Enlouquecida

3.04.2013 -

Eu limpava as gotas da garrafa de cerveja esparramadas na mesa do bar com a malha preta do meu novo casaquinho justo. As amigas diziam: tu tá muito louca, Camila. Não que isso fosse segredo pra alguém, não mesmo: falo rápido, raciocino num ritmo que poucos acompanham, sei que deixo de filtrar algumas vezes palavras que às vezes machucam. Mas Camila, calma, toma uma água, não bebe mais, chega. Foi só uma cerveja, eu disse. A médica falou que uma dá, uma tá liberada, tudo bem. Mas olha aqui: não pensa mais nisso, abstrai. Olha ali aquele cara, tá te olhando. Foda-se, e eu só tô mega agitada e tô pouco aí, não consigo retribuir nada pra ninguém no presente momento. Tem essas pessoas, que são como eu, que carregam sangue nos olhos, não só nas veias. Vocês sabem? Oh, bem, nem todos compreendem, eu sei. Mas essa gente, que vivem conforme a coragem de cada momento, sei lá, acho que são humanos meio raros que chegam pra bagunçar bons momentos, apressar fases estáveis, desmontar certezas. E sim, os de coração mais gelado e estômago apertadinho ficam com um medo danado e tentam fugir como se nós, os loucos de carteirinha, fôssemos a besta. E não basta ser sincero e sacudir o mundo, claro que não: querem de nós um comportamento centrado, imerso no tédio do autocontrole, praticamente robóticos e escravos do que pensa a merda da sociedade. Se quero isso? Não. Tô aqui viva pra coroar cada momento como único, pôr as luvas e socar essas mágoas que a vida às vezes nos abençoa até que esses estágios ruins se dissipem, minguados, destroçados. A gente cresce, esse é único saldo. E se a pessoa se priva de enlouquecer de vez em quando, dá no que? Desemboca numa chatice sem fim, nem tamanho e muito menos remédios.

Mas Camila, calma. Espera pra ver o que acontece. Toca fora essa pilha de expectativas, sonha com os pés plantadinhos aqui, no chão. O cara ainda tá te olhando. É só porque eu tô cagando muito pra qualquer companhia do sexo masculino, eu sei. É porque eu acordo toda segunda-feira cedo da manhã e faço um café, saio de casa e despejo as minhas inseguranças sob os ombros analíticos da minha psicóloga. Não que ela me ache tão maluca quanto o resto do mundo; nada nem perto disso. Na verdade, há mais concordâncias com a cabeça que olhares de incompreensão e saio de lá quase sempre com a alma uns 10 kg mais leve, o que é santificador. É por que eu ingiro, sagradamente, às 21h um comprimidinho pequeno que me dá sono tranquilo, paz de espírito forçada, o tal controle em relação à minha impulsividade autodestrutiva? Deve haver algum distintivo que demonstre: ó, aqui tem um tanto de loucura e o bem maior das autenticidades de quem não se contém em existir sem amarras, no momento presente - coisa que nem todo mundo digere com a facilidade dos sedentos por goles e mais goles que matam um pouco esse porre que é a regrada vida.

Coloquei meu casaquinho úmido por causa do vento sul que talvez me deixasse gripada pelo resto da semana. Me aquietei quando o petit gateau chegou. Além da vontade de doce absurda, ao menos quando me ocupo lambendo a colher pra absorver todo o chocolate possível pra que a endorfina liberada saciasse um tanto da minha inquietude. O cara continuou me olhando. Eu continuei pulando de assunto em paradoxo, de riso solto à teorias sem fundamento que só existem no meu imaginário de ideias embaralhadas. As amigas cansadas de tentar acompanhar o meu ritmo ensandecido entre bebericar mais álcool e ir das tragédias todas ao cinema e voltar ao x da questão dos meus dilemas de vida, era tarde da noite e junto da letargia uma aceitação burrinha de que tudo é assim mesmo, de que existir é com mais calmaria e direção pros conformados que ateiam com veemência contra a fogueira dos enlouquecidos em praça pública, vocês sabem: os loucos da terapia, os doentinhos do psiquiatra, gente que como eu faz os dois por garantia pra que o mundo seja um lugar mais vivível. Enlouquecidos somos todos nós; a diferença gritante se encontra naqueles que se tratam como esboço de um rascunho cheio de aprimoramentos constantes. Deem licença, o desatino temporário se lança apenas quando ligamos o piloto automático e decidimos existir fora de órbita. Só é viagem quem se permite escrever o próprio roteiro.

  

5 Comentários:

  1. Ótimo texto Camila. Sempre boa essa vontade de se viver como se quer e mandar o resto a merda, e que se foda. Boa sorte pra ti com o que vier pela frente, teu talento se mantem, apesar de tudo. Beijos

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  2. Também conheço uma Camila que fica muito louca, tão louca que fica fora de si. Beijos

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  3. Meu Deus, parece que tu escreveu este texto pra mim. Como pode ter tanta sensibilidade?

    Beijos e boa sorte.

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  4. Gostei muito do texto, e amei a reflexão final (fechou com chave de ouro). Ah, destaque para a música linda que eu não conhecia e que fez toda a diferença na hora de ler o texto. Posso dizer que estou amando essa sua fase ''louca''? Haha. Beijo!

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  5. eii, tempos que eu nao vinha aqui! sempre la nos readers, mas hj me obriguei a vir, e comentar, que teus textos estão cada vez melhores, uma evolução linda, de sentimentos, de escrita, de relatos, parabéns Camila!
    sucesso sempre!
    ^^

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