Flor de Liz

10.15.2012 -

Lembro do cheiro amanteigado, das mãos suaves, do sorriso de estampa. De uma aula em que, como costumava ser, ocorria lá pelas 11h da manhã, todas as terças e quintas. Só Liz me viu chorar baixinho porque a música da baleia Shamu me tocava muito. Era do livreto de cantigas que rimam que fizemos no computador em inglês e eu, de baixo dos meus seis ou sete anos, ilustrei cada página com algo relacionado à música. Ela me abraçou com algum casaquinho fino e os braços gelados, num tempo onde meu quarto ainda era grande e sentávamos no chão para repetir palavras e sílabas "in english" por mais de uma hora. Truncada e gordinha, eu achava genial aquela moça crescida do cabelo curtinho que já tinha conhecido outra cultura, vivia sozinha e tinha um namorado que não o Ken. Se Liz fosse flor, com certeza teria aroma de doçura e pétalas de uma paciência que poucas professoras tiveram pra me explicar o mundo em meio à tantas perguntas, curiosa que sempre fui.

Ter aula particular desde tão cedo me deu a facilidade em compreender coisas em inglês que não lembro de ter estudado - nem no colégio, nem com os polígrafos, jogos e brincadeiras de Liz. Cada elogio recebido ao completar uma frase sem erros era uma felicidade incontida, cheia de abraços, euforia e o sentimento de vitória. Durante os cinco anos em que ela acompanhou o meu crescimento de menina para pré-adolescente, ia aos aniversários e às apresentações de dança, cativava os colegas de escolinha e colégio e ensinava meu irmão, que infelizmente não captou todo o amor por entender o estrangeiro apenas com uma troca de palavras. Adiantada, recordo da dor que causaram os primeiros dias nos cursinhos de inglês numa turma onde era chamada de pirralha e com uma professora que não comemorava acertos e carecia de doçura ao me informar que, querida, a gramática é importante também pra entender como se fala. Não tinha mais educadora com riso fácil porque comia uma bala atrás da outra, compulsiva desde pequenininha. Liz conhecia meu ritmo e, mesmo quando as aulas eram em dupla, me exigia mais porque sabia que era capaz, com toda a delicadeza habitual.

Teve também o dia em que rodamos toda a Cidade Baixa e eu, pequena, pensava que havia caminhado praticamente o mundo inteiro. Visitamos uma amiga, vasculhamos feirinha e batemos tanto papo que a canseira do dia quente e de pés suados resultou numa memória eterna do meu baú de lembranças da infância. Um belo dia, sem aviso prévio, as aulas de Liz se tornaram iluminadas memórias pra onde o tempo corre, cada vez que penso numa ensinante de respeito, com delicadeza e capaz de ser amiga, além de professora. Faz anos que não a vejo, não tenho notícias, e mesmo nos tempos modernos onde achamos a todos e  perdemos uma parcela de nós mesmos nas redes sociais, nunca mais tive notícias de uma flor exótica no jardim árido desse mundão. Interagia os alunos, era mestre na conversação e compreendia meu mundo de menina encantada com a vida de gente grande como poucas pessoas conseguirão até então: com sensibilidade. Deixou em mim o legado de que aprender, pode sim, ser sinônimo de descontração e prazer. Com a maior mansidão possível, fez parte da construção de mim mesma como cidadã desse mundo.

Quis saber de Liz pra fazer as manhãs da minha irmã legendados e mais coloridos. Ou, quem sabe, dublados. Se mudou de nome, voltou para a amada Londres ou mudou das lições de inglês para o talento que tinha para o piano, já não sei. Com certeza, continua a fazer das horas de algumas crianças um universo todinho novo a desbravar: com ondas de canções com rimas inglesas no toca-fita (agora, CD, pen drive, ipod, que seja), cheia de abraços macios com cheiro amanteigado. Repleto de jardins vívidos com labirintos  de livros lidos em voz alta, perfumados com flor dada ontem e aprendizado com riso. É das aulas em casa, com pé quebrado, lanchinho e um pouco de colo que eu sinto saudade. Saber captar a minha distração é um dom que apenas a raiz sólida da paciência encontrava chão para. Florida, Liz sabia como.


4 Comentários:

  1. Que lindo, Camila!
    Se um dia algum aluno meu escrever um texto assim pra mim, acho que eu morro de emoção.
    Que bom que uma professora te marcou tanto e de uma forma tão positiva. Interpretou muito bem o papel para o qual foi escolhida.

    Beijo :)

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  2. Que lindo, Camila! Tomara que este texto chegue nela de alguma forma, né?!

    Beijão

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  3. Também na torcida de que ela de alguma forma encontre e leia, why not? :}

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