Três dias

8.05.2012 -

Era uma felicidade de final-de-semana que carregava consigo a faixa e o título de rainha eterna dos sorridentes de plantão. Ficavam tão grudados, desde o horário certeiro que tinha ou "eu te espero no shopping", ou "te pego aí pelas 19h". Eufóricos, seguiam as avenidas desprevenidas e iluminadas, enquanto se afagavam muito, apertão na perna, mão sob mão e um beijo entre uma sinaleira e outra como tradução de qualquer dúvida de como era bom estar à dois, que maravilhoso era a morte lenta de uma falta por três ou cinco dias. Gostosa a intimidade sendo alimentada assim, tantinho por tantinho, como quem belisca o doce pra não enjoar rápido. De contar novidades, fatos dum cotidiano pesaroso que não era leve e límpido quando a alegria catatônica daquelas quase 72 horas.

Chegava, ela com uma sacola (às vezes quase mala), que não sabia se programar exata, quanto a estilo - a cada dia, acordava com uma vontade de ser diferente do que fora anteontem ou na véspera. Largava num canto do quarto, mergulhava na casa feita, tão grande enquanto aguardava que ele tirasse os tênis pra adentrar no que seria um dos melhores momentos até então: ele segurava o rosto dela como quem quisesse ter pra si nos dias que não se viam. Ela ria muito e o abraçava a todo minuto, como uma confirmação silenciosa do quanto era premiada em poder aproveitar uma noite de sexta-feira assim, no aconchego do melhor colo do mundo. Algumas vezes assistiam a filmes cult, dramáticos ou de ação. Quando ele ia à academia, ela ia feliz passear por entre as vitrines caras e requintadas do shopping ali perto. Vez ou outra, faziam exercícios juntos - e como ela adorava todas aquelas conversar amenas dos entardeceres de primavera. Às vezes, preferiam o cinema. Quando não, descansavam algumas horas depois de jantar, e escolhiam a agitação de sair pra noite como poucos casais fazem hoje em dia - eram mais que apenas dois na armadilha do mesmo incontrolável amor jovem: além de apaixonados, cúmplices. Muito mais que só amantes um do outro, amigos.

Uma maravilha a certeza de acordar imersa numa manhã sombreada de sábado sentindo a maior preguiça do Universo nos dois braços, recém espreguiçados, enquanto o sono pesado na faceta leve do amor ao lado faz quase querer morrer, tanta ternura. Ataque de vez em quando, lentidão em arrumar a cama, vestir qualquer roupa, molhar o rosto, ligar a televisão e tomar café enquanto o pensamento inicia a aceleração, ainda lenta; o humor melhora e a fala se torna natural, uma hora depois quase sempre. Sã a sensação de sair um pouco pra rua quando o tempo colabora, ou dormir mais um pouco porque são esses os dias marcados para o descanso, ou mesmo acompanhar até uma checada de e-mails e coisas simples pra fazer, tomar um sol, caminhar em algum parque, qualquer programa suave; importância era mesmo estar junto, sair pra beber com alguns amigos, de vez em quando ir dormir não muito tarde. Comer laranjas no sofá desconfortável da sala. Fugir pro sítio. Que quer que seja: como eram áureos os tempos onde se precisava mais e mais dele, enquanto desejava sempre e sempre ela ao lado. Pra compartilhar esses acontecimentos da vida que passariam desapercebidos, não fosse um e outro olhar estrangeiro com comentário para quase tudo.

Mas o domingo, ah o domingo: foi a redescoberta do último dia da semana, sempre tão arrastados e melancólicos, antes improdutivos, passaram de culposos vilões ao banco dos réus: tivesse boliche ou não, fosse assistir kart ou almoçar fora, acordar já meio-dia ou assistir futebol como paixão compartilhada. Se aproveitar sabendo que algumas horas adiante a vida cinza e sem quase nenhuma graça no dia-a-dia fugaz, tão arquitetadamente construído, era até o último segundo, arrumando as coisas pra ir pra casa, sentindo a alma vasta, feito um sonho bom que se finda. Tão apaixonados eram os dois ali, começando a afundar na bolha do próprio sentimento: era bom estar ali, tão e tão ótimo que a gente se perde de si pra acordar num belo dia em que a realidade chama. Consumidor, esse amor convincente, benfazejo, quase perfeito se não fossem jovens demais pra submergir numa loucura dessas. Medo de um dia acabar simplesmente porque o momento pedia aprendizados, crescimento, profissionalismo e quaisquer outras coisas em número tão grande que conciliar a grandeza desse turbilhão emocional vicioso era tarefa difícil demais pra quem sabe muito mais ser coração, no lugar de emocional.

De saber que amor pra vida inteira, de uma doação delicada e às vezes, agridoce, só esse, só um: nunca mais conseguiria olhar pra qualquer criatura que fosse com o mesmo afeto, colossal. Mais nenhuma vez aberta assim, de corpo, alma e sensações reveladas para ser entregue, simplesmente porque o resto do mundo todo não valia uma pena sequer do pássaro que era uma liberdade tão boa, que aprisiona. Nunca mais, caso termine algum dia, essa entrega desmedida e transbordante que quase sufoca sem a mínima intenção. De externar que é o homem da vida, e depois de o tendo, e caso este se for, nunca mais nenhum com o mesmo desejo, o mesmo toque, a mesma paciência e suavidade. Desses melhores dias de um ano e meio quase, lembranças que ultrapassam cinco, dez, quase quinze anos de uma solidão antes esmagadora. Quanto maior a obrigação de injetar realidade pra que o amor sobreviva, aumentada a vontade de que o começo retorne, arrependido. Quem sabe nunca.

10 Comentários:

  1. Camila, você escreve muito bem!Parabéns & Sucesso!

    http://amesmaessencia.blogspot.com.br/

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  2. Ai guria, impossível não me enxergar juntamente com o lindo, nesse teu texto.
    É angustiante ver a semana se arrastar em longas horas e nos finais de semana, quando ele também deve ser assim, passar voando e deixar um rastro enorme de saudade.
    Teu texto ta incrível, como todos os outros, claro. Parabéns!

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  3. Ai! Lindo lindo lindo, amiga.
    Muito amor, mesmo.
    Você é incrível, tem um dom incrível.
    Toda vez que te leio me emociono
    Beijo

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  4. vcs dois são muito lindos! haha amei cada palavrinha, vc arrasa! =)

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  5. Que texto mais que perfeito é esse? Parabéns, Camila. Parabéns por ter um relacionamento assim, tão lindo e tão sincero (dá pra perceber nitidamente). Que vocês só venham a crescer juntos e que esse sentimento só venha a aumentar. Felicidades e inspiração. Nós, leitoras assíduas, agradecemos.

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  6. Lindo Camila, demais mesmo, adoro me "ver" nos textos, amei!!!!

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  7. ah, como se come doce né, tantinho por tantinho!
    Achei o máximo este texto! Sério!

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  8. Oi, Camila. Tudo bem? Depois desse lindo texto não preciso perguntar mais nada...

    Olha, Camila, nesses poucos anos de vida eu aprendi que a gente tem que se entregar de corpo, alma, coração, contudo, acho que sempre devemos manter os pés no chão e não ficar tão dependente de alguém porque no final de tudo as coisas não podem acontecer do jeito que mentalizamos, daí vem a parte a chata: depressão, raiva, vontade de morrer...

    A gente tem sim que amar, mas, não ficar dependente dos carinhos de alguém! Eu senti na pele nos últimos dias o que é sofrer por alguém que resolveu viver outra história...

    Bjs!

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