Estupro diário

9.27.2012 -

"Ela nunca tinha falado pra ninguém, até que resolveu escrever pra um site de comportamento masculino contando a vez que tinha sido estuprada e falando exatamente sobre isso, que não é apenas o ato em si, mas que esses abusos de homem que grita, buzina ou assobia, também era corrompida diariamente", disse uma amiga enquanto atravessávamos com alguma pressa, atentas aos sinais verde vermelho e amarelo e éramos obrigadas sofrer sob o olhar atento de carnívoros rapazes, fedelhos, senhores e seus repugnantes assobios, suas paradinhas estratégicas para virar logo em seguida passássemos (como se as mulheres já não conhecessem essa e outras artimanhas para dar uma espiadinha na parte traseira do corpo, claro).

Me identifiquei com a história da tal moça que, depois de alguns anos, admitiu que foi molestada e que assim se sentia a cada ato de extrema falta de respeito e bom senso, dia após dia. Não porque já tenha acontecido comigo - e eu consigo imaginar o quão desastroso e traumatizante deve ser o desfloramento do corpo sem consentimento. Sim, porque todo santo dia me ocorre algo capaz de mudar o humor para o modo negativo, me faz sentir um pedaço de carne que vaga pelas ruas, ou simplesmente me tira totalmente do sério, ao invés de elogiar. Visto o que bem entender e para me olhar no espelho e gostar do que vejo, não para seduzir meia dúzia de seres irracionais do sexo masculino que se acham no direito de vulgarizar o que na verdade, às vezes é ingênuo, noutras só quer um elogio do namorado, das amigas (até porque, quase sempre quem nota roupa nova e look do dia são as mulheres, a gente sabe).

Sei como é porque também me sinto agredida toda vez que sou obrigada a lidar com homens que me encaram como apenas um objeto sexual que merece escutar bagaceirices porque não está totalmente tapada. Adulterada, mesmo não sendo, quando um cara qualquer que não sei nome, nunca troquei uma palavra sequer, me dá um tapa no bumbum numa esquina do Centro (e já aconteceram três vezes, três). É fácil se sentir estuprada quando sussurram com a voz nunca antes escutada coisas como "delícia", "tesão" ou "te como todinha". Pior ainda desde que, apaixonada, tenho quem sinta tudo isso por mim - e que não necessariamente explicita o apreço de modo baixo, até porque, me conhece bem e tem o direito de expressar o que quer que sinta por mim, quando bem entender. Arrancam minha paz espiritual tais "elogios", me fazem redescoberta, desnuda e agressiva: no lugar de ego massageado, auto-estima em baixa. Em fúria, sem querer entregar o desejo pelo corpo, somente meu e de ninguém mais. 

Já xinguei vendedor de balas de goma em parada de ônibus. Já mandei cuidar da vida um bando de pedreiros que, habitualmente, me chamavam de "gostosa", "delícia" e adjetivos muito piores. Empurrei caras com idade pra ser meu pai ou avô que tentaram um contato reprimidor, abusivo. E duvido muito que seja trauma só meu. Prefiro encarar isso como uma característica de quem se conhece tão bem a ponto de saber que é muito mais que um par de pernas grossas, quadril largo e cintura fina. Passei a responder, algo em mim perdeu o medo de ser agredida ainda mais (fisicamente, no caso), uma vez que a situação não diminui; apenas aumenta. A prática não é dos homens mais velhos, mesmo que a maioria: há jovens, assim como eu, que tentam esbarrar na rua e me fazem caminhar encolhida pelos cantos, fugindo ao atravessar uma rua e caminhando rápido para que não me sigam ou alcancem (algo que também já ocorreu).

