Astronomia

7.01.2012 -


Esqueço rápido as maravilhas de horas atrás, a conversa despretensiosa sobre frutas e comidas favoritas, cenas de infância e sobre ser eu uma boa mãe ou não, Eurocopa, coisas banais e leves que combinam com um sábado cansado como foi o nosso. A culpa não é minha de tanto girar por entre os detalhes e os por vir aí, o medo da efemeridade dos relacionamentos - hoje, líquidos - e toda essa beleza que passa quando a gente se abraça e são recém 22h20. E não se larga, gruda pé no braço, espia pelo espelho o silêncio concentrado, ri do jeitinho (sempre tão unique) do outro, essas coisas de quem é apaixonado e ponto.

Só que eu penso demais, é isso. Dá um medo danado de acordar de manhã e ter um acidente, esses sumiços de vez em quando porque o dia é puxado e quase engole, de se perder e nunca mais se encontrar no abraço apertado onde me sinto tão e sempre em casa, aliviada, mais confortável num mundo que condena essa minha agitação autodestrutiva, algumas vezes em forma de impulsividade constante. Porque é nessas noites de fim de semana onde eu visto uma camisa largona e coloco meias brancas quentinhas, de pernas pro ar, que eu me permito uma autenticidade visitada apenas por quem conhece as constelações de pintinhas da minha barriga - e sabe apreciar.

E depois de amor declarado na surpresa, sono bom enquanto o a hiperatividade se fazia canalizada, escovar os dentes lado a lado, conversar antes de dormir e cair no sono, café da manhã com futebol na temática, leitura conjunta na sala e sol bom antes do almoço, é sair do carro e fechar o dedo na porta pro efeito Cinderela da minha paixão pensante compulsória começar. A falta que eu sinto só porque é domingo e tudo tem registro de quase quase perfeição começa. Assola. Minha paranoia começa a ter um efeito tão desgastante que nem mesmo a criadora - no caso, eu - aguento tanta loucura imaginativa. Às vezes o medo some, noutras vem em dose redobrada e sou sincera, digo logo, demora um pouco, a gente se acerta e passa: é fechar as pupilas e voltar pra calmaria de nós dois entrelaçados que o coração afina e os presságios voam como borboletas para fora dessa minha cabecinha já tão infestada. Assombrosa uma vida que não inclua o calção azul ou a calça molinha. Longe, eu sinto um temor de estimação que alimento com bobagens que não existem e são minúsculas se em combate a esse sentir tão bom, avivador, e completo que a gente sente.

Como é ótimo estar numa fase onde se entende tanto e conhece o outro como a palma da mão e os cantos do corpo, os sinais emitidos entre um olhar e o não-dito, sincronia que funciona de pensamentos e sentidos. Uma das mais maravilhosas fases, quase quinze meses de convívio direto: leveza, lazer, felicidade. Mas que ainda precisa de água, mimo e acalento diários porque quer ter certeza de que não é só sonho e de fato existe, faz raízes e um dia dá flor. Quer tanto mais dessa cumplicidade a dois, do tempo bem gasto juntos, do efeito sorriso imediato assim que se reencontram os olhos de cor praticamente igual, tranquilos. Por isso, reflito tanto e vasculho muito esse meu cérebro que não descansa quase nunca, tenho apreço pelo detalhismo e uma queda pela perfeição.

Reviso conversas, volto em momentos cruciais, checo bem minhas certezas e faço questão de baixar toda e qualquer expectativa.  Seja em praia, noite fresquinha, festa lotada, choro compulsivo e o abraço mais performático desse mundo, te encontro cheiroso desse perfume que gruda sempre nas minhas roupas e beberia de canudinho, de possível. Com a cara de levado, de sono, de mau - que o amor é por todas, todinhas. Assim em paz, novamente certa de que é de dias assim que a memória matéria prima, toda feita. Ainda bem.

11 Comentários:

  1. Felizmente, passo por algo semelhante no momento. Coisa igual não há! :)

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  2. Lindo demaaaaiiis! Amo a maneira como tu descreve detalhes que tem um valor imenso pra nós!

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  3. Que lindo Camila ! Acho que é que a melhor forma de tranquilidade que a gente pode ter. Mulher sem paranoia e exageros não é mulher, né?! haha
    Lindo lindo!

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  4. A parte destacada é tão eu. Adorei o texto. Beijos, boa semana!!

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  5. Texto lindo, Camila.. é tão bom passar por isso! :D
    "A parte destacada é tão eu." - igualmente.

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  6. porque é de paranoias, medos,perfumes,choros e sorrisos que nós amamos viver, bem assim, juntinho. o texto inteiro é tão eu. Parabéns, lindo texto (como sempre).

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  7. "Às vezes o medo some, noutras vem em dose redobrada e sou sincera, digo logo, demora um pouco, a gente se acerta e passa."

    E hoje a insegurança bateu e deu lugar às caramilholas. Teu texto tem tudo de mim. Gosto tanto! :)

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  8. Muuuuito igual a mim, como pode? Perfeito, Camila!

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  9. Texto lindo!
    Nunca foi tão perfeito o nome dos "comentários" ser "suspiros" ! haha

    Bejios!

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  10. Camila!

    Entre vários textos que se acha por ai sempre bom encontrar um com essa positividade que tu transmiti como ninguém, positividade essa que faz mesmo quem não esta passando por uma fase apaixonada ter esperanças de logo logo passar!
    Mas o que me chamou mesmo a atenção foi ’’reflito tanto e vasculho muito esse meu cérebro que não descansa quase nunca, tenho apreço pelo detalhismo e uma queda pela perfeição. ’’
    Ótimo! Às vezes tenho a impressão de que meu cérebro realmente não para nunca e de que não deixa nenhum detalhe passar, embora haja alguns que eu gostaria que passasse por ele assim meio despercebido..

    Amei o texto, parabéns!

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  11. Lindo texto Camila, quase chorei,tenho 1 ano e 7 meses, e acredite sinto esse sufoco quando se esta longe, a constante preocupação, a constante espera das horas que viram no final de semana, chega a segunda-feira do tchau e não passados 5 minutos longe já vem a ideia da rápida visita da quarta que passa num piscar de olhos(só o sono),e a longa espera da sexta,que passa tão rápido ao domingo como se fossem segundos, menos que segundos.e o coração, constante preocupação, que o sonho acabe, mesmo sabendo que já não é mais sonho, mesmo sabem que vieram muitas tempestades e que nada de fora abalou o que foi construído por dentro dos dois, que o amor, o verdadeiro, nada abala, é conforto, é segurança, é um simples abraço no qual se pode sentir protegida de tudo.(pronto chorei, sou assim emotiva ao extremo, até de mais, muita água, muito açúcar e pouco sal). Bom resumindo, lindo texto, adorável diria.Que consigas levar a diante esse sentimento lindo

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