As vadias somos todas nós

3.05.2013 -

Passada a fase dos dois anos de menina comprometida, aos poucos recomeço os rituais de mulher solteira de quase vinte e poucos daqui em diante. E num desses muitos clicks que ocorrem quando somos jogados pra fora da zona de conforto imaginada pro resto do ano todo, um insight interessante me acometeu. As vadias, sabem? Aquelas que supostamente corriam atrás, enviavam sms e curtiam, comentavam e olhavam mega interessadas no cara que, a rigor, era "meu" mas na verdade era coisíssima nenhuma - é bicho, é humano, é cheio de instintos, isso sim - elas eram o que sou eu hoje. Entendam bem, não levem para o lado promíscuo da coisa: foge do meu feitio atiçar homem comprometido e nutrir fantasias de que irão largar namoradas e esposinhas e se juntar à minha fase libertina pós-amor-traumático. Não. O que quero dizer é que, as vadias somos todas nós porque se existiam vestígios e aproximações e todo o teatro de conversas paralelas ou encontros furtivos, é porque havia de presente, no colo de cada mulher também fera (e muitas vezes, ferida) a tal condição e o espaço necessário para que fossem esparramados atos de sedução esquematizados por fora da confiança da relação.

Muito xinguei com as amigas sem notar o machismo de frases como "eu vou matar essa piranha" ou "o que é que ela quer? ser a outra?" e ainda "que falta de respeito! caralho, não vê ali, 'em um relacionamento sério'?". Ingênua eu, sei disso. Tendência cega de colocar num altar quem é de carne, osso e um amontoado de possibilidades. Do outro lado da cerca agora, tem eu analisando a situação do ponto de vista que tanto já julguei. O resultado? Bem, a quantidade de caras amarrados que abrem a janela do chat e comentam minhas novas fotos é um dos altos índices que me fez cair na real. E ver que, se eu quisesse, a abertura estava mais do que dada para responder (caso fosse a vontade) e acatar saídas às escondidas e de última hora atrás de alguma diversão momentânea, ou dar corda às mensagens enviadas pra ver até onde os sujeitos se enforcam. E me sentiria à vontade e íntima o suficiente para demonstrar apreço pela nova foto do perfil ou comentar como uma velha amiga algo do status de quem muito se presta a elucidar a beleza do meu sorriso, o quanto um biquíni novo ficou bem ou ainda a peculiaridade do meu gosto musical. Sem a menor pretensão de provocar ou estragar a volta com a ex que anda ocorrendo e eu nem ao menos faço ideia. Nunca com o intuito de desestabilizar o começo de um namoro que desconheço a existência. A vadia, mesmo de coque podrinho, camisão de dormir e pantufas pela casa da avó, agora devo ser eu.

Óbvio que nem todos os homens do universo agem como desafiadores de si próprios e pensam que burlam garotas apaixonadinhas que sentem um ciúme mais incontrolável que a pontadinha da maioria dos corações ocupados. É claro que tem gurias meio malucas que extrapolam e ficam atrás de homens que alguma vez deram pé para a situação e mesmo com o rapaz cortando, continuam a acender fumacinhas paranoicas na cabeça das apaixonadas mais pueris. Mas o fato é que a biscate, tão maltratada na rodinha das namoradas, não passa de uma mulher como qualquer outra na maioria das vezes - completando a graduação, que se decepcionou para caralho com um idiota qualquer e agora sai com as amigas e conhece muitos boys interessantes - muitos desses que ligam tarde da noite e convidam em cima da hora e conversam propositalmente mesmo com aliança no dedo, status no Facebook e as mensagens no telefone celular apagadas.

É mais fácil, eu sei, culpar essazinha que aparece de vez em quando em alguma atualização ou sorri largo naquela festa cheia enquanto vocês dois passam de mãos dadas. Eu já estive do lado impulável do tapume e isso tudo não passa de um amigo aviso: antes de glorificar o querido, certifique-se de pensar como mulher e não levar tudo tão à ponta de faca, tão à sério assim. Donos, somos de nossas opiniões, propriedades, autenticidades e futilidades. Do outro, apenas companheiras de bons momentos, colecionadoras de domingos pela manhã e fotografias com pôr-do-sol ao fundo. Solteiras, voltamos a pertencer apenas a nossas vontades próprias e desejos não reprimidos; é bom retornar à fase épica da vida onde é possível sair com a barriga de fora sem precisar ter hora pra voltar ou prestar satisfação. Vadia se quiser aproveitar cada hora de toda noite que decidir varar atrás de memórias que entretenham enquanto ainda for presente. Na linguagem alheia, claro. Aliás, se é senhorita de si mesma, por que não?




