Rosa

5.23.2012 -

Eu tenho uma avó que se chama Rosa. Casada com um avô que foi batizado como Lyrio. Verdade, verdade que da união dessas duas flores, brotou minha mãe. Depois eu, e meus dois irmãos, mas daí eu já perco o fio da meada e a história se torna em outras mil. O fato é que minha avó, a com nome de cor e cheiro de flor, descobriu há alguns poucos meses que está com câncer de mama. Triste para quem vive longe dos recursos da cidade e sempre levou a vida simples de interior, sim. Eu, cosmopolita e enjoada em toda e qualquer viagem que me peçam para ficar longe da cidade por tempo demais - e que me exigem uma paz que praticamente inexiste - convivo com o casal florido pouquíssimo. Em viagens esporádicas deles para a cidade (que detestam e permanecem menos de um dia), em raros passeios meus até a minúscula Casca onde vivem.

Sou uma das pessoas que conheço com mais medo desse boom desenfreado, enfraquecedor e ainda sem cura que é o câncer. Só de pensar na hipótese de me ver careca em frente a um espelho arrepiam os pelos loiros todos do braço. Trauma da Camila de Laços de Família, eu acho. Nome homônimo ao meu, loira, e que eu no alto dos meus nove anos vi passar máquina zero às lágrimas, ao som de Love by Grace, da extinta Lara Fabian. Era leucemia, mas tudo bem: meu olhar suporta pouco demais assistir qualquer denegridão corporal, matanças, sangue em excesso, e também o sumiços de um couro cabeludo vazio. Até mesmo em homens. Enfim, minha avó Rosa, que é a que menos convivo e não a com quem vivi até dias atrás, está enlaçada nessa enfermidade que vai captando escolhidas sem o menor critério por aí para perder um seio, se ver sem vaidades, doença cor-de-rosa essa. Da cor da minha paz: rósea, só que bem clarinha.

Escrevi isso tudo porque a ideia já tomava a minha mente de vez em quando há algum tempo. A vergonha na cara veio apenas hoje. Sempre que penso no assunto uma tristezinha aguda espreme a minha consciência, acho que porque ainda não tive coragem de fazer uma visita - assim como minha avó é teimosa e preferiu se tratar no interior, eu desejo muito mais reluto sempre que surge a oportunidade de ir até lá. E agora que o assunto está de certa forma "público", eu sei que vou ir, porque o incentivo vai ser grande (coisa que eu já deveria ter feito, sim, verdade).

O fato é que, há algumas semanas, me apalpei pela primeira vez, no chamado auto-exame. Minha paranoia achou um carocinho minúsculo, meu namorado não achou nada (e eu não tenho vergonha de falar nada disso. Toquem-se, pelo amor de deus, e ainda mais se houver casos na família. Se tiver um namorado, ou alguém em quem confiem, tirem a dúvida caso ela existe). Hoje, eu com um dos meus vários sutiãs da cor do nome da minha vózinha mais nova, tive essa epifania toda no consultório da ginecologista. Que me receitou mamografia, mesmo novinha, com 20 anos de idade então. Mas me garantiu que, num primeiro contato está tudo ok com meu par de seios tamanho 44. Paz colorida na cidade urbana, tempo róseo cinzento pros lados interioranos: onde a juventude não é a vez, eu preciso fazer visita. E ainda vou.

10 Comentários:

  1. Me emocionei muito Camila, muito mesmo.
    Tenho uma tia que está se tratando há algum tempo, ficou sem cabelos, tomou posse dos lenços e ainda assim, continuava linda com aquele par de olhos azuis, cintilantes.
    Sabe, nunca fiz exame nenhum do tipo sozinha, só no medico mesmo, acho que é comodismo, ou aquela ideia: "nunca vai acontecer comigo", mas o fato é que você me fez pensar nisso..conheço outra tia torta, mas amada como tal (porque é tia do noivo). que tem um tipo raro dessa doença, e agora acordei, que essa doença sem escrúpulos e de cura complicada está por aí, perto.. E só nos resta um auto exame, pra início de conversa.

    Achei lindo esse texto, lindo.
    Um dos preferidos até agora, topo da lista.
    Pela sinceridade tão aguçada em retratar um caso tão íntimo.

    Se cuide menina, e parabéns!
    Beijos

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    1. Ué, achei que já tinha respondido aqui, será que sumiu? Bom, Aninha. Sabe, acho que Deus dá a nós o tamanho daquilo que conseguimos suportar. Ninguém está livre de uma doença dessas. É complicado, as pessoas interpretam a nossa falta de tato com insensibilidade. Mas tudo que eu sinto sobre, está escrito aí. Obrigada por se emocionar tanto, e me emocionar também com o comentário. Beijocas!

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  2. Que Deus abençoe sua avó e que tudo isso passe, o mais breve possível. Deus sabe o que faz, mesmo que tenhamos que "sofrer" para aprendermos alguma coisa!
    Enfim... Muito bom seu texto, sua coragem de vim aqui expor sua vida assim, não com o propósito de "aparecer", mas sim com a intensão de alertar e ajudar. Porque é muito "fácil" ver na televisão ou a vizinha contar que conhece uma prima de uma amiga dela que tem... Mas sentir na pele é completamente diferente. E o "pior" é que todos somos vulneráveis a isso.

