Atípico

9.05.2012 -

Instintivamente, eu sabia que seria um dia atípico. Levantei como quem gostaria de dormir mais um pouquinho. Vesti calças pretas. Não meias, e sim skinny jeans escurras e agarradas desde a coxa até o tornozelo. O cabelo acordou naturalmente num liso bonito quase escorrido que não ensaiava há tempos. Teria como ser normal uma data em que deve se comer nhoque, rezar para que o salário chegue logo e ainda assim se precisa sair com o peito pesado pelas ruas cinzas da cidade? De jeans grudados pretos, mexendo no cabelo lisíssimo pra ver se parava em algum lugar, caminhei até as mesinhas de onde eu estudo pra ver se resolvia a vida de uma vez por todas.

Um ano e meio atrás, era eu jantando sanduíche integral pra ficar cada vez mais magra, conversando com um dos únicos amigos que a faculdade havia proporcionado até então, que me dizia: "Vai que ele é o cara certo. Vai que hoje tu perde um pouco dessa inocência. Vai que tu te apaixona?". Ou coisas desse gênero, porque o segundo encontro é cheio de mistérios e nunca se sabe pra onde depois do barzinho, por que chovia na frente daquela festa? Era o destino. Era também quarta-feira, como naquela outra vez em que, aflita, eu esperava no pátio da minha graduação quem me pegasse pela mão, conversasse entre uma cerveja e outra, brincasse com a pulserinha dourada que encobria o meu pulso e me beijasse entre um paralelepípedo e outro antes de entrar no carro. Foi na perfeição de um início que se repetia, feito ciclo que eu chegava à conclusão de que a quarta-feita, o mesmo banco alto e a mesa cinza, a espera angustiada ou era final ou sinalizava um novo começo pra mesma história que ainda não merecia fim.

Surge alguns minutos depois do horário previsto, como acontece algumas vezes. Sem saber se olhava diretamente no meu rosto confuso, alternava entre o chão e a aflição em pessoa (eu). Vinha a passos calmos, como quem não tem pressa em deixar que as coisas aconteçam, do mesmo modo de quem sempre sabe antes o que vai acontecer. Olhos nos olhos, mergulho no cinza peluciado do casaco cinza quentinho, duas ou três lágrimas. Dois silêncios que preferiam deixar que o aconchego longo de cinco ou sete minutos dissesse alguma coisa que trouxesse paz, explicasse a ausência, dissesse com certeza o que mudaria dali em diante, quais foram os aprendizados de uma semana de torturas, buscas e desencontros. Sobretudo, reforçasse o amor - esse intacto, esse inteirinha à mostra, esse maior ainda depois do desafio que foi muito tempo longe, pouco o conforto de viver os dias com espontaneidade, tamanha a saudade.

Pensava antes: ou termina o ciclo fechado de onde começou até o fim, na mesma mesa da mesma universidade, com ele chegando e talvez indo sozinho embora, ou retomam os beijos tímidos, mão na outra e a felicidade no olhar. Depois da quietude dupla que falou por todos esses dias de pouquíssimo contato, medo encarnado e dúvidas a milhão, encontrei respostas pra maioria das coisas que, um ano e meio depois de fases ótimas, descobertas, felicidade e furtivas crises, no meio das minhas choradeiras no escuro nunca seria possível. E juntos, a gente decidiu que o recomeço era o melhor remédio pra falta, com dosagem permitida pra liberdade, o acaso e frio na barriga. Espaço suficiente agora pra ser dois que se completam, não apenas mais um casal que cai no limbo da mesmice e perde a graça, a personalidade e o jeito de começo com o passar do tempo. Eu fui embora mais feliz que nunca, ele foi pra aula, e o nosso amor avançou até alguma casa onde poderia repousar; rejuvenescido, livre. Vivo.

14 Comentários:

  1. Que texto mais lindo, Camila! Descreveu eu e o meu amorzinho perfeitamente! haha Lindo, lindo, lindo! Continues escrevendo maravilhosamente bem assim, sempre!

    ResponderExcluir
  2. Coisa booa! Que siga assim, Camila!

    Texto lindo, como sempre!

    ResponderExcluir
  3. Eu já estava com o coração na mão na metade do texto, na espera de que o final fosse feliz e que ótimo que assim foi e que assim continue sempre, vendo que juntos é o melhor. Amei o texto, AMEI. ps: nem sei mais que palavras usar pra te parabenizar pelo que escreve, mas que uma fã tu tens sempre, pode ter certeza.