Recuso a dica de que me vista com calça jeans e milhões de casacos, detesto o machismo feminino daquelas que acham normal situações como essas e que é "um direito do homem" sentir prazer assistindo formas femininas passantes ou se endeusam com falas de desconhecidos que sabem que não estão agradando. O que fazer para ensinar uma sociedade que ensina as mocinhas a não incitarem o sexo masculino ao invés de educar os menininhos para que tenham mais carinho com suas coleguinhas, irmãs, primas, amigas, e futuramente, todas as mulheres? Passeatas tachadas como "feministas" ocorrem pelo país, reclamações de mulheres que sofrem com atos censurados e depoimentos de quem já foi de fato estuprada de nada adiantam. Então, reclamo. Escrevo sobre. Xingo mesmo. Por enquanto, é o que dá para fazer. É como a minha impulsividade responde a ter que se sentir suja um dia inteiro porque um sujeito qualquer se dignou a chamar "potranca" quem tem nome, CPF e RG.

14 Comentários:

  1. Muito bom encontrar um texto desse quando, hoje mesmo, passei por algumas situações (sim, no plural) em um percurso de talvez 100 metros pela rua. Caras velhos e jovens, buzinadas, olhadas de cima a baixo com ohar faminto, argh. E o pior é que tem mulher que gosta. Uma conhecida certa vez me disse "se ninguém comenta é porque tem algum problema". Ah vá, isso é desrespeito, isso sim.

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  2. Concordo contigo, Camila! É revoltante mesmo! Certa dei um tapa em um homem, que tinha idade de ser meu avô, porque ele se achou na ousadia de passar a mão no meu braço e fazer 'certos' elogios. Graças a Deus não me aconteceu ainda de passar na bunda, como aconteceu contigo. Acho que não responderia por mim se isso acontecesse.

    Continue assim, expondo os nossos problemas para quem sabe isso um dia venha diminuir! Beijo, guria!

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  3. Eu acho nojento (sim, nojento!) esse tipo de homem. Não sei se é pior homens com idade pra ser pai/avô da gente, ou esses pirralhos de 12 anos que mal entraram na puberdade. Na boa, eles (os guris) acham mesmo que uma mulher de 20 e poucos anos vai dar atenção pra um guri que, como dizem, “nem saiu das fraldas” ainda?
    Uma vez passei por um grupinho desses no centro que me chamaram de “gostosa” e, por impulso, mandei pro inferno.
    Enfim, ótimo texto, Camila! Com certeza muitas mulheres concordam contigo. Porque quem gosta desses “elogios” é piriguete.

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  4. O que mais gostei nesse texto Camila é o finalzinho onde você disse sobre "se sentir suja", porque é assim mesmo que esses imbecis nos fazem sentir.
    Adorei o texto, como sempre. Você é dez!

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  5. Tenho pavor desses tipos de homens, e acho que seria muito bom que algumas mulheres se valorizassem mais, e não permitissem tais abusos, ao invés de acharem coisa normal e de se acharem por receberem tais cantadas!
    Essa parte foi a que mais gostei:"Então, reclamo. Escrevo sobre. Xingo mesmo. Por enquanto, é o que dá para fazer. É como a minha impulsividade responde a ter que se sentir suja um dia inteiro porque um sujeito qualquer se dignou a chamar "potranca" quem tem nome, CPF e RG.

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  6. Infelizmente, pagamos a penitência por uma legião de "mulheres" que não se dão ao respeito e, não sei como!, regozijam-se em meio a essas atitudes atrozes de tantos homens.

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  7. Já passei por isso dentro do pátio da minha casa! Pedreiro que estava no telhado de uma obra ao lado... Xinguei uma vez e ele repetiu quando passei novamente, foi o caso mais irritante que tive!
    Nesse caso, contei para o meu pai e deixei que ele resolvesse, parece que a construtora despediu o menino, até porque era menor de idade.
    Acho muito legal, quando vejo tu falando disso, Camila! Já passei por casos muito parecidos. Sempre penso em xingar, mas tenho medo de ser mais agredida ainda e muitos me aconselham a ficar quieta mesmo. É complicado, mas merecer ser discutido, mesmo!
    Parabéns mais uma vez pelo texto, guria! Beijo

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  8. Nossa, Camila. Agora você leu meus pensamentos! Acabei de publicar um texto chamado "Ser mulher" no meu blog e vim aqui e vi esse seu texto também.
    Acho sinceramente que as mulheres deveriam acordar e perceber que são mais exploradas do que pensam, porque foram feitas pra pensar que é normal ser explorada.

