Pequenos órfãos dizem: saudade

8.26.2012 -

Meu pé esquerdo se move lento, como quem perdeu o desenrosco antes de dormir no frio: agora parece entorpecido à procura do outro, já que falta o com pelinhos que eu havia adotado com muita estimação para aquecer. Entristeço. As minhas mãos não sabem bem sob o que repousar na hora de dormir, já que na marra estão precisando desaprender o desencaixe exato dos braços nos dele, duros feito aço, logo antes de dormir - super herói voou, evaporou; deixou os já quatro órfãos desolados e sem saber direito como proceder novamente para dormir na santa paz.

O bumbum perdeu o contorno, a nuca não tem mais beijinho inesperado de arrepiar todos os fios loiros, e o cabelo longo, sempre desordeiro e implicante, metido entre os lábios e passeador de barbas, ficou opaco por não saber mais qual o seu papel no mundo, se não a de ser tocado suavemente mais algumas vezes pelas mãos longas que enfeitavam meu rosto (ou "carinha" pequena, quadrada, de gato, infantil) e me faziam quase ronronar. Falta uma mão também sob o meu quadril. Ou dada enquanto os dois corpos repousavam, de bruços, assim de costas mesmo o amor entrelaçava-se só pra dormir melhor.

Rolo metade encoberta pelo lençol, outra metade dentro do vazio existencial que não me deixa fechar os olhos e aguardar o sono. Desacostumada, eu sei. Chove, a única coisa que eu gostaria, o meu pedido triplicado pro gênio da lâmpada seria dormir juntinho e acordar com mimo, carinho no outro, preguiça estirada sob a cama à dois. O esmagamento sob o meu corpo que, só ele no mundo inteiro acha pequeno. É como se os órgãos todos regessem uma orquestra, sinfonia, firmassem tratado, revolução cansados de tanta saudade.

Os olhinhos, minúsculos de tão sobrecarregados, se recusam a descansar algumas horas seguidas. A pintinha em cima do lábio, lado esquerdo, acompanha a curvatura triste da minha boca que não está mais falante como de costume e nem ao menos sorri. Todos esses pequenos órfãos, amiguinhos dele que sentem uma falta desgraçada, e instituem greve ao descanso, me querem viva e atenta, mas sem motivação nenhuma. Junto comigo, acompanham esse refrão de medo, mágoa, ansiedade, angústia. O coração, que erroneamente pensei um dia ser no meio do peito, mas fica à esquerda e me pede, quem sabe, mais racionalidade e lógica, pensamentos profundos, anda apertadinho, grita em silêncio e me faz ficar assim, estática, chorosa, com a mesma roupa de sempre, saudosista, sem comer, evitando o sono, sozinha. Saudade.



9 Comentários:

  1. Maldita saudade, sentimento que sempre nos acompanha de uma forma ou de outra.
    Texto lindo!
    Beijos

    ResponderExcluir
  2. E essa saudade que sufoca. Lindo texto! beijo

    ResponderExcluir
  3. Perfeito. Menina que consegue juntar todas emoções e sentimentos afins em uma só voz e em um só texto.

    ResponderExcluir
  4. E essa saudade que machuca. Texto maravilhoso, Camila. Muuuito lindo! Incrível sua capacidade/talento de juntar todas essas sensações/emoções num único texto. Beijo.

    ResponderExcluir
  5. Camila, cria um skoob pra você. É uma 'rede social" para compartilhar livros bons que já leu, dá pra trocar livros também. Acho que irá gostar ;)

    ResponderExcluir
  6. Estou acostumada com seus textos lindos de amor...
    Este me pareceu um pouco angustiante, Não te conheço pessoalmente, mas ultimamente tu tem escrito textos muito biográficos. Espero, sinceramente, que este não seja o caso.
    Beijos!!

    ResponderExcluir
  7. Camila, sempre que leio o que você escreve, me inspiro para escrever também. Baseada nesse texto, fiz outro:

    "Antes de abrir os olhos, acordo. O sol entra pela janela e venta como se fosse noite. Meus pés se enroscam, um ao outro, aquecendo-se. Meus braços procuram um tórax para servir de apoio, enquanto a cama está vazia, do melhor jeito para se espreguiçar. Mas eu não faço questão de tanto espaço. Caberia sem reclamar no mesmo quadrado de outra pessoa, dormindo de conchinha e acordando sem mal humor. Sozinha hoje, me sinto como se estivesse sido paga noite passada, por alguém que na manhã seguinte esqueceu de deixar meu dinheiro na cabeceira. Mas eu não cobrei pra fazer amor, se o meu amor já está feito, e o dele, que eu pensei ser pouco compatível ao meu, se quer existe. Agora estou fecundada, de angústia, solidão, e infelizmente - com a maior vergonha do mundo de admitir -, de saudade."

    Júlia Evelyn

    ResponderExcluir
  8. Sou péssima em descrever o que sinto lendo teus textos. Resumirei com o de sempre: lindo.

    ResponderExcluir
  9. Lindo! No fim, bem sabemos que é isso mesmo que acontece na falta daqueles que amamos.

    ResponderExcluir