Medo do escuro

9.09.2012 -

Foi descoberta esses tempos a minha fraqueza de caráter num desses passeios pela casa vazia onde se vai atrás de água antes de dormir. Corredores vazios, janelas abertas, meias-luzes e a escolha entre a garrafinha cinza ou branca pra levar pro quarto e deixar ao lado da cama ou em cima da escrivaninha, para não dormir feito perdidos no deserto ou caso a sede acometa logo cedo. Sozinha, os dentes já escovados me faziam desocupada na fila de quem se apronta primeiro pra colocar o pijama e descansar a coluna. Em pequenas e rápidas passadas, a corridinha revelava o trauma de uma infância adormecida apenas sob a guarda não tão penumbre dos abajures: meu medo do escuro é quase desespero, tem taquicardia, pressa e boca seca. Chega ao ridículo, de tão exasperado.

Quando o pretume vem acompanhado da falta de companhia, cheio de silêncios, consegue se tornar ainda mais negro e perturbador, me faz ser novamente a menina da camisola com estampa da Lola Bunny beijando o Pernalonga que corria entre um pesadelo e outro com pressa o extenso espaço entre o quarto único e o dos pais. Dos tantos medos que tenho, é na falta de iluminação que afloram ideias absurdas de uma realidade impossível, sensações inexistentes de outros seres, almas, criaturas, ladrões por perto - nunca com um pingo de realidade para perceber o quanto me toma a ilusão desses infortúnios. Faz pouco que, agachada, colhendo o único líquido nesse mundo eficaz contra sede, sem pensar demais nem imaginar presença alguma, ao me virar tomo o susto da vida diante da escuridão que ria, sem acreditar que do alto dos meus 20 anos e quase um metro e setenta de altura. Tudo verídico.

Sofri carinhosas represálias por ligar todas as luzes, ficar vulnerável com qualquer som e ter a covardia aumentada ainda mais quando sozinha e com o desafio de buscar algo longe no conforto apenas de mim mesma e dos temores que a alma carrega - assim como ficar só num ambiente sombrio, olhar para baixo de uma altura expressiva, lidar com animais ferozes, nojentos ou gigantescos me faz menininha desabrigada da confiança habitual, dessas que se enrolam no lençol todo até o pescoço de pavor e fazem o namorado levantar pra ver o que é a pólvora, o motivo dos latidos, o barulho do shampoo que caiu no box mas parece espião, monstro do armário, espírito maligno ou qualquer coisa do gênero querendo puxar meu pé enquanto a dificuldade em dormir se repete, constante.

Peço cumplicidade para ir dali até aqui, pois ficar perdida dentro do universo espantoso da minha fértil imaginação é tarefa para ser feita de mãos dadas, sendo assistida para que nenhum mal me atinja, nada de ruim me pegue, bichos que aparecem de repente sejam repostos à natureza, habitat natural. Já teve sessão de desapego, sem o advento das luzes acesas, para ver se aprendia "na marra" que escuridão é só o clique em modo off da eletricidade - no on, minhas inseguranças todas de quem precisa sempre saber antes, estar a par, ter a vida às claras. Durmo melhor com com o brilho fosco das ideias fervilhantes de quando coloca a cabeça no travesseiro e o cérebro acelera muito antes de desligar totalmente, na negritude do comodo. Ainda dou ataquinhos de pavor vez ou outra quando apagam a claridade e me condenam com o silêncio gritante da própria alma, tão cheia das certezas mais mutáveis do mundo. O bom é que tem sempre um braço bem torneado em que posso me grudar. Um sorriso de compaixão quando isso acontece, o abraço apertado como recompensa por ser menina, e enfrentar de vez em quando um escuro ou outro para voltar com o coração disparado e uma adrenalina de quem merece ser protegida.

9 Comentários:

  1. "Meu medo do escuro é quase desespero, tem taquicardia, pressa e boca seca."
    Devo confessar que também imagino milhões de coisas impossíveis e que são inimagináveis, na claridade do dia ou dentro do abraço protetor do lindo.
    Medo do escuro que me acompanha desde criança e me parece que ele durará eternamente, infelizmente, é claro.

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  2. Nem é preciso falar que você escreve muito bem né? Amei!

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  3. Sou tão medrosa quanto...Esses dias escrevi lá no Pratododia sobre essa minha mania de medo de tudo!
    Bom que corro sempre pro abracinho protetor de zumbis do amor. hehehe

    beijos.

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  4. Chega até ser engraçado também sinto esse medo, legal que nunca tinha lido nada relacionado a isso, medos de infância.. ta ai uma coisa que realmente nos acompanha até mais do que 20 anos, acredito eu.. Hehe adorei beijos

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  5. Guria sei que estou muito em falta contigo, mas dando uma breve olhada nos posts novos, fico muito feliz ao ver que continuas escrevendo bem como dois anos atrás, fico mais feliz ainda de ver os comentários por aqui! Parabéns viu?? E não pare não. Beijão!!

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  6. Tenho tanto medo quanto você, embora em uma época atrás o escuro tenha me apavorado mais, acostumei-me com a falta de claridade na hora de fechar os olhos, mas de vez em quando ainda fico imaginando um milhão de coisas acontecendo ao meio daquele comodo tão escuro.
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    Morro de vontade de fazer um layout para você! haha

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  7. Ai Camila, até hoje não durmo no escuro. Acompanhada tudo fica menos terrível, mas sozinha... SEM CHANCE. Meus amigos até tentam descobrir de onde vem tanto medo. Mas sabe que nem eu sei. Só sinto medo.

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  8. Tbm tenho medo de escuro. .-.
    parabéns pelo blog, voce escreve super bem, e seu blog é lindo dms. amei aqui, ja salvei até na page dos meus favoritos . haha
    Se possivel visita lá o meu tbm?
    http://queenofcupcakeblog.blogspot.com.br/

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  9. Quando eu era pequeno morri de medo do escuro, hoje não mais. Sempre quando acordo de madrugada pego meu celular e vou iluminando o caminho, se aparecer qualquer coisa é só gritar! :)

    Agora, o meu maior medo de todas as noites é de nunca encontrar a saída do quarta. Como meu quarto é enorme, eu me perco no próprio espaço, nunca encontro de primeira a porta de saída... Isso já aconteceu contigo?

    Bjs!

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