Clarice, Caio, Marilyn: minhas condolências

10.30.2012 -
Priscila, minha amiga, fotografou com esperteza esse fragmento da biografia sobre Clarice escrita por Moser que a emprestei. Disse: "ela deve estar quebrando muitos copos lá do céu". Concordo.

Recordo até hoje meu primeiro contato com a obra de Clarice Lispector. Foi na biblioteca da faculdade, na estante de "escritores intimistas", que peguei na mão e levei para casa "Perto do Coração Selvagem". Aluna mediana que fui durante o segundo grau, devorei em questão de dias, deixando pesar minhas tardes com a sobriedade e as indagações todos da menina Joana. Eu tinha 16 anos. Ou seja: faz mais de cinco anos que me apaixonei pela escrita subjetiva da moça ucraniana radicada in Brazil.

Caio F. entrou na minha vida logo depois. De um autor, pulei a outro: num dos sebos aqui de Porto Alegre, pela proximidade do C como letra inicial, comprei Limite Branco. E depois, O Ovo Apunhalado, Caio 3D, Ovelhas Negras e outros, outros. Na minha solidão de tardes livres, li muito, sempre. Tive sorte de conhecer  cedo e antes do boom das redes sociais que citam trechos modificados e frases que não são da autoria desses maravilhosos escritores. Hoje, minhas mais sinceras condolências a uma literatura que tinha tudo para ser boa quando explorada com curiosidade - e de fato, lida - porém, que tem se tornado cada vez mais estragada por alguns poucos que desejam apenas passar sentimentalidade em seus perfis ou que, repudiam sem conhecer pois acham as frases (soltas) clichê ou autoajuda. Sinto compaixão.

Mas uma pontinha de raiva floresce em mim também: é triste que gênios da escrita do nosso país sejam banalizados a tal ponto, de serem considerados uma leitura pobre, ou mesmo kitsch. Pensei sobre isso meses e meses. Um autor tenta extirpar todo seu íntimo para colocar em palavras, originais, confiar à editoras, ir à sessões de autógrafo para que, depois de póstumo, uma maioria ignorante o banalize, modifique o significado de suas páginas, escreva seu sobrenome errado.

Será que é errado divulgar bons gostos, pois o estragam sempre? Enfim: se ao menos o pessoal do Twitter ou Facebook lesse um dos livros, ou mesmo procurasse saber mais sobre aquele a quem pretende creditar no final das aspas (porque, sim, essa é outra atrocidade que o brasileiro comete, pensa que tudo é de todos e foda-se quem teve a ideia genial, original), quem sabe, um respeito maior fosse instaurado. Ou, lendo um conto inteiro desses mágicos das letras, quem sabe o susto de não achar mais tanta identificação, quando a sentença é lida por inteiro e sem alterações.

Fico me perguntando, e duvido muito quando chego à conclusão: são poucos os que conseguiriam ler até o final a fusão entre temas como morte, existencialismo, sexo, infelicidade. Na verdade, descreio muito que essas menininhas que apenas copiam e colam as frases (e às vezes modificam) e suas fotos sozinhas, embaladas à vácuo e fazendo biquinho tenham a mínima ciência de quem foram ou o que mais escreveram além de um trechinho de nada, inserido como legenda para ou dar indireta ou mostrar uma cultura ingênua que nem ao menos existe. E fico triste, bem triste.

Não tão diferente o que ocorre à pérola de Hollywood, Marilyn Monroe. Ei, vocês, garotinhas que acham bacana sensualizar, já pararam para assistir filmes em que a diva do cinema atuou? É fácil colocar foto da loirice marcante e hipnotizadora de Norma Jean como capa do perfil, né? Assim como citar babaquices inventadas que ela, provavelmente, nunca disse. Aliás, nem ter o mínimo conhecimento de que Marilyn, na verdade, é um pseudônimo. Ter mais cultura, pra quê, se fingir ser descolada e sabida das coisas já está bom? Assistam aos filmes, leiam as biografias, ou até mesmo, ao pertubador livro de poemas da própria Norma (sim, esse era o nome verdadeiro da musa) antes de endeusar quem pouco conhecem. É a minha dica, pra vida.

Oro pra que não se deixe banalizar Virginia Woolf logo (um dia vai, aposto aqui), nem Clara Averbuck (que é ótima), nem Edie Sedgwick, a inspiradora e chique amiga de Andy Warhol, a principal pobre menina rica. Talvez eu seja só uma egoísta que gosto de descobrir o que vai virar modinha um pouco antes e, possessiva com minhas inspirações, detesto todos aqueles que, sem critério algum, pensam gostar do que desconhecem. Mas peço que conheçam, antes de julgar. Tanto os que postam sem nem saber de onde saiu, como os que nunca leram mas, pelo que acompanham nas mídias, pensam ser ruim, pobre ou apenas sentimental. 

