Mulheres são feitas de detalhes

5.30.2012 -


Fica um pouco de mim num bilhete perdido propositalmente embaixo do travesseiro dele, na rubrica daquele memorando, no ritual passo-a-passo do perfume antes de sair (atrás das orelhas, nos pulsos, uma borrifada no colo e pronto: a rua que esteja pronta pra mim), no passo apressado pelas ruas ainda cedo, cor do esmalte escolhido, voz no telefone, nessas pequenas ordens cotidianas e comportamentos singularmente estranhos de cada um de nós.

É simples que alguma coisa soe estranha durante pensamentos aleatórios no meio do dia: se o cabelo não colabora, a roupa parecia boa antes de sair de casa, mas na verdade fora mal escolhida para a ocasião, começa a chover e guarda-chuva é apenas um desