De doar-se

8.23.2012 -



Conversava com uma amiga sobre como todo mundo se sente superior ao deteriorar quem segue as próprias vontades. Ou, o tal id, diria Freud. Gente que tem essa (identidade?) aflorada num grau que chega a irritar a sociedade. E que deveria ser alheia. Disse ela uma bela verdade: as pessoas precisam dar mais e se preocupar menos com os outros. Eu antes nunca parei pra associar falta de sexo com os rancores do mundo. Talvez esse dar, fosse doar - eu posso ter escutado errado, sou uma dispersa crônica. Quem sabe falta suor, cansaço bom, usar lingerie luxuosa, dormir feito criança amagada no íntimo do prazer, e daí, a crítica de quem se joga e nem avalia tamanho nenhum de queda alguma - eu também sou dessas que confia até o fim que não vai cair, não. Nunquinha. Até que ploft. E fico um pouco cansada e um tanto quanto muito com preguiça quando escuto gente julgando criaturas com quem me identifico.

Parei pra imaginar um convívio onde todos tivessem o hedonismo próprio satisfeito. Larguem a caneta, trabalhem a ideia, rabisquem na tela dissolúvel da imaginação o desenho de todos chegando pra trabalhar depois de uma maratona de carinho, paixão, sexo, boêmia (se der prazer, ué). Ou se cada um escolhesse uma hora do dia e se dedicasse a ter prazer naquilo, a fazer com tesão o que bem entendessem. Porque hoje, simplesmente não dá - todos enlouquecem atrás de dinheiro, correm feitos loucos em seus carros pagos em duzentas prestações, e ainda precisam chegar no cubículo que chamam de casa e dar uma arrumada, passar roupas, cozinhar pra si, só. É como num jogo onde todos entregam o próprio sangue, a saúde, seus ideais pra sobreviver sendo uma cópia entendiada de tantos outros que vieram antes e virão a seguir.

Que se dessem sem nota fiscal pra qualquer coisa que valesse a pena, então. E adeus esse medo do ridículo, essa insegurança de estatizar porque "o momento melhor" deve vir daqui a pouquinho. Eu penso nessa teoria Freudiana que ouvi falar só esses dias, enquanto chorava (pra variar) explicando a uma outra amiga que eu não devia ter solução mesmo, já que eu fazia o que bem entendia e me esquecia de parar por um mísero segundo pra avaliar consequências, atos, ou dar uma espiada nas páginas do capítulo seguinte pra saber mesmo se vale a pena - ou nem isso. E então ela contou sobre ego, superego, o pai da psicanálise e como eu deveria ser id demais, espontânea até quando (especialmente) não deveria. E juntei uma coisa na outra: as pessoas aceitariam melhor os impulsos de quem não se contém se, ao invés de uma boa noite de sono, se preocupasse mais em conseguir espremer de cada dia um pouco mais de intimidade. Relaxasse por dois ou três minutos e dormisse em êxtase. Se rendesse à uma vida prazerosa, ou inserisse um pouco de guilty pleasure numa horinha que seja. Só uma. E parar para comer doces, liberar endorfina, pintar quadros: descarregar, sobretudo, o resto do dia em algo que faça sentido ou enlouqueça. A gente tem certeza que é decente, são, correto, polido - mas até que ponto mesmo, antes de explodir?


6 Comentários:

  1. Maravilhoso! Incrível como eu consigo me identificar com todos os teus textos, crônicas, devaneios.. Continua assim, Milinha.

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  2. Muuuito bom! Adorei mesmo!

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  3. Gostei demais...acho que mais da metade das pessoas devem se identificar com esse texto. Muito bom!
    Beijos,Bia
    http://biiamuller.blogspot.com.br/

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  4. exatamente!
    Afinal, é aquela frase super clichê: viver cada dia como se fosse o último.
    A gnt fica muito preocupado com oqe o outro pensa e vice-versa. Deixemos viver e vivamos! :)
    adorei o texto, de verdade! Volto mais aqui para ler a senhora sensatez. beijos

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  5. amei o texto camila, impossível não se identificar com uma frasezinha que seja, Parabéns.
    beijinhos

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  6. É esse clichê que a Sara escreveu: Viver um dia de cada vez! Claro que a gente esperar demais por tudo não é certo, mas pra que apressar planos? Eu sou uma daquelas pessoas que não fica correndo atrás disso ou daquilo, eu tento uma, duz até três vezes, se não deu certo não foi por falta de tentativas, mas porque não era pra rolar mesmo.

    Esse texto é mais um daqueles que a gente para pra pensar e analisar toda nossa vida. :) Me identifiquei bastante.

    Bjs!

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