Laura, a sobrinha do Caio F.

6.06.2012 -

Uma bebê Laura com a família Abreu e seu charmoso tio de branco, Caio (arquivo pessoal)


Apaixonada por literatura, há pouco mais de um ano li o livro “Para sempre teu, Caio F.”, onde Paula Dip reúne cartas, depoimentos e muito amor para retratar um dos escritores mais queridos do Brasil de então, Caio Fernando Abreu. Decorrido entre as décadas de 70, 80 e 90, me chama a atenção, em específico a parte que retorna para a casa, no fim de sua vida. Convive com seus sobrinhos - que, pelo que calculei, tinham mais ou menos a minha idade.

Era, já então, um Caio amadurecido: desenhava com as crianças, cuidava do seu jardim na casa do bairro Menino Deus, andava Porto Alegre de bicicleta e cuidava da aids recém descoberta. Retornara para seu porto seguro: o colo dos pais, o aconchego da família, a cidade de onde fugiu e para onde retornou, se não me engano em 1994.

E me chamou atenção Laura. Caio a citava muito em suas cartas para a jornalista, comprava brinquedos e lembranças em suas viagens, enviava postais e fazia o mapa da vida de uma menininha de pouquíssimos anos de idade. O tio Caio parecia coruja e tanto - doce, quando a ocasião pedia; e que criança não pede?

Curiosa, e estudante de Jornalismo, eu e minha mãe procuramos até encontrar pelas redes sociais, a então jovem sobrinha de Caio F. Encontramos. Laura de Abreu Cabral tem 23 anos, é gaúcha mas vive hoje no interior de São Paulo, simpaticíssima, muito bonita, mãe da muito fofa Duda. Também amante do Menino Deus cantado por Caetano (assim como o tio), e admiradora de sua obra, convidei laura a falar um pouco de suas lembranças, sentimentos e opiniões que envolvem a grandiosidade que as redes sociais deram à obra de Caio Fernando Abreu, como recorda dele in persona e como lidam com o parentesco amigos e conhecidos.


Hoje, rolam pela internet frases soltas da autoria de Caio, assim como algumas que nem mesmo são de sua autoria. Há uma banalização quanto a obra dele, concorda? Como você vê todo esse boom que a internet possibilitou e, ao mesmo tempo, trouxe amadores e odiadores – que em sua maioria nem ao menos conhecem seu trabalho – de CFA?

Infelizmente, no Brasil as pessoas não tem o hábito de ler acho que com o surgimento das redes sociais as pessoas passaram a conhecer mais o trabalho não só dele mas como de muitos autores. Como tudo tem seu outro lado, claro que existem muitas coisas que não são da autoria do Caio e fica muito difícil de saber se é ou não. Gosto de ler alguns blogs que postam trechos dele mas, que indicam de onde foram tirados, acho bem legal essa preocupação.

Caio faleceu há 16 anos e hoje, tem sua literatura mais viva que nunca. Você se identifica com o que ele escreveu? Acredita que ele deixou algum legado, mensagem, lição para todos nós?

Primeiro: eu tenho muito orgulho da obra que ele deixou. Hoje em dia que entendo melhor o que ele queria dizer, me identifico, sim, com muitas coisas que ele escrevia. Acredito que qualquer pessoa que já amou se identifique. Quem nunca amou? Quem nunca sofreu por amor?
Eu ouvi em um documentário que fizeram dele uma vez, que ele disse assim "a vida não precisa ser longa, a vida precisa ser boa". Acho que essa é a melhor lição que ele pode ter deixado, não importa o que tu faça, sempre tem o amanhã e que realmente tudo na vida passa.

Quantos anos você tinha quando seu tio veio a falecer? Lembra de algo da época?

Quando meu tio Caio morreu, eu tinha 7 anos. Não lembro da época em que ele morreu, mas recordo exatamente do dia. Era domingo acho, eu e meu irmão entramos em casa fazendo corrida de quem chegaria primeiro no quarto. O telefone toca e minha mãe já chora, ao receber a notícia. Depois, lembro da minha avó doente e falecendo, e logo depois meu avô. Lembro que sofri muito, que durante um ano rezei todos os dias pra que no próximo natal eles estivessem juntos com a gente, e acho que de certa forma fui atendida. Gosto de pensar que sim. Até hoje sinto às vezes o cheiro do meu avô, uma mistura de jasmim com o perfume dele..

