Preguicite dominical

11.15.2012 -

Ontem fez tanto calor que precisei de dois banhos. Semana passada, teve dias em que tomei três, com orgulho de quem esquece as crianças na África sem água por alguns minutos. No momento em que meu cabelo molhava pela segunda vez o travesseiro e, em silêncio, assistíamos aos passes e quase-gols narrados freneticamente na tela do computador, divaguei dentro das nuvens, sobrepostas ao azul clarinho do céu sobre quão calmante era passar pelo domingo sem se dar conta da tristeza que fecha a semana. Do pacifismo que ia sendo fincado aos poucos, junto um medo terrível da rispidez dos dias abafados abafados, onde o calor penetra e consegue nos deixar cansados de nada e mau-humorados por tudo, desses laços líquidos atuais que se enfraquecem e as pessoas, após o susto do fim, não haviam se dado conta ou estimado tempo para ver e consertar o que andava errado.

Fiquei minutos nesse transe de como a nostalgia dominical nos toma por inteiro, mesmo antes de se despedir. Lembrei de todas as pendências que preciso resolver durante a semana, pensei em milhares de melhorias que ainda posso implementar no meu estilo de vida, e foi bom decidir, com ciência: amanhã o dia é útil, amanhã risco da lista do bloquinho que fica na bolsa. Ele pega a minha mão e é como se o dia passasse a fazer mais sentido. Depois de andar por subidas e descidas de ruas próximas, ver seriados, jogar game de futebol e ler no sol, natural uma pausa entre os chamegos, frases espontâneas e abracinhos pra se dissolver nos questionamentos próprios, individuais. 

Captei muito esse momento, uma raridade. Geralmente a gente se ocupa de tantas coisas a dois e se obriga a viver com tanta intensidade que acaba por esquecer que estar junto é um estado de espírito, vai além de sair para jantar, ir ao cinema ou compartilhar uma garrafa de vinho enquanto vê gente em suas casas pela luneta. Naqueles minutos sem falas, eu percebi a sintonia de linha fina que nos liga e faz dizer coisas como "eu tava pensando exatamente nisso" ou "bá, ia dizer isso agora". Ele tocou o meu braço e me puxou pra perto justo quando a angústia ia fincando mais fundo a navalha tortuosa dos pensamentos sufocantes. Eu quis ficar ali  sem fazer nada, porque era a melhor coisa do mundo procrastinar sem dó, dor ou sacrifício, sem entrar em pânico frente a uma quietação propícia, inocente.

E ainda era feriado. Da sexta-feira de ontem, que na verdade era quarta, pro domingo antecipado de hoje, duplo se somado ao dia daqui dois. Se deixam, fico mesmo de cara amarrada, pesados são todos esses questionamentos que rodeiam a minha existência atual. Sem saber muito bem pra onde correr, em que porta entrar, pra que lado ir, eu prefiro ficar ali na cama, apertada com força sob dois braços fortes, comprimida de afeto, completa num dia sem fim, conversando sobre amenidades e o medo de chegar em casa para dormir totalmente sozinha pela primeira vez em duas décadas. Acalentada no colo onde minutos são horas e eu agora consigo até dormir. Até amanhã. Até sábado umas 10h30, se possível. Até uma vida inteira enquanto um clone de cada se encarrega das chatices. Poderia.

2 Comentários:

  1. Como sempre, maravilhoso! Não tem como não amar tudo o que você escreve aqui. Parabéns, Camila!

    ResponderExcluir
  2. Quanto tempo faz que eu não vinha aqui e parava pra ler direitinho e com calma os teus textos...vejo que continuam bonitos e transparentes!
    Um beijo, moça!
    Yohana Sanfer.

    ResponderExcluir