O anjinho mais trabalhador de todo o céu

6.27.2012 -

Era segunda-feira, mas poderia ter sido hoje. Aula antes de horário, numa combinação de companhia e distração. Ônibus vazio, tempo recorde, leveza nos passos. Momentos de solidão: esperar a amiga, abrir o computador, a foto compartilhada. Legenda confusa. Mãe, atende. Alô, mãe? O vô morreu? Tu tu tu... (tão óbvio que a bateria do celular acabaria nesse minuto, assim como a incomunicação seria monstra entre um não saber nervoso que me deixou manchada de vermelho na cara, mais ativa que de costume, e a ficha que se recusava a cair. Vem pra casa, disse a confirmação de que ainda insiste no que está acontecendo, se é isso mesmo, agora? Sem aviso nem despedida, num desses horários em que o rush come nosso dia com tanto caos que fica difícil perceber, falei com professor, esperei a lotação, voltei pra casa. Em prantos. Foi só o começo, mas a primeira das minhas mais brilhantes estrelinhas inaugurou no mural de quem agora olha por mim, lá de cima. Papai do céu deveria estar precisando de um ajudante desses trabalhadores, com cabelo de algodão e uma sabedoria tão grande para inspirar os mais novos. Repousa com a natureza e a simplicidade de sempre, num lugar melhor que a poluição, sujeira, maus hábitos do mundo terreno daqui desconhecem. Ainda bem.

Por alguns meses, toda manhã, acordava com um humor que fugia dos melhores e ia clareando ao longo do dia. Magro, alto, saudável, cuidadoso, dizia: juízo, menina. Tem que estudar, filha. Força, Camila. E apertava com força o meu rosto, dava tapinhas carinhosos nas costas, saia para caminhar e mesmo na grandeza da sua idade, não largava o que - com afinco - tudo conseguiu. Voltava para o almoço, retornava para as lojas, e no alto dos seus 78 anos continuava a se envolver nos percalços de uma vida em que o comércio, a sapataria, malas e bolsas proporcionaram: quase nunca fácil, mas recompensadora. Chegou de uma Portugal devastada pela Segunda Guerra Mundial. Fugiu com a mulher para o Rio Grande do Sul. Teve cinco filhos (todos homens). E no trabalho, a sua dedicação maior, a paixão de se entregar sem receios. E, enquanto bem e perambulando pelo Centro da capital gaúcha pra lá e pra cá, ensinou que quando se batalha por algo, alguma hora consegue. O esforço é a maior recompensa. Que todas aquelas coisas que a gente não dava muito valor não, como ensino e afinco de sobra, e que são bem mais importantes do que nossa imaginação juvenil calculava.

Lembro de um avô que pulava ondas, lia gibis, respondia com sotaque português e gostava muito de aconselhar, sempre que podia. Raramente dava mijada, era bonzinho como devem ser os avôs: com uma doçura que não se pode e quase não se vê nos pais. Liberdade maior também para compreensão, acertos e erros de quem ainda é novo e muito tem pra aprender nessa vida. Mas já é quarta-feira, e a saudade anda grande. Pela primeira vez, me vesti de cores sóbrias e aguentei o tranco de estar reunida para compartilhar uma perda. Levei flores, chorei debaixo do óculos escuro, levei o golpe da esperança dos 45 do segundo tempo, daqueles 3% que se recusam sempre a morrer porque a gente tá aqui, vivo e bem, e de repente em 20 minutos tudo pode mudar, tão escorregadias nos são as rédeas de destino algum. Faz pouco, mas a saudade já é uma constante - eterna. Daquela última despedida onde vi a felicidade no olhar vivo que sonhava viver num sítio, longe da correria da cidade, dessa terra onde veio, venceu e se foi. Um pouco pai, exemplo pra vida, agora anjinho e também estrela: vencedor.

12 Comentários:

  1. Sei que temos muito em comum, e como você até poucos dias ainda não perdi ninguém que me é tão importante! E ao passar por cada linha as lagrimas foram me acompanhando!
    Espero que fique bem e saiba administrar a saudade que vai bater e machucar ao longo dos dias, mas sei que é forte!
    E como você mesmo disse seu vôzinho está em lugar bem melhor!
    Te desejo força e te mando carinho!
    Beijo

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  2. Que lindo Camila! Perdi meu avô materno muito nova, tinha meus 8 anos, me emocionei muito com seu texto, nossos avôs eram parecidos!
    Senti muito a perda pois era o único avô presente que eu tinha, minha avó materna faleceu quado minha mãe era pequena e meus avós paternos são separados e não fazem a mínima para os netos. É difícil lidar com perdas, difícil saber que eles não estarão de corpo presente quando nós precisarmos. Mas a gente sabe que mesmo assim, estão presentes de alma porque nem fisicamente longe eles não nos deixam. Nossos gerreiros!

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. Que belo texto, Camila. Já perdi meus avôs paternos para o maldito cancêr, e mesmo não sendo muito apegada, doeu bastante. Passamos por uma fase bem dolorosa de luto e revolta, depois a vida segue e só fica a saudade. Seja forte, e reze bastante pela alma dele, que certamente está num lugar melor que nós. Beijos!

