Rotina

8.29.2012 -

É nos três ônibus diários - às vezes, lotação (principalmente quando a pressa de chegar em casa me gruda e infecta, me rendo aos quase "dois pilas", como falamos por aqui, a mais) que tem se composto tanto o meu excesso quanto a temível falta de uma criatividade que esteve sempre consentida, no colo. A imaginação continua ali, dispersa entre as janelas do lado esquerdo do veículo, que é onde eu sento quando não está tão cheio e posso escolher o lugar. Divago muito. Quase perco a parada onde devo descer uma porção de vezes. Olho o celular umas três vezes, atravesso as avenidas correndinho, passo desprezando os taxistas e obreiros, desejando que tenham um ataque fulminante e morram, até chegar no prédio branco. Minutos antes do horário, como habitual - essa síndrome de antecipação me acompanhou a vida inteirinha, mas fica pra outro dia. Minha vocação pro atraso é nula, enquanto o dom de chegar sempre antes se traduz nessa ansiedade cíclica, que faz com que meu desejo de mundo rápido ocorra de uma vez. A ansiedade é cumadre antiga que nem pede licença, tão inserida no cotidiano se encontra.

Acordo quando dá, porque no inverno eu me permito dormir - o calor do verão não me aceita como sócia de cama & lençol. Sei que precisar estar de pé até no máximo às 12h, então, acordo quase sempre umas três horas antes disso. Demoro no banho. Demoro pra escolher roupa. Demoro para secar o cabelo, escolher o sapato, organizar as coisas pro resto do dia, ou melhor, da tarde e noite. Nessa função, é hora do almoço corrido, de dizer: "poxa, mãe, tu sabe que eu tenho que sair daqui a pouco e o feijão não tá pronto?". Em algumas manhãs, tenho aula. Ou seja: preciso levantar mais ainda mais cedo (e nesses dias, adeus vaidade, até mais calmaria matinal, beijos pra quem me vê de mau humor e despenteada na faculdade). Vasculho sites interessantes, converso com pessoas queridas, algumas vezes pago contas, vou ao salão, gosto de fazer compras no supermercado e, principalmente, corro entre uma situação e outra, porque é a maneira que está dando de enfrentar essa rotina em ritmo de F1.

Nos finais de semana, prefiro apenas relaxar, afinal, é quando dá. Durmo até mais tarde, assisto filmes, folheio jornais, pego sol quando tem (vitamina D pura) e fico cinzenta quando o céu também escolhe o humor nublado. Vejo jogo do time, tenho tentado ficar mais em família, grudo em quem me dá mimo, tomo café da tarde, penso em mais ideias pra começar meu livro, revejo os esportes na esperança de escolher algum pra começar a praticar, exercito a volta de mim mesma que não tenho ideia de onde foi parar. Uso pouco o computador, menos ainda o celular, sofro no domingo por antecipação da semana que nem se prestou a nascer. Faço listas de pendências que merecem ser resolvidas, planos inadiáveis, vontades pra daqui em diante - e é difícil que tire algo já resolvido.

Troco mensagens, às vezes ligo, dou conselhos, falo com fontes, escrevo textos nada parecidos com o que leem aqui. Continuo sofrendo muito na TPM. Sigo enfrentando o bloqueio criativo que retorna quando não consigo equilibrar todos os pratinhos do dia-a-dia em apenas duas mãos. Tem dado pra ser um pouco espontânea, sorrir pra desconhecidos com crianças na rua e pensar tanto até ficar paranoica. Vejo crianças de 15 anos acendendo um cigarro na frente do colégio que passo todo dia e me assusto muito, penso por muito tempo em quão ridículo é um maço na mão de uma menina que talvez tenha largado as Barbies ano passado. Torço pra que nenhuma pessoa chata sente ao meu lado e pergunte o que estou lendo, que horas são ou em qual parada fica o Bourbon. E juro juradinho que faço o mantra da chuva de boas ideias pra que eu não falte aqui e vocês me abandonem. Juro juradinho. Penso, leio, rabisco, escrevo, risco, corto, complemento: tenho aprendido tanto que nem reconheço aquela menina que sonhava escrever e queria ser jornalista - e nem imaginava o quão agitada, enriquecedora e cheia de aprendizados ia ser o cotidiano, desses pra crescer na marra mesmo.

9 Comentários:

  1. Muito bom Camila! :D Beijo

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  2. Na verdade me assustam mais as crianças de 10 anos se beijando. Domingo, acho que sofro sempre por antecipação dele, adoro a sexta, sábado amo, mas domingo me bate uma deprê de querer voltar pra sexta á noite só pra ficar mais um tempinho colada no Amor. E acho que sempre, por menos que queiramos admitir, todos nos em algum momento crescemos na marra, temos que tirar força e vontade de onde nem nós sabemos que existe, acho que sempre vai ser assim, a vida vai sempre mudar e das suas voltas e reviravoltas...Obrigada por dividir conosco um pouco da tua vida e da tua arte, até porque sabemos que não estamos tão distantes da realidade e que mesmo achando que ás vezes somos as únicas a sentir certas coisas, sabemos que em algum lugar alguém se sente como a gente :)

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  3. Lindo! :)
    http://reflexoesdeletrasepalavras.blogspot.pt/
    bj

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  4. Nossa Camila! Tão maduro este texto! Essa sua rotina! Essa ansiedade então, tão minha cumadre também!
    Nem preciso dizer: Minha cara! Já sabe!

    Beijoca.

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  5. simplesmente lindo, camila!

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  6. Nossa que rotina hein! E ainda arranja tempo e criatividade pra escrever aqui,guerreira você! haha

    Beijos!

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  7. Sou daqueles que descobriram no cotidiano o segredo para praticamente tudo.
    A rotina nos reserva as melhores histórias, incríveis situações e infinitas pautas/inspirações/temas para qualquer seguimento criativo que a nossa mente sonâmbula deseja seguir.

    Eu mesmo, só de ler sobre as atividades do seu calendário, já imaginei algumas pequenas histórias. Podem ser interessantes ou não, mas o princípio do raciocínio está ali.

    Você sempre teve uma linha de pensamento agradável. As suas palavrinhas são jogadas com força, é preciso estar acordado para recebê-las e forte para segurá-las. Quem conhece essa técnica normalmente se sai bem por aqui e volta querendo outras doses de intensidade.

    Escreva Camila. Escreva sempre. Assim os seus dias continuarão lhe proporcionando histórias.

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  8. Oi, Camila, tudo bom?

    Sempre fui um leitor de longe seu, acho que esse é meu primeiro comentário e tal. De todo jeito, queria te parabenizar pelo belo post, é realmente difícil escrever um relato ao mesmo tempo tão simples e imagético, bonito e cinematográfico.

    Bom trabalho dura pra sempre. ;D

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  9. Acho que você descreveu também a minha rotina, Camila.

    Sou redator do maior portal de notícias da minha cidade e sei o quanto é corrido nosso dia. Pode confessar: você já pensou em largar tudo e arrumar sua mesa e ir embora da redação, mas daí você lembra de tudo o que fez pra chegar aonde está e logo esse pensamento doido some.

    Olha, só posso te dizer uma coisa: jornalista dedicado que se entrega de verdade a profissão tem tudo pra ser reconhecido, isso é só uma questão de tempo.

    Então, sorte a nós! :)

    Bjs!

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