Qual a lembrança mais marcante da convivência com seu tio que conserva viva?

Lembro de poucos momentos, inclusive porque ele viajava muito. Lembro dele cuidando do jardim de casa. Ele me ensinou a conversar com as flores, dizia que elas nos ouviriam. Tinha a máquina de escrever vermelha também, como eu adorava brincar naquilo (se mostrar pra minha filha hoje acho que ela ri de mim hahaha). Nas poucas recordações que tenho dele, era uma pessoa doce, mas também, afiado. Teve um dia em que estávamos almoçando e acho que fiz desaforo pra minha mãe, não lembro bem. Sei que ele não aceitou e ficou tão brabo que minha mãe resolveu me pegar e fomos embora. Hoje, mais velha, acho que dá para o definir como chocolate com pimenta, sabe: sensível e doce, mas ao mesmo tempo forte.


Em cartas à amiga Paula Dip, Caio comenta que, ao retornar já enfermo para Porto Alegre, gostava muito de passar horas com você e os outros sobrinhos pintando, desenhando, lendo história. Recorda disso? Se sim, como era?

Lembro sim, uma das fortes memórias que tenho são esses desenhos. Adorava quando ele desenhava comigo. Lembro que eram sempre mulheres, acho até que foi por isso que quando era criança sonhava em ser estilista. Sempre que ele retornava de viagens me trazia uma boneca de porcelana do lugar em que estava, além dos postais que mandava. Gostava muito do quarto dele (e que depois que ele faleceu e nos mudamos para casa da minha avó, passou a ser meu). Era um quarto todo místico, sempre com incenso aceso. Ele era todo espiritualizado, astrólogo, tinha cartas e runas que também herdei - isso puxei a ele acredito muito em horóscopos e significados dos sonhos.


Seus amigos e conhecidos sabem do parentesco? Se sim, comentam contigo algo sobre o que escreveu, a fama que cresce pelo boca a boca das mídias sociais ou algo do tipo?

Meus amigos mais próximos sabem quem ele é, até porque sempre tivemos fotos dele pela casa. Outro dia, conversando com uma amiga, ela disse que se ele estivesse vivo iriamos todas pedir conselhos amorosos pra ele, ele sentado na cama e nós todas sentadas no chão... Eu já acho que ele nos mandaria por um vestido curto e ir pra festa esquecer de tudo, acho mais a cara dele (risos). Lembro da primeira vez que li no Orkut uma conhecida postando uma frase dele. Nossa, não acreditei, fiquei bobíssima na hora. Fui falar pra menina que era meu tio. Hoje já é todo dia alguém postando, acho super engraçado aquele aplicativo "Conselhos de Caio F".


Você é gaúcha, viveu alguns anos na capital do RS, mas hoje mora no interior de SP. Seu tio perambulou por diversas cidades e países, mas teve em Porto Alegre o seu porto seguro. Adorava o bairro Menino Deus. Tem algum sentimento parecido em relação à cidade?

Vivi e cresci no Menino Deus. Não sou "viajada" como tio Caio era, mas penso como ele: esse bairro é meu porto seguro. Não sei do amanhã, hoje estou no interior de São Paulo, mas daqui há três anos posso estar em qualquer parte do mundo. É um bairro muito aconchegante, todas as lembranças da minha infância se passaram lá - desde jogar vôlei na rua com minhas amigas e andar de bicicleta pelo bairro. Para mim, era uma mini-cidade porque minha escola era no Menino Deus, minha academia era lá, depois quatro dos lugares onde trabalhei eram lá, a escola da minha filha era na rua de casa, tinha o shopping Praia de Belas pertinho, o Marinha com o pôr-do-sol mais lindo que eu já vi, e o estádio Olímpico. Pra que eu precisaria sair de lá? Lugar perfeito. Todas as vezes que vou a Porto Alegre, seja pra passar um final de semana ou pra passar um mês, passo na frente da minha antiga casa e sempre choro (como agora, são muitas lembranças boas). Minha vida esta lá.




15 Comentários:

  1. Chorei aqui lendo de tão lindo tudo o que tá escrito, imagino o Caio bem assim. Feliz da Laura que teve um tio tão sensível e que sabia muito bem expressar tudo isso nas palavras. Perfeito!