    PS: apaguei o outro comentário porque me expressei de forma errada no início, hehe.

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  5. Ai queridona, nem preciso falar o quanto me emocionei não é?
    Sei muito bem o quanto dói essa despedida, e a imensidão que se torna a saudade, o vazio que habita onde antes vivia uma pessoa querida, importante e insubstituível.
    Não conheci nenhum dos meus dois avôs, ambos faleceram antes mesmo dos meus pais se conhecerem, e a vó paterna se foi quando estava no auge dos meus cinco aninhos, criança, não sofri, não entendia a dor, a morte.
    Há cinco anos, meu mundo desabou. Desabou mesmo, como se um tsumani gigante estivesse chegado do nada e destruído tudo que via pela frente, deixando só tristeza, desolação.
    Eu vi minha avó materna, a única a quem atendia quando eu gritava vovó, se machucar muito em um acidente, sofrer por dois dias num CTI e ir embora, do nada.
    Despedi dela, como fazia diariamente na hora do almoço e em uma hora, tudo aconteceu... a pessoa que mais me dedicava afeto, carinho estava numa maca, coberta de sangue, precisando de ajuda e eu nada poderia fazer, a não ser rezar..
    Papai do Céu achou melhor tê-la perto dele, por isso a levou.
    Hoje ela é a estrela que mais brilha no céu, é um raio do sol que me acorda pela manhã, é a brisa que toca meu rosto carinhosamente...
    Nós precisamos de pessoas incríveis conosco, pessoas de bons corações, bom caráter, que nos ensine, nos ouça... Mas Papai do Céu precisa delas ainda mais, por isso as chama.
    Vezenquando sonho com ela... ela vem matar minha saudade, não diz nada, mas eu sinto que é ela me acalmando!
    A dor aos poucos se aquieta, vira saudade, saudade, saudade cada vez maior... Acredito que a saudade aumenta a cada segundo que passa, porque lá na frente, quando todos se encontrarem o abraço de reencontro será tão intenso quanto essa falta que hoje nos assola.
    Receba meu abraço de carinho Camila! Que Deus conforte os seus corações e que seu avô, seu anjinho, te proteja sempre, ainda mais!
    Fica bem, se cuida! Beijão!

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  6. Total identificação!!!! Senti até a presença do meu vozinho que tbm se foi!!!!

    Lindas Palavras!!!!!

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  7. Em uma sequência dolorosa, se foi um avô, uma avó e outro avô. Eu e meus 12, 13 e 14 anos. O tão falado 15 anos não fez sentido nenhum pra mim. Era sonho de minha avó, ver os 15 das 3 netas - eu seria a primeira.
    Doeu, dói e ainda vai doer muito. Senti, sinto e ainda sentirei muita saudade. O consolo é esse mesmo, eles estão num lugar onde podem estar felizes. Quem sabe até se encontrem por lá e se orgulhem das meninas que aqui estão herdando genética e personalidade. O que deixaram pra nós, o exemplo, renasce dia após dia, em nós. A garra, a vontade de vencer. Não me aprofundarei nos sentimentos por eles, tantos anos depois e até consigo falar sobre, "tranquilamente", mas o pensamento n me sai da cabeça por horas, dias depois..Talvez ainda n esteja pronta, talvez nunca fique. Racionalmente, entendo e aceito. Meu coração, aos gritos, não. Portanto, sequer dizer palavras de 'força' sei. Sabes o que sente e com isso, quem pode lidar é somente tu. Sinta o apoio, o carinho dos que te cercam - perto ou longe. Stay strong, Camila.

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  8. ai guria, chorei horrores!
    perdi meu vô quando era criança ainda :(
    mas enfim...
    não tem palavras que vão diminuir a tua dor, mas eu juro que um dia a gnt aprende a viver com ele só no coração, pq pode ter certeza que ele sempre vai tá contigo!
    fica bem, e muita luz, pra ti e teu vô (:

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  9. Me emocionei! Lindo texto!

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  10. Chorei ao ler seu post pq no lugar do seu avô, eu tinha um tio com cabelos de algodão :~

    Força, a dor nunca passa... Mas um dia a gente aprende a conviver com ela, deixa de doer e passa a latejar, daí já não incomoda tanto assim :(

    Lindo o blog, adorei.

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  11. Impressiona a sua força ao escrever sobre uma coisa tão amedrontadora, que nos faz de bobos nos atando as mãos ao aparecer - a morte. A perda é eterna, a dor não. A saudade permanece, juntamente com a boa lembrança. Muita força para passar por isso, Camila. Nenhum de nós sabe, ainda, lidar com coisa tão grande e forte. Mas uma coisa se pode fazer: tentar.

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  12. Conseguiste expressar uma dor que falta não caber dentro de nós..
    Simplesmente sem palavras.
    FORÇA.
    A dor é inevitável e a saudade é eterna. :(

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