Choro público

1.06.2013 -

Existem umas gentes que se comovem sem se importar lá muito com o local onde estão. Deixam-se cair em pranto e solução com os olhos vermelhos, irritadiços, tamanha a dor do pranto. São poucas, raríssimas: é fácil ver caras enfezadas passado num shopping lotado, confortadas com a ideia de que as compras de certa forma devem mascarar o buraco interno. Quase nunca uma pessoa com o despudor de uma sofreguidão clandestina, sem a recepção adequada. E ao caminho do coletivo, choram. No caminho entre a casa e um restaurante, não se contém em apenas sentir: esbravejam dor, representam a sensibilidade num patamar quase que orgulhoso, sofrem enquanto é possível. Eu admiro essas criaturas. Dane-se a etiqueta de fazer cara feia e choramingar apenas trancafiado no próprio quarto, no conforto do sofá de casa. Acho comovente e merecedor da minha admiração os tristes sem amarras e vergonhas de onde estão ou com quem. Sou também eu uma dessas desvairadas que se tá triste vai do trabalho a pé para casa com a própria permissão a uma tristeza tão ridícula que é externada pra ver se passa de uma vez por todas.

Sem medo de expor essa fraqueza das mais frágeis, me inundo da água salgada que cai dos olhos. Após uma hora ou duas devo ter desidratado metade da quantidade recomendada de ingestão de água para um dia inteiro. Assusto a mãe, constranjo amigas, faço duas desconhecidas se identificarem e conto a minha triste história, entre pausas e longos suspiros, trêmula quase gaga a fala. Tão transparente os sentimentos que seria quase cárcere prender o estado emocional até a noite chegue, até o horário que o peito confortar sem que haja grito de dor. A Juma, me contou uma amiga, a Juma da antiga novela Pantanal certa vez prometeu a si mesma que nunca mais choraria. Inspirada na moça que virava onça, desde pequena tenta deixar o mimimi pra muito de vez em quando. Tem conseguido. Fraca, alguns dizem, pare de se fraca e infantil e melancólica a ponto de, irracional, lacrimejar ao final de programas de televisão com quadros beneficentes, com depoimento de técnico após vitória de campeonato, com uma simples frase dita assim, sem motivo ou data certa para.

Ou mesmo, choro compulsivo de desolação mesmo. Vocação que tenho eu pra ficar deprê de vez em quando, parece que é preciso expurgar os maus agouros na forma frenética e assustadora dos olhos inchados e da cabeça dormente para no futuro ter um pouco de paz, depois que tiver passado a fase de quarenta desilusória. Se choro, é porque ser sensível dar. Ter vergonha de ser: existe? Eu aqui do meu lado sentimental da linha desconheço. Para nós, que não possuímos poder de virar bicho para ser fera ferida: que endureçamos um tanto, mas se o pranto escorrer, que desça. Não para que sintam pena - mas para que nos saibam completamente humanas.

4 Comentários:

  1. Eu tinha um certo preconceito, vergonha, sei lá, com chorar em público, mas quando a emoção é mais forte que tudo isso não conseguimos controlar. Beijos

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  2. Eu choro o tempo todo, pq vi um cachorro largado na rua,Pq vi uma criança suja na rua,Pq ouvi uma musica,lembrei de palavras linda que me foram ditas e outras tristes, normalmente é na rua,no ônibus,trem e metro. Meu melhor amigo anda sendo o famoso lenço de bolso. Por mais que não mude nada,me sinto mais leve e como dito humana.

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  3. Eu sou uma dessas pessoas que chora em público. Como tu disseste, não me importa a hora ou lugar, se eu estiver triste, choro.

    Uma vez me aconteceu na faculdade, no corredor, com gente olhando e fazendo cara feia, mas pouco me importou. Acho pior guardar a dor pra depois. E me parece que, caminhando em algum lugar diferente, a dor vai embora mais rápido...

    Beijos, Camila!

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  4. Eu, descrita aí. E minha mãe sempre diz pra parar de fraqueza, mas choro travado afeta mais o emocional. Eu, hein!

    Beijos!

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