Os dodóis

6.15.2012 -

Quando eu era pequena, lembro que antes de dormir precisava sempre de uma histórinha pra embalar o sono. E o abajur ligado. Vez ou outra, interrompia o pai ou a mãe, ou o vô ou a vó e dizia: olha, tem um dodói ali. Dodói na verdade era o reflexo da luz que batia na parede e formava quase sempre ou um ovo, uma bolinha, alguma forma que parecia um machucado no concreto pintado. E sumia. Dodóis hoje são pra mim todos os homens quando adoecem: quase morrem, esfalecem no sofá e clamam a dor, murmúrios no lugar da fala, pilhas de roupas, chinelos felpudos e todas essas coisas que os fazem parecer de novo criancinha como era eu quando acreditava que os muros da minha casa tinham alguma doença e como passava rápido na manhã seguinte.

Porque são assim os homens doentes: praticamente param a vida. A gente vai lá, toma um remédio, outro, dois, e segue o baile do dia: trabalho, terapia, faculdade, depilação, trânsito, às vezes filhos, janta, limpeza, compras e tudo bem; descansamos o corpo de noite, que estará podre e se obriga a melhorar para ter saúde já no outro dia. A voz pode estar rouca, a febre, altíssima: não diminuímos o ritmo. Queremos colo, sim. Nos cuidem, enlacem quentinhos, mimem com mãos passando entre as mechas do cabelo e comprimidos dados antes do jantar.

Igual, ainda assim, nada se compara à enfermidade masculina: quase faltam o trabalho, se preciso. Nos desejam como enfermeiras ao pé da cama - sabe se lá se numa fantasia de serem bem tratados quando não conseguem carregar em si a culpa por não ser super herói por um único dia (e são em quase todos). Precisam de horas e horas de sono, quem tire a febre, faça comidinha, e permita que voltem à infância por um curto período que seja, tapados até a cabeça, pézinhos com meia e com a gente sentadas na cama esperando que coloquem a capa de volta e voem pra salvar a parte do nosso mundo que ficou meio em slow motion durante o período de doença.

Nessas épocas mais geladas, outono agora e inverno mais tarde é que os dodóis aparecem: feito aqueles que iluminavam os quatro cantos do meu quarto de menina. Rasteiros, chamativos, aclamadores, sem ter como ignorar. Mas passageiros. E confesso: que até certo ponto, gostamos de dar carinho e fazer massagem, remediar, fazer compressa, indicar médico e todas essas coisas porque salvar de vez em quando acaba sendo bom também; se sentir útil é um mar de rosas, e médica de plantão, ou qualquer que seja a denominação desses caras tão fortes pra matar barata, abrir pote de vidro, subir em telhado e arrumar eletrônicos, porém frágeis quando doentinhos, vale quase por salvar uma cidade do grande vilão desses tempos: que a indiferença, já à solta, permaneça longe dos poros que nos fazem transpirar de tanto amor e compaixão.

2 Comentários:

  1. Pura verdade. Eles se tornam crianças quando ficam doentes, mas isso deixa eles tão fofos pedindo atenção e carinho. Adorei!

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  2. Muito ouvi essa história, mãe sempre dizia que o pai ficava assim. Cada um foi pra um lado, mas eu presenciei outras gripes e afins e posso dizer..sim, mãe, você estava certa, a Camila te entende. hahaha

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