13 Comentários:

  1. Muito bom, guria! Parabéns e que a inspiração não vá embora mais...

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  2. Como te falei por facebook.
    Acho bonito expor que sempre tem um outro lado, mesmo que tenha sido preciso passar por algo parecido, tu és capaz de admitir isso o que dificilmente acontece com algumas pessoas.
    Além de ser um bom texto condiz a tua postura como ser humano sabe, que como todos, erram, repensam, recomeçam.
    E tô aqui torcendo pra que as coisas melhores por aí viu?! Parabéns pelo texto =*

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  3. Nada como enxergar os dois lados da moeda e conseguir expressar isso tão bem! Texto ótimo, Camila!

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  4. Muitas vezes, uma "biscate" é resultado de um cara machista e babaca que quebrou seu coração e agora a única coisa que ela quer é aproveitar a vida, sem se importar com nada. Complicado, porque tem as biscates-biscates que só querem por querer mesmo e tem as outras, que tem um "motivo" pra ser assim, enfim. Muito bom texto, Camila!

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  5. Já não tenho mais palavras para seus textos tão perfeitos moça, parabéns e que continue assim. Faz um bem danado "te ler".

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  6. é TUDO uma questão de ponto de vista e acima disso carater.

    "Quem não dá assistência abre para a concorrência", "Homem procura na rua o que não tem em casa..." tudo balela. É uma questão simples de carater.

    Beijo :)
    http://www.milalices.com.br/2013/02/procura-se-colunista.html

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  7. Camila,

    Minha vida virou uma loucura tão grande que eu nem tenho mais tempo pra comentar nos blogs que eu gosto. Mas sempre que posso eu passo aqui para ler seus textos novos. Acompanho você já faz alguns anos, como você sabe, e sempre gostei muito das coisas que você escreve. Percebo agora um amadurecimento ainda maior na sua escrita. Parabéns pelo talento e continue escrevendo sempre. Texto sensacional! Beijos!

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  8. Coisa que sempre falei com amigas por aí:
    que dó das tais que fazem malabarismos pra lidar com filhadaputice de namorado, culpando a Outra e encontrando nela a razão de todo o mal e infelicidade.
    Comigo é mais embaixo. Filhos da puta são os dois, mas meu caso é com ele. Tá chovendo vadia? Quem sai fora sou eu.

    Vadia, a gente sempre vai ser aos olhos da coitada que não sabe quem realmente é seu problema.

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  9. Amei o texto Camila. Você aprofundou-se em mostrar-nos o outro lado da situação, algo que nunca tinha parado para pensar antes e me surpreendi. Eu só acho que você deveria tentar publicar um livro. Acredito no seu potencial e sei que é capaz. Te admiro demais! Beijo!

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  10. Que texto incrível Camila. Assim que tu para pra pensar nessa situação, vê mesmo o quanto é verdade. Acho que todo mundo já esteve em um dos lados, e se esteve em um, muito provavelmente vai ver o outro também.
    Não adianta culpar a tal da outra se o tal do namorado está dando liberdade pra que cheguem nele com segundas intenções. Há as exceções, claro. Umazinhas por ai que gostam mesmo é de infernizar a vida dos casais alheios. Mas há sempre de se olhar ambos os lados.
    De novo, ótimo texto.
    Beijos, b.

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  11. Esses dias eu comentava sobre o assunto com uma amiga minha... Mas é a vida, nós sempre vamos achar defeitos nos outros e desculpar nós mesmos. Parabéns pelo blog, agora é uma nova fase que começa na tua vida e espero que tu aproveite tudo que ela tem a te oferecer, haha. Se permite!
    AAAh, aliás guria, em qual semestre da PUCRS tu está? Comecei lá essa semana (:

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  12. baita texto! =D
    queria um dia, ver as mulheres nao se fuzilarem com olhares, nao se darem as costas tão facilmente! mas os dias passam e cada uma aprende da vida o que a vida tem pra lhe ensinar, ao seu tempo! ^^

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