Mimo

7.22.2012 -

Eu saí pra rua com o casaco preto comprido, cardigã preto com saia também preta e por baixo, a camisa que ele tanto odeia. De frente um pro outro, ainda era frio enquanto cada um cuidava dos assuntos profissionais num sábado de manhã, computadores na diagonal. Um abraço entre um e-mail respondido e outro, copos de água, foi-se duas horas do dia azul ensolarado lá fora. Indispersiçável, concordamos. Saímos do escritório pra farmácia, e da mesma, pra um parque ali perto. Tirei o casaco pra ficar somente rendada em bege, tão quente era o inverno pra um final de semana gaúcho. Mesmo detestando aquela peça desde a primeira vez que me viu usando, deu um resmungo que foi ignorado sem um pingo de paciência, justo porque eu adoro essa tal camisa. Com carinho, eu fico feliz em pensar que esse foi o mais próximo que a gente chegou de se emburrar e ver fechar o dia num humor que é mais configurado como do mal, que do bem.

Uma graça: era estar do lado pra querer muito ter a minha carinha pequena apertada pelas duas mãos dele, quentes, macias. Fechar os olhos ao lado dele por uns segundos pra descansar e virar pro lado já sorrindo, querer afago, chamar de mimo, de meu, de lindo. Assistir amedontrada com a mão sob as costas agasalhadas enquanto ele corta lenha, precisar tocar o cabelo, o peito, os braços, desse meu sonolento bonito. Na suavidade de quando a gente dança devagarinho, e ri muito de vizinhos, apelidos bisonhos, da minha brabeza e foras de vez em quando. Fico tão feliz, que enquanto ele corta laranja e assistimos ao filme antigo de gângster, cheio de crimes e drama, é numa onda de delicadez que tem colo, tem palavras arrastadas ao pé do ouvido, tem o romantismo lá do começo sendo resgatado aos pouquinhos, mais de ano depois. Meio dádiva, dá pra respirar aliviada: que bom.

De acariciar com jeitinho o peito desse amor tão ensurdecedor, quando resolve chiar no meio da noite. Passar a mão com leveza enquanto ele acalma a respiração conturbada - que a fase ruim por aqui já foi. Me ver apertada entre cócegas e os braços rijos que pegam peso e conseguem me levantar no colo em frente ao espelho pra gente rir (eu, que tenho quase 1m70cm de altura). De ir rindo ente o estacionamento e o cinema, e voltar sorrindo ainda mais quando acaba a sessão que ganhou a minha adoração, e da parte dele, o desapreço. De uma leveza quase livre na restauração disso que é tão bonito e que a gente sente um pelo outro. Ele me chama de mimo, tão dengosa insisto em ser porque além, de ser recíproco, é a melhor maneira que sei agir. Deve ser de um nojo enorme essa meiguice toda que a gente anda exibindo por aí. É de uma distinção agradável ver o quanto tudo pode andar bem quando a gente caminha. Claro, juntos.

13 Comentários:

  1. Lindo, que a fase boa chegue mesmo com tudo, com gosto de começo e maturidade de há muito juntos. E eu achei um mimo esse apelido mimo haha. Original, meigo e não-cafona, uma graça!

    Beijos, Camila.

    ResponderExcluir
  2. Liiindo Camila, como sempre! Parabéns :D Beijão

    ResponderExcluir
  3. "Ele me chama de mimo, tão dengosa insisto em ser porque além, de ser recíproco, é a melhor maneira que sei agir. Deve ser de um nojo enorme essa meiguice toda que a gente anda exibindo por aí. É de uma distinção agradável ver o quanto tudo pode andar bem quando a gente caminha. Claro, juntos." mais um, como todos, que me tocam e me fazem lembrar do lindo e sorrir. Perfeito, Camila! =)

    ResponderExcluir
  4. Ainn.. Tão lindo esse texto, mas tudo que eu n deveria ler..
    Tem qse 2 meses que meu namorado terminou comigo e eu n consigo me aguentar de tanta dor..
    Queria tanto poder tirar tudo isso q sinto no peito... Queria simplesmente, me acostumar com a ausência sem sentir dor alguma..

    ResponderExcluir
  5. ai que fofura ! Parabéns Camila, um outro ótimo texto.

    ResponderExcluir
  6. Suas palavras sempre tão lindas! E aproveito pra falar algo mais. Sabe?! Todo casal passa por fases ruins, assim como em toda nossa vida há algumas, infelizmente, fases difíceis, mas aqueles que conseguem passar e continuar juntos que valem a pena! Vocês valem a pena e que bom que passaram por esta fase de vcs, passaram e pronto! Mais unidos e mais felizes, e que assim seja pelo tempo em que fizerem bem um ao outro ao máximo - e que seja muito, desejo!

    ResponderExcluir
  7. que maravilha!
    Obrigada,
    Cris

    ResponderExcluir
  8. Assim é muito bom, o amor ausente de regras e amando sem aflição, sem o desespero. O amor também vai se fazendo e refazendo da pintura da desculpa, porque, afinal, não somos perfeitos. Ninguém neste mundo o é. Abraços.

    ResponderExcluir
  9. Ótimo texto, parabéns! To seguindo o blog, sempre venho dar uma olhadinha quando vejo que tem textos novos. Abraços.

    ResponderExcluir
  10. Lindo lindo!!
    E eu amo ler esses textos cheios desses sentimento tão bonito!
    Um Beijo Camila!

    ResponderExcluir
  11. E quem disse que é difícil escrever quando se está feliz?
    Muito melhor esse desafio, de escrever com palavras que sorriem o tempo todo.

    A melancolia não precisa ser pop. Não mais. Não aqui.

    Que bom né, Camila?

    ResponderExcluir
  12. Mandou muito bem, adorei o texto. Amor sempre faz beeem!! Beijoss

    ResponderExcluir
  13. Camila, tu contou a vida da minha diretora de redação aqui. Sério! Ela trabalha junto com o marido dela é o que acontece entre eles foi descrito no primeiro parágrafo, não sei o resto porque não sei das intimidas, mas suponho que seja o mesmo.

    Sabe quando você olha para um casal e pensa: "nossa, o amor realmente existe e ele está presente no meio dos dois"? É desse jeito que os vejo. É um amor sem fim, é tanta felicidade que às vezes eu fico com um pouco de inveja, confesso!

    Tantas pautas para apurar, tantos emails para serem encaminhados para o departamento comercial, tantas reportagens para serem redigidas e os dois ali, se abraçando e se beijando no meio de todos. NOSSA, O AMOR É INCRIVELMENTE INCRÍVEL. Rs.

    E sim, vou mostrar este texto para eles amanhã assim que chegar à redação!

    ResponderExcluir