    ResponderExcluir
  4. É lindo de ver um amor assim, tão grande, verdadeiro, sincero, recíproco. Dispostos sempre a tentar, recomeçar e ser feliz. Parabéns, sucesso e felicidades. Que venham mais textos \o/ (essa fã aqui agradece :D).

    ResponderExcluir
  5. Poxa, Camila sempre descrevendo coisas que aconteceram, ou acontecem comigo. Concordo com tudo que disse. Vivo hoje no meu namoro algo muito parecido! Pra quem namora, ou namorou muito tempo sabe exatamente o que isso significa. Não é fácil manter a magia do amor que se tem lá no comecinho! Principalmente quando já se tem bastante tempo de namoro. Mas tenho certeza que, pro amor não há tempo que passe que possa se quer mudar algo, sentimento, carinho, paixão, amizade, carinho e confiança. Mas sou a favor do recomeçar, do tentar, e re-começar. Nunca é tarde pra começar de novo, nunca é tarde pra que as coisas se ajeitem ainda mais do que lá, no comecinho quando tudo era empolgante, era mágico e gostoso... Não há casal no mundo que não tenha passado por fases ruins, e essas fases ruins lá na frente vão servir de muito aprendizado e amadurecimento pros dois! Vai notar que elas contribuíram e muito pro crescimento do casal, fazendo com que o amor, forte e verdadeiro só se fortaleça cada vez mais! Texto lindo Camila, você disse bem o que eu ando passando, mas seja o que for, o amor é mágico, e pode durar, se nos lembrarmos de nossas diferenças... Beijo linda! Continue nos encantando com seus textos lindos e emocionantes!

    ResponderExcluir
  6. Coisa linda linda linda e linda demais esse texto!
    Aquele texto que você sente uma lágrimazinha querendo sair, então exatamente este! haha

    Beijos,teus textos estão cada vez mais lindos!

    ResponderExcluir
  7. Coisa mais emocionante Camila! Fui lendo com uma angústiazinha pra saber o que aconteceria!
    Que bom que rejuvenesceu! :)

    ResponderExcluir
  8. Daquelas leituras que você quer correr os olhos logo pro final, pra dar fim a tensão, mas também quer absorver cada palavrinha. Felicidades, Camila! E meus parabéns por esse vigor, essa vontade de fazer sempre melhor, lindo casal!


    *posso deixar uma sugestão de post aqui? Você comendo desde sempre tudo bonitinho, poderia dar umas dicas, né? É que tu tem um jeito muito ótimo de escrever sobre tudo, então né... Hahaha

    Beijão!

    ResponderExcluir
  9. E tu, dona Camila, escrevendo mais uma vez sobre o que já se passou ou ainda se passando comigo e com o lindo.
    Pareces adivinhar o que nós, assim como vocês, decidimos e preferimos, é claro.
    Texto incrível e que a tua felicidade, seja como a minha - linda, doce e leve.

    ResponderExcluir
  10. A gente é que bobo e pretensioso em falar mal do amor. Dos os males que o amor supostamente provoca não são mais do que resultados da nossa mania tão humana de se acomodar nas relações. Amor nunca vai rimar com comodismo. Amor sempre vai rimar com liberdade. E teu texto diz isso com precisão. Um beijo!

    ResponderExcluir
  11. ahh, quando a gente ama, o outro parece mais em casa. As borboletas vao sumir e toda aquela sensação inicial da paixao. no entanto, o amor esta ali sustentando tudo.

    ResponderExcluir
  12. Lindo. Confesso que fiquei apreensiva esperando por um final feliz,mesmo sabendo que ele seria sim tal qual como descreveu. Namoro a dois anos e sei o que é medo,a angústia de cair na rotina,na mesmice. E brigamos,perdemos a cabeça, mas no fim o amor fala mais alto. Felicidade,vc merecem. Beijos de um grande fã, sua e do casal. :))

    ResponderExcluir
  13. Nem vou dizer que amei e que algumas lágrimas insistiram em jorrar, mas fui forte e as controlei, já que ainda estou preso na redação com trocentas matérias pra produzir.

    Não vou dizer que adoro textos assim com toda essa emoção... Independente se o texto é ficção ou realmente aconteceu contigo, tudo isso passa. Alegrias e tristezas aparecem e somem da nossa vida quando menos esperamos. Temo que ficar sempre atentos, pois nem sempre esse amor que andam espalhando por aí é verdadeiro.

    Bjs!

    ResponderExcluir