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  9. Muito bom Camila!
    Me identifiquei com teu texto, e infelizmente tenho o desprazer de ouvir tais piadinha de um ou outro individuo que volta e meia acabo me deparando na rua. :s
    Acredito muito que falta nos homens o bom senso de entenderem que mulher é sim um ser existente carregada de sentimentos bem como todo e qualquer ser humano racional, e não um 'objeto' de desejo sexual o qual existe com a finalidade de apenas satisfazê-los!
    Mulher merece respeito.

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  10. A cada dia mais somos vendidas como um "produto" pela mídia que faz com que a massa "compre" essa idéia. Se antes, eramos vistas com o propósito de sermos esposas que lavam, passam e cozinham, hoje somos vistas como "coisas" que suprem a necessidade sexual de um homem e nada mais.
    Não é nada sexy receber cantada de pedreiro, idoso, meninos de 12 anos ou qualquer conhecido na rua mas esse hábito de comer as mulheres com o olhar e palavras já é tão natural que os homens não sabem ou não sr importam em como isso nos faz sentir sujas, apenas estão preocupados em mostrar seu lado "macho alfa"

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  11. Também não me sinto bem com essas cantadas baratas e ridículas.Homens se acham no direito de falar e fazer o que querem com as mulheres e isso vem de muitos séculos atras, infelizmente.Queremos ser tratadas com delicadeza e carinho, queremos elogios sim, mas sinceros e sem agressões, pois não tem nada melhor do que cavalheirismo.
    Muito bom o seu texto, camila!

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  12. Bem isso, ficou ótimo e tenho certeza que falou por todas nós, ao menos as que raciocinam corretamente e percebem que não é direito de ninguém invadir nossa intimidade sem consentimento. Sofremos todo o dia com elogios que mais vulgarizam do que enaltecem, olhadas que nos fazem sentir vontade de espancar qualquer um, pois o corpo é nosso e nós escolhemos quem queremos que o toque e aprecie. É nojento, é horrível, é diário. muito bom, beijão

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  13. Muito bom mesmo, é bom saber que ainda ha mulheres no Brasil que ainda se valorizam. Infelizmente 99% dos homens dessa nação vulgar tratam, as pessoas do sexo feminino dessa forma devassa.
    Digo isso por ser homem, não concordo e não sou a favor dessa forma de "sedução" que muitos "homens" usam todo santo dia em todos os lugares, infelizmente é um comportamento que vem pura e exclusivamente do caráter e infelizmente poucos o tem no Brasil, pois sou homem e todos os "homens" do meu convívio se usam de dessa artimanha vil para denegrir o sexo oposto, lendo isso me sinto extremamente envergonhado do meu gênero, apesar de não estar listados na "galeria da covardia" me sinto abalado por esse relato.

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  14. Já vi muito tu falar nesse assunto por Twitter's e Facebook's da vida e sempre concordo com tudo que dizes. Me lembro de um taxista que na hora de trocar a marcha "escapava" a mão e encostava na minha perna. Eu tava com 3 guris no carro, amigos vindo de uma festa, e na hora de descer o NOJENTO do taxista disse: agora vocês vão e eu fico com a guria, hehe. Foi horrível e a única coisa que consegui dizer ao descer foi: respeito, por favor! Imagino quem passa por coisa além disso, meu Deus.
    Por um mundo onde todos os homens saibam seus devidos lugares - longe de mulheres que n conhecem e n lhes pertencem. Amém.

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