Monstrinhos invisíveis

10.17.2012 -

Faz alguns dias, se alocou no banco traseiro do carro e aproveitou a carona até o prédio enorme onde entrei com a sacola rosa bebê da Barbie, no elevador. Me seguiu, como faz sempre depois de escutar "tchau amor, depois te ligo". Bufei, como faço sozinha toda vez que o peso nos ombros pesa demais e, meio corcunda, eu desabafo o mundo nesse tantinho de ar que sai pela boca. Alivia. Só sinto ele me assistir, penosa e cansada, com o casaco de lã bege sentindo o maior calor do mundo e cuidando pra saia não emperrar no vão da porta, ao sair. E ao tocar a campainha. Sentar sozinha no sofá frente à deprê dominical. É a praga que ignoro enquanto ensaio viver sem doer demais enquanto todo riso, qualquer choro, as frases repetidas e as caretas de sempre são perdidas num saldo diário sem envio nem revisão, sem admirador ou cúmplice: ficam pra sem-gracice do flagelo egoísta que gruda em mim, se equilibra no ombro, cai dentro da bolsa, não larga nem sob decreto.

O monstrinho, na verdade mais fidedigna possível, nem ao menos gosta da minha companhia. Prefere a condição de estar solitário consigo mesmo, escondido por aí num desses buracos repleto de quem se foi, preenchido inteirinho de nostalgia. Cuida de mim assim que o amor sai de cena por três, às vezes cinco dias, feito babá silenciosa. Me acompanha ao banheiro, e questiona minha sanidade enquanto me analiso em frente ao espelho. Sem me atacar, ali invisível saindo do meu peito pra voltar novamente quando estiver em paz, em dupla, à dois, tem um pouco de sossego quando recebo mensagens, falo ao telefone ou vejo por minutos no meio da semana o meu preferido dentre os caras desse mundinho. Ele vai, fica o espião ermo da vida cotidiana fica, incumbido de anotar ao longo do dia coisas para contar à noite, disparar lembranças do final de semana nos momentos menos propícios, atiçar em mim a vontade de largar tudo correndo, agora, nesse minuto e fugir pra alguma prainha de Santa Catarina.

Só que não dá. E aí que ele continua questionando minhas escolhas e meu jeito blasé ao longo da rotina. Acompanha a minha inquietação antes de dormir, emburrada e sem dar boa noite no escuro. Grunhi enquanto tomamos café da manhã cedo demais, juntos e sem escolha, afinal até mesmo quando sou obrigada a me meter em ônibus lotados para chegar ao trabalho ou faculdade, por entre os pequenos espaços de corpos que se esbarram, roçam e espremem, ele encontra lugar seja no teto ou no colo da senhora obesa cheia de sacolas para estar ali, meu fiel acompanhante. Monstrinho pede atenção e eu o alimento na esperança de que se vá de uma vez: escrevendo algo, revendo fotos, escutando aquela música. Suga minha alma pra sobreviver mais, indiferente se fico chata ou enfraquecida.

Sem se despedir, vai se indo pro limbo de onde vem enquanto faço o trajeto da avenida com a mesma sacola pesada cheia de roupas. Sem se despedir, passa pelo supermercado, me escuta ligar e dizer algo do tipo "desce, tô chegando!"e continua ao lado, ansioso pela trégua da minha realidade nem sempre tão animada e colorida. Enquanto espero, em frente ao portão verde por minutos intermináveis, chega o sorriso aberto em passos devagar, dá beijo cheio de saudade, abraça apertado. Vejo monstrinho sumir. Caminho agora ao lado de uma similar feminina do mesmo gênero, pra longe de onde fica difícil sobreviverem por tempo suficiente, tamanho GG o sentimento acumulado. E volta domingo de novo. Fica durante a semana, repete o ciclo e não morre de vez, nunca. Simplesmente porque, além de vilão, é peça chave. E sem existir, deixaria a graça de tudo ser gasta em tempo recorde. Quase sempre monstro, às vezes, sem ver, é anjinho - da sanidade.

2 Comentários:

  1. esse monstrinho é a base para desabafar. Escrever e lutar para manter o anjinho da sanidade.

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  2. esse monstrinho faz minha vida ser TENSA, tenho certeza.

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