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  2. Quem leu o livro sabe bem e sente tudo o que ela falou....

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  3. Que lindo presente nos deu Camila! rs
    É emocionante mesmo, lindo!
    "sensível e doce: mas ao mesmo tempo forte"

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  4. Que lindo Camila.. emocionante mesmo. Que honra pra tu..
    Poderia investir mais nessa entrevista, quem sabe até gravar uma entrevista em vídeo e postar para nós. Fiquei curiosíssima, para conhecer essa privilegiada. por que ser sobrinha de Caio é um privilégio né?!!

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  5. Adorei a entrevista, Camila! Parabéns pelo grande presente que deu a nós, leitores as) e grandes admiradores(as) do Caio.

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  6. Bela entrevista, Camila!

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  7. Adorei a entrevista, flor! Objetiva, mas emocionante, dotada de lembranças e bons sentimentos. Que as pessoas se encantem (tanto pelos teus textos, quanto pela linda obra do Caio). Parabéns pra ti!

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  8. Adorei a entrevista, é clara a doçura de Caio e também seu jeito ácido de ver o mundo, diria mais que esse é o jeito mais honesto de ver o mundo fora da caixa, espero que a sobrinha dele tenha boas lembranças e as guarde com carinho, pois nunca existirá outro como Caio Fernando Abreu.

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  9. Achei ótima a entrevista guria, Laura era apenas uma menina quando seu tio faleceu, mas dá pra notar que as lembranças mesmo que poucos são fortes :)
    Parabéns pela tua atitude de procurar por ela, saciar esse teu instinto de jornalista e de quebra nos dar essa entrevista. Beijão guria

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  10. Amei a entrevista, Camila! A Laura é uma mulher muito sortuda por ser sobrinha de um dos melhores escritores desse país. :D

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  11. Que lindo, adorei as entrevistas e as palavras dela. Muito legal mesmo. Beijos!

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  12. Caio é um fofo e entende todo mundo. :-) Não vou ser careta em dizer que conheço a abra do Caio desde minha infância ou há muito, mas posso dizer com toda a certeza que a escrita dela ajuda muita gente. A cada frase, texto, livro que leio vou entendo a mente dele, se é que isso é possível. Rs.

    A entrevista estava ótima, só que quando eu cheguei no final fiquei triste. Eu quero mais. :'(

    Sei que é ilegal baixar livros, mas o que eu vou fazer se não encontro em bibliotecas ou livrarias pra comprar os livros? http://caiofernandoabreu.wordpress.com/livros/ Aqui tem várias obras dele, foi através desse site que conheci Caio.

    Bjs!

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  13. Camila, achei seu blog por um acaso e estou encantada. Meu nome também é Camila, também faço jornalismo e sou louca, apaixonada por Caio Fernando de Abreu. Mostrei seu blog para várias amigas e é incrível a coincidência que temos..
    Parabéns pelo seu trabalho!

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  14. Amei a entrevista, amei a iniciativa!

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  15. Baita ideia essa entrevista! Incrível invadir pedacinhos assim, essas lembranças que ela guarda são mágicas. Detalhes do quarto, dos desenhos, lembrança de um almoço qualquer.. Essas pequenas coisas que a gente guarda, quase como flashs dos que se foram quando éramos pequenas, se tornam relíquias, geradoras de sorrisos ao passarem pela memória. O espaço-tempo em que ocorreram, o motivo, nada importa. É o sentir. E então, se tratando de Caio F.! Como tantas, conheci pelas frases soltas na internet, mas do mesmo modo como fiz com Lispector, hoje também com Carpinejar, larguei. Larguei daqui e fui pra biblioteca, saciar por inteiro minha sede - conferir o que era de autoria dos mesmos, ou n. Nada como ter um livro em mãos, contextualizar trechos, encontrar outros pouco citados e igualmente fascinantes. Enfim, me prolonguei demais no comentário já, hehe. Mas deixo a dica: honrem os grandes escritores, peguem emprestado, comprem, mas leiam direto na fonte. Quando o da Camila vier, mais um grande nome pra minha lista. Mais uma vez, parabéns pra entrevistadora e entrevistada!(:

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