Apneia

7.23.2012 -

Meu sono é de uma leveza capaz de ser interrompido com pluma, suspiro; os pingos de um subconsciente de sonhos doidos, assustadores, sem cabeça, nem pé e muito menos lógica. Suo enrolada nas três camadas de cobertas e lençol; passo frio quando faço a escolha burra de colocar os braços pra fora no meio da noite, atrás de uma temperatura ideal imediata. Deito de bruços, viro de lado, puxo o cobertor, dobro a finura do travesseiro em dois, fricciono os pés freneticamente um no outro, na superfície da cama, olho pro teto: adormeço em letargia, quase dopada de um sono que me atinge em badaladas, embalos, doses irregulares.

Até que, 5h32 ou 3h47 assim como talvez 1h08, chia baixinho, mas é o começo do desconcerto. Caia uma bomba ou dez não tão perto quanto a respiração dificultosa de alguns centímetros - eu não escutaria, eu sei. Desproposital, desconcerta os carneirinhos já contados da novela que é quase sempre adormecer. Nem sempre ritmada, cada vez mais alta, a apineia de narinas interrompidas no começo ganhava sacodidas meio sem noção e palavras que não adiantavam lá muita coisa. Nessa parte em que entrou sei-lá-eu-como na história o afago da minha mão calorosa pincelado no peito incessante. Meio em círculos, com destreza e uma delicadeza também extrema, o silêncio a reinar novamente no quarto escuro, iluminado senão pouquíssimo pelas frestas de dia nascendo lá fora.

Mais eficiente que Vick VapoRub, um zilhão de agasalhos, essas curas caseiras pra que o ronco vá embora com pressa e sem despedida: um carinho na zona que abriga costelas, coração, veias, pulmão, e pronto. Descobri meio alheia a tática infalível para a paz noturna voltar ao trono em questão de minutos. Uma dança dos dedos pelo território respiratório é capaz de acalmar a britadeira de quem nem ao menos imagina a potência da máquina que possui. Com graça, me permito sentir feito heroína da própria sonolência. Feito mágica, descobridora da melhor e mais rápida profilaxia capaz de fazer desistir do trator otorrinolaringologista que devasta a lisergia intangíveis dos meus sonhos noturnos - inverossímeis os de olhos abertos, sei eu.

Ele, que nem sente, profundo o dormir, ficou um tanto quanto surpreso e descrente de, desperta, mesmo que meio sonolenta, repetir a massagem cardíaca mais sutil do planeja pra ver se reanimo a versão suspirosa do meu bem. Eu, que no meio, fim, fração dessas horas que a gente reserva pra descansar numa só tacada corpo e mente faço por instinto, zelo, cura o que conforme funciona: passeio as digitais pelo lóbulo da orelha, uma parte do pescoço, ameigo as pulsações cardíacas às vezes aceleradas, noutras tímidas, quase sempre reconfortantes. Quase uma troca: faz ele pros meus pesadelos cabana, caverna escura, escudo nos dois braços que melhor acolhem os meus medos injustificados, enquanto eu imprimo esboços bonitos no mural fechado às sete chaves, sob dois portões e uma ponte.

4 Comentários:

  1. Muito lindo! E como sempre me vejo no texto. Parabéns, viu?!

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  2. Sabe aquele texto gosto de se ler? Que vai montando na cabeça as cenas descritas? Exatamente assim que eu me sinto lendo esse teu texto :)
    Adorei Camila!

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  3. E você tem um tempero raro em seus textos. Quem lê em primeiro lugar se reconhece em algum lugar do texto, depois se põe a imaginar a cena descrita com carinho e depois ficar com aquela vontade incontrolável de ler o texto. Esse seu tempero é raro e dá todo sabor ao seu texto simplesmente maravilhoso te ler. Parabéns, não tem como não seguir...

    www.eraoutravezamor.blogspot.com

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