    Te cuida! Beijão!

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    1. Verdade: somos todos vulneráveis, mesmo. Mas acontece, né. Acho que escrever me fez refletir mais sobre o tema, não sei, ajudou. Compartilhar com vocês o que eu sinto já se tornou um ritual. Obrigada pela força, guria! Beijocas

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  3. Que sensibilidade Camila. De fato não é nem nunca será tão fácil lhe dar com um tipo de doença como essa, que mesmo nos tempos de hoje, com a Medicina e seus métodos preventivos, ainda mata ou mutila, muitas mulheres. Mas com fé, sua avó Rosa terá sucesso no tratamento e agora mais do que nunca, mesmo distantes, faça-se presente. Faça com que ela se sinta mais querida e agraciada e que num momento chato como esse ela possa contar com sua alegria e destreza jovial, dando animo para que ela continue no tratamento e se fortaleça com isso. E super válido voce ter dado o passo do auto toque e mostrar isso as demais meninas por aqui. De fato é super importante se cuidar, mesmo precocemente e tendo casos na família,sempre bom se cuidar. Que sua vózinha Rosa fique boa logo, com fé em Deus.

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    1. Obrigada, Wélida querida! Com tantas boas vibrações, conselhos e afins, acho difícil que ela não melhore logo hehehe como eu disse, quero visitar quando eu sentir vontade e bem entender, não adianta fazer a contragosto ou sem ser de coração, acho que a pessoa sempre sente. Mais uma vez, obrigada! Beijoca

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  4. Me emocionei muito ao ler...ainda mais porque posso dizer que sei o que você está passando. há uma semana diagnosticaram um câncer raríssimo de bexiga no meu avô. O único avô que tenho, o qual amo muito, e mora há 10min da minha casa, nem isso. radio e quimio não resolvem nada nesse tipo raríssimo de cancer. Tratamento é perigoso pois ele é paciente de risco devido a idade e a muitos problemas (coração, colesterol e pressão). Se nao fizer nada...apenas alguns meses de vida sujeito a muito sofrimento. Hoje meu pai falou q o médico sugeriu cirurgia urgente. Sem muito saber o que fazer, como reagir...vamos mantendo a fé né...rezando e pedindo a Deus que "seja feita a tua vontade aqui na terra como nos céus..."
    Excelente post...me fez pensar, me emocionar....
    Força pra vc camilinha! estamos juntas nessa "luta" com os avózinhos >.<
    beijoca

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    1. Ter fé e certeza de que tudo ficará bem acho que é essencial, o melhor que a gente faz. Força pra ti também guria, que hoje em dia é o câncer, assim como em outras décadas as doenças temidas foram outras - hoje, nem tanto e com mais fáceis soluções. É difícil, mas acho que bons pensamentos e vibrações ajudam, mesmo de longe. Obrigada pelas palavras de incentivo. Beijocas!

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  5. Lindo - e emocionante - texto, Camila. Desejo que as coisas possam se desenrolar da melhor maneira possível para a sua avó e para a sua família. Falando como psicóloga hospitalar: O câncer, embora ainda seja uma doença tão temida, já obteve muito avanços em termos de cura e mesmo que seja necessária uma mastectomia (retirada completa do seio) já é possível, mesmo dentro do SUS, realizar uma cirurgia de reconstrução. Não é que isso vá diminuir a dor ou o medo, ou o sentimento de invasão causado por um procedimentos cirúrgico, mas a longo prazo traz menos consequências do que anteriormente. E agora, falando apenas como uma mulher, que tem muitos casos de câncer na família e que já perdeu todos os avós para essa doença: desejo muita força e positividade para você. E que você consiga entender e respeitar os seus limites. Visite sua avó quando você puder fazer isso de maneira plena e puder dar a ela um sorriso sincero, ainda que amedrontado. Visite sua avó quando você sentir que tem forças para dar forças a ela e puder confortá-la, mesmo que em meio a suas lágrimas. E quando estiver com ela, abrace-a muito, beije-a muito e encha ela de carinho, pois não importa o que aconteça isso a fará sentir-se melhor. Por fim, não esqueça de dar o mesmo carinho ao seu avô, pois pros homens é sempre mais díficil lidar com a dor e ele também merece ser acolhido. Grande beijo.

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    1. Luísa, que comentário mais lindo. Sabe, acho que era tudo que eu estava precisando ler. A cobrança acaba sendo tão grande pra que eu vá, e visite e me esforce e viva, que uma hora a gente para, pensa e desaba. É complicado. Por fora, parecemos uma rocha, mas e por dentro? Quem se preocupa com nossa fragilidade? É por essas e outras que a psicologia me encanta tanto, eu acho hehehehe
      Adorei ler o que escreveste, de verdade. Muito obrigada pela força!
      Um beijão

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