Esperamos que ele tenha uma boa desculpa

9.17.2012 -

Tento rebobinar até uns seis, sete anos atrás. A vida, pra mim, era feita de saídas com as amigas final de semana sim - outro também - conteúdos e provas do colégio, garotinhos que andavam de skate e ouviam Charlie Brown Jr., mudança de colégio, formatura do Ensino Fundamental e roupas de marca. Ah, e claro, não poderia esquecer: aulas semanais de reforço de matemática pra quem não conseguia compreender lógica nenhuma e pegava recuperação sempre nas matérias exatas. O que continua hoje no meu presente? As amigas, pouquíssimas.

Meu irmão tem hoje a idade que eu tinha nesses tempos áureos e aparentemente, tão longínquos: 14 anos. Pensava em muita besteira naquela época, falava mais que hoje, era extremista e no auge de uma adolescência rebelde. Já escrevia aqui e ali, mas nada que agradasse - guardei pouca coisa, o resto todo foi fora. Religião, porém, era uma das últimas coisas que se passava pela minha cabeça no turbilhão de hormônios, espinhas e alterações corporais. Ele, porém, escolheu sozinho e sem alertas a sua própria convicção: abraçou o ateísmo como quem se apega a uma verdade plausível, absoluta. Crível.

Cumpri à risca o ritual de batizado, comunhão e crisma. Ensaiei uma devoção fervorosa ao catolicismo logo depois da eucaristia, dessas de acompanhar a avó todo sábado na missa, acreditar piamente nos sermões dos padres, rezar sempre antes de dormir - fico em dúvida se era medo de não ser uma boa menina ou ingenuidade pura. Durou pouco, até eu começar a flertar com o espiritismo e trocar a hóstia pelo passe. Sempre essa necessidade de uma paz prometida, a minha fé pedia repouso, certezas, e uma base sólida no que acreditar. Até que passei a confiar mais em mim mesma e vi que boa parte do nosso caminho é trilhado pelas próprias pernas. Crer ajuda, mas tendo onde depositar as dúvidas e confiar os medos, que a escolha da divindade seja personalizada.

Passada a fase de busca incessante por alguma afirmação, os questionamentos me venceram. Acredito numa força maior, na divindade que a tudo rege e distribui um tanto de sorte, azar, e milagres, além de costurar destinos. Assisto à rebeldia desse rapazinho que nasceu depois de mim e insiste que Deus não existe e religião não define caráter. Continuo na corda bamba, agnóstica talvez, e na crença de que o amor mesmo é a mais eficaz das religiões. Não me aborrece nem um pouco, porém, o radicalismo de quem sai da zona de conforto e confronta a família de origem religiosa seja pela vertente portuguesa ou interiorana - as duas, fervorosas. Apenas concordo com o Woddy Allen: caso ele exista, espero haja uma boa desculpa para que o mundo tenha desandado tanto a ponto de se perder.

Me surpreende o fato de uma escolha tão precoce. Matheus é firme e não larga o osso: insiste nas discussões e vai à fundo em questões como fome, desigualdade, esforço próprio e o bem acima de tudo. Que existe muita gente que entra na igreja, prega, se confessa e distribui olhares maldosos, comentários ferinos e atitudes ainda mais, sabemos. Que as crianças da África já nascem culpadas e se alguém quer algo, deve lutar. Que a ciência explica muita coisa e Adão e Eva não deveriam ter umbigo. Sem discordar nem incentivar, me orgulho de uma cabeça com ideias próprias e que não copia o modelo que a sociedade impõe. É livre.

6 Comentários:

  1. Adorei o texto, Camila! E o teu irmão parece ter cabeça forte, mesmo com 14 anos. Um beijo pra ti, e pro Matheus também!

    ResponderExcluir
  2. Já tive fases de duvidar de tudo, se Deus existia ou não, o que ele anda fazendo que deixa as crianças sem pais tão cedo, que deixa muita gente passando fome, que deixa furacões e tsunamis invadirem e levarem cidades inteiras.. passei em torno dessa reflexão sem acreditar ou não durante 3 anos, nesse meio tempo veio a morte do meu pai e isso me revoltou de verdade... passado mais um tempo, não sei se chegou a 1 ano conheci meu namorado, e voltei aos poucos a acreditar que Deus existe, e que na verdade ele não quer nosso mal...mas Ele tem um jeito estranho, que não nós revela o que quer...Faz a gente se despedaçar em lágrimas, moer cada pedacinho do nosso corpo e da alma, para depois mandar aquilo que passamos tanto tempo esperando... É estranho, é difícil, é real,é a vida simples e pura, e a gente complica porque temos sentimentos e isso é lindo!

    ResponderExcluir
  3. Um ano que não passava por aqui ;/ . E Eu kkkkk Tenho uma cópia idêntica dessa em casa e com a mesma idade. Sei como é. Beijo para o Matheus e faça ele acreditar assim como você QUE "o amor mesmo é a mais eficaz das religiões".

    ResponderExcluir
  4. Camila minha querida, eu entendo seu irmão. Ele é muito idealista, e tem razão em acreditar no que acha de verdade. O importante é ter fé, seja nele mesmo ou em algo que todos nos desconhecemos. Sou evangélico, mas nem por isso acho que seu irmão está errado. E você deve respeita-lo, você tem suas crenças, e ele tem o direito de ir atrás das suas. Agrandando os outros ou não. Minha familia é católica fiel, eu passei por todo o processo cristão como você, mas decidi visitar a Adventista do Sétimo Dia e mim encantei. Entendo seu irmão completamente, e acho que você deve tentar fazer o mesmo e até mesmo ajudar ele a lidar com sua familia, pois ir contra a tradição da familia é uma coisa muito complicada de ser enfrentada. Religião não define ninguém, o que nos define é quem somos, nos conhecendo, tendo fé em nos mesmo e em algo maior. Pode ser que ele mude de ideia daqui há uns anos, mas por enquanto respeite os seus pensamentos e "desvaneio". Ou o que ele precisa é que apenas alguém acredite nele pra que ele possa acreditar em algo que ele não pode ver e ouvir. Abraço no seu irmão, e um xero pra você querida Camila ;*

    ResponderExcluir
  5. Engraçado, eu também nunca me preocupei muito com isso. Já tentei encontrar essa alegria que alguns religiosos tem em diversas igrejas, e já acreditei até demais no espiritismo. Mas não me encontrei realmente em nenhuma igreja, nenhuma delas respondeu minhas perguntas, e "ter fé" nunca me saciou. Eu já presenciei algo que chamariam de milagre e outras situações que me fariam crer em um ser maior. Hoje, eu simplesmente sigo a minha consciência, tento fazer o bem sem olhar a quem. Se ele existe ou não, não me interessa, estou de bem comigo e só isso importa.

    ResponderExcluir
  6. E então somos educados a pensar que os "ateus" são pessoas do mal e blá blá blá. Tenho tido contato com esses tais ateus e sim, mesmo contrariando alguns princípios que tenho, acho muito interessante os questionamentos deles. E concluir que - os que conheci - são bem mais sensatos que muito religiosos. E os admiro por isso. Fazem o bem sem, necessariamente, esperar uma recompensa (divina, no caso). E, especificamente, no caso de seu irmão... que com 14 anos já tem este pensamento forte, parabéns. Só tenho admiração. (Já que eu, com 17 anos, ainda caio em inúmeras dúvidas sobre a vida. rs)

    ResponderExcluir