Paz adormecida

7.19.2012 -

Esse lance de que dormir abraçado é uma das melhores coisas desse mundo é coisa pra maioria esmagadora. Incrível, mas mesmo tomada pelo meu romantismo grogue e paixão meio visceral, eu simplesmente não conseguia, não conseguia. Era deitar a cabeça no peito sonolento e entrelaçar os braços numa coreografia bizarra até acertar o passo - os pés, no inverno, pra ver se espantam o frio, também se unem - e uns cinco, oito, doze, às vezes vinte minutos depois, pra dizer "ah amor, não dá, bem que eu queria, só que não consigo".

Poderia refletir sobre como quero ficar juntinho e de repente preciso do meu espaço próprio, e como isso é categórico e fingir que vejo um lado meu solitário que precisa existir continuamente. Ou me fazer de durona e dizer que não é bom mesmo dormir colado, dá calor, é desconfortável e parte da minha paz se vai pra longe. Só que não. Eu durmo de bruços quase sempre. Tenho dificuldade na arte do sono, de modo que, com o cérebro repousado escutando o corpo do outro se mexer, as veias em movimento, a respiração aproximada, minhas ideias é que não encontram modo de descansar, quietinhas e resguardadas.

Quando o conheci, sofria com a incansável insônia que me perseguia há anos. Lia muito, dormia tarde, acordava no meio da noite pra chegar a manhã e ainda me encontrar desperta e com olheiras; vívida, porém exausta pelo resto do dia. Bom que ao lado dele, por um longo tempo, dormia feito anjo, caia na cama feito criança, o bom humor era a realidade da manhã seguinte, ao começar o dia olhando pro lado já com a certeza de que havia iniciado com sorte: o lado direito é o que eu durmo. Mas nunca esse lirismo de conseguir adormecer pequenina e frágil, protegida na fortaleza do meu cavalheiro que tem nome de príncipe e precisa de 6 horas de sono ou mais pra viver bem.

Até que então, depois de um período de DR's consecutivas (e improdutivas), discussões sobre motivos idiotas, desarmonia temporária de ideias e pensamentos, e a fase conturbada que, enfim, passou e se foi, depois de telefone desligado na cara, táxi às 22h da noite, aparecimento repentino em frente ao prédio, um pouco de silêncio meu, postura atenta e fala séria dele, abraço forte de reconciliação, dentes escovados em conjunto e sono pesado (mas tranquilo, mas feliz, mas na paz de quem ia embora e resolveu ficar) dos dois, deitei sem querer largar, desativei o turbilhão cerebral de listas, tarefas, desejos e sensações, os olhos fechados, pano preto de fundo, quente em conjunto no inverno cruel, adormeci: meio têmpora esbarrada no ombro, braço compressado do outro, perna escudo, pacificada. 

10 Comentários:

  1. Sem dúvidas que o sono é sempre melhor a dois, abraços e cafunés e tiro e queda até pra quem sofre, e muito com insônias e com ideias que continuam em processo enquanto o corpo e mente precisam descansar!
    Achei um amor o teu texto guria, e adorei a coruja no visual do blog :)

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  2. Boa tarde Camila!!! Que texto lindo... deu pra sentir a paz aqui do outro lado da tela! Te desejo muito sucesso e inspiração, sempre!]
    Beijos

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  3. O meu marido só consegue dormir desvencilhado de tudo: lençol, travesseiro, eu. Entendo esse fato, até porque, ele é calorento. Mas eu sinto muito frio à noite, então, como lidar? Gosto de dormir abraçada, de sentir a respiração do outro, gosto por demais disso. Abraços.

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  4. Parabéns Camila! Lindo como sempre. A paz que sinto quando perto do meu namorado, senti lendo esse texto. Muito sucesso pra você. Beijos!

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  5. Te entendo perfeitamente... dormir abraçado é bom, mas existe momentos em que se é preciso espaço.

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  7. Ótimo texto, é bom ter seu espaço, mas as vezes tbm faz falta ter alguém para dormir juntinho. rsrsrs

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  8. Que lindo. Confesso que amo dormir abraçada, de conchinha, no calorzinho. A gente precisa do nosso espaço, mas eu já o tenho na maior soma de dias da semana,, então quando juntos, grudo. Adorei o texto, tua escrita é demais, tu sabe, beijão

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