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  4. "Feministinhas" existem em todo o canto - fato! E também há muitos homens que pensam assim. Defendem direitos da mulher e não-sei-mais-o-que mas, quando o assunto é relacionamento, querem as "difíceis", as quietinhas, calminhas, bobinhas, as que ficam em casa vendo TV e sabem cozinhar, aquela que é "pra casar", sabe?

    Caramelo de Limão

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