O amor é viral

9.24.2012 -

Tenho a teoria de que, nos momentos de ápice da vida, enorme tristeza ou felicidade extrema, alguma doença se instala no corpo da gente como provação. É tão bom mesmo esse melhor colo do mundo? Tem fundamento a vontade de jogar tudo pro alto, tamanho o estresse? Frágil, dá pra sentir se alastrar a falta de imunidade que nos deixa iludir seja com a alegria que jorra ou a nuvem negra sob a cabeça, ameaça de tempestuosas atitudes, rio de lágrimas. É esperar para sucumbir ao contágio das alucinações próprias.

O amor é vírus. Desses que se instala sem a gente sentir, num dia onde o vento corre contra e o sol bate enquanto a gente caminha pela cidade e conversa. Adormecido nas camadas mais profundas da pele, chega com a lentidão de quem invade para tomar conta. Uma pontada como sobreaviso, cansaço anormal, a cabeça zonza de tanto pensamento com a figura repetida completando um álbum daquilo que se quer viver junto e - quem sabe? - esteja por vir. Sem sintomas iniciais, os pés vestidos em chinelos que dão a sensação de caminha nas nuvens, mesmo quando se toca o chão - certeza firme de caminhar dentro de um sonho possível. Até acordar no calor da madrugada, e jogar pro lado o lençol, chutar o cobertor, abraçar ainda mais forte o sono de anjo do outro, prender o braço em torno do corpo como quem pede proteção (e ainda nem sabe que precisa).

O apetite, perdido pelo caminho, recusa um chocolate, não liga pra massa aos quatro queijos, acha a fome coisa pouca demais perto do êxtase e aconchego, ócio de sair do conforto de um braço sob os ombros no sofá quentinho. Dormir, algo impossível nos mistérios da paixão, começa a ser leve e sem peso, com o ato de respirar profundo e balbuciar palavras, entre um sonho e outro. A gente entra na bolha criada sem perceber, e se enche de afago, cura com carinho, vê a inspiração aparecer e zarpar, e torce pra que não estoure logo - ao contrário dos virais que volta e meia nos tiram um tanto de saúde. Amar é estar danificado das expectativas do outro na vida da gente - a guarda baixa, um descuido e estamos entregues ao desconhecido, com muito prazer, novamente.

E se repete de fase em fase. Renova, apruma, dá carinho e xarope quando o mundo todo conspira contra. Contagiamos pelo beijo, passamos adiante na fala cheia de sentimento aos alheios, fazemos com que até mesmo os desconhecidos queiram captar a leveza de quem sofre do amor e se alimenta do mesmo. E mais na direção oposta de tudo que adoenta, mesmo com o passar dos dias, remediamos para que fique, acarinhamos para que cresça, olhamos com afeto para que não decaia, aprendemos, aprendemos e aprendemos.

8 Comentários:

  1. "Até acordar no calor da madrugada, e jogar pro lado o lençol, chutar o cobertor, abraçar ainda mais forte o sono de anjo do outro, prender o braço em torno do corpo como quem pede proteção (e ainda nem sabe que precisa)."
    Lindo Camila, simplesmente lindo (e sim, eu concordo com tudo, pra variar hahaha)

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  2. Que amor, que amor!
    Mais um textos que nos inspira e nos faz suspirar mesmo!
    Amo, um verdadeiro vírus que quanto mais sentimos mais queremos espalhar. As vezes ele foge do nosso controle e se espalha sem que façamos qualquer força!
    Parabéns Camila!!!
    Beijão!

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  3. Sabe, Camila... vou confessar uma coisa: sou, na realidade me tornei, uma pessoa fria. Hoje sinto que nao consigo mais cogitar a possibilidade de entregar meu coracao e alma para alguém novamente.
    Com isso criei um repelente contra qualquer um que tenta adentrar a minha vida, ou queira quebrar a minha redoma... me sinto protegida, mas ao mesmo tempo vazia. Alguém que chegue e bagunce tudo seria revigorante, mas o medo de ser machucada é a desculpa que eu uso pra me proteger.
    Entao, o que eu quero falar e acho que precisa ser dito é: teus textos fazem com que eu balance nessa minha frieza, sinta que o amor é uma coisa boa e que vale a pena viver um, dois ou quantos amores o destino revelar (mesmo eu sendo a moda antiga e queira que todo amor seja eterno...talvez por isso eu seja tao ressabiada).
    Continua sempre com tuas palavras que mexem com até da mais 'malevola' das gurias haha ;)
    Beijo enorme!

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  4. "O amor é vírus. Desses que se instala sem a gente sentir, num dia onde o vento corre contra e o sol bate enquanto a gente caminha pela cidade e conversa. Adormecido nas camadas mais profundas da pele, chega com a lentidão de quem invade para tomar conta." Quer mais fato que esse? Seus textos estão cada vez melhores, Camila! Se é que isso é possível. Parabéns, parabéns!

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  5. "O amor é vírus. Desses que se instala sem a gente sentir, num dia onde o vento corre contra e o sol bate enquanto a gente caminha pela cidade e conversa. Adormecido nas camadas mais profundas da pele, chega com a lentidão de quem invade para tomar conta." Quer mais fato que esse? Seus textos estão cada vez melhores, Camila, se é que isso é possível, rs. Parabéns, parabéns!!!

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  6. Este vírus deveria ser epidemia neste mundo afora!
    Tá faltando.

    Lindo texto, como sempre!

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  7. Se o amor é uma doença, o que a cura pode nos oferecer?

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  8. Faço das palavras da Paula Jacques, as minhas! - Victória

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