Leiam, leiam, leiam. Assistam, assistam, assistam. E componham a partitura da própria personalidade, apurem as papilas gustativas daquilo que faz vibrar quando em contato com os olhos ou ouvidos, pelo amor de deus. O mundo, Clarice, Caio e até mesmo Marilyn, agradecem.


7 Comentários:

  1. Bom o que posso falar aqui é sobre o Caio e Clarice, assino em baixo de tudo que tu disse. Terminei de um ler um livro da Clarice essa semana pela segunda vem " A hora da estrela" mas já li "laços de família" o meu favorito, e "perto do coração selvagem" e só quem realmente lê sabe o que significa, a intensidade. Do Caio eu já li O ovo apunhalado, limite branco, Pequenas epifanias e cartas. Pretendo ler todos, quando eu tiver tempo e dinheiro pra isso.
    É por isso que as vezes solto indiretas no facebook, twitter, sobre as pessoas postarem as frases deles, não só deles, mas também da Tati, Clarissa, sem ao menos terem lido uma obra, um conto e ainda modificar.
    Agora sobre a Marilyn Monroe nunca fui fã, não conheço o trabalho pra falar a verdade então por isso nunca citei e nem postei nada.

    Belo post!

    Beijos

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  2. Confesso que muitas vezes postei frases e fiquei a me perguntar depois se realmente era daquele autor ou se estava correta. Estou um pouco enferrujada com a leitura, acho que isso se deve a vida moderna, fico presa as redes sociais onde tudo vem em frases curtas e textos pequenos, isso me fez adquirir preguiça de ler por um tempo. Mais hoje estou retomando o habito da leitura aos poucos.

    Beijos

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  3. Clarice e Caio são os mais "explorados" nas redes sociais. Pessoas que não gostam de ler, não tem a coragem de ler um livro, muito menos sabem algo sobre a vida desses respectivos autores, se atrevem a sair postando frases e textos na rede; muitos não sabem nem a que obra pertencem aquelas belas palavras. Outros autores também estão sendo "copiados", Tati Bernardi, Clarissa Corrêa, entre outros... Só posso dizer uma coisa: Tudo isso é revoltante! Leiam mesmo! Se os fragmentos dos livros desses autores são bons, imagine a obra completa...

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  4. "Talvez eu seja só uma egoísta que gosto de descobrir o que vai virar modinha um pouco antes e, possessiva com minhas inspirações, detesto todos aqueles que, sem critério algum, pensam gostar do que desconhecem." Ok, não sou só eu. Não lembro do momento na biblioteca, mas lembro quando cheguei meio dia da aula e já comecei a ler, sentada no sofá da sala que, pelo horário, ainda pegava sol. Talvez uns 3 anos atrás, é. Clarice foi a primeira. Caio lembro que procurei na biblioteca exatamente pela overdose das redes, ano passado ou esse mesmo, n me recordo muito bem. Sei que tirei fotos de páginas (pra me lembrar depois quando visse, o que era dele palavra por palavra e o que não) e uma delas inclusive imprimi depois (na verdade foi pra testar a impressora nova, mas enfim) e fica aqui do lado do computador. A diferença entre ler migalhas e o todo, minha gente, ela existe. A perspectiva muitas vezes muda. Sou chata assim com música também: conhece duas ou três músicas e já acha que pode falar muito - e o pior, ou banaliza ou vê superficialmente e óbvio, n faz ideia do que realmente se trata. Faço a tua dica, minha: Leiam, assistam - e acrescento: ouçam.

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  5. PS: mais exata a imagem não poderia ser. Mais específica a própria Clarice não poderia ser. Copos quebrados por todos os lados, com certeza.

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  6. Concordo plenamente. Entristece-me ver pessoas que carecem de todo e qualquer conhecimento usando os "mestres" da literatura de forma tão banal que ao ver tais publicações em suas redes sociais, pensamos logo: que coisa mais clichê! E o pior é que a sociedade está caminhando para isso: banalizar as exclusividades e peculiaridades de que dispomos. Triste realidade essa na qual estamos inseridos!

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  7. Eu tenho mania de decorar trechos de livros. É uma coisa minha, desde sempre. Cada situação da minha vida se encaixa em algum trecho que algum lugar que eu li, quem me conhece sabe disso.

    Eu fico frustada é que por causa dessa mania pseudo-intelectual de um monte de pré adolescente histérica esse pequeno prazer que eu e sei que muita gente tem, perde o sentido.

    Outra coisa chata são pessoas que nunca leram nada além da letra da música do Mr Catra, citam isso como grandes verdades universais e totalmente fora do contexto certo. Na maioria das vezes se vc ler a página inteira, o autor não quis dizer o q a frase solta representa... enfim, coisa de Brasil.

    EXCELENTE CRÔNICA. Amei!
    Postei esse link na fanpage do meu blog, espero que não se importe.

    Beijo!
    fb.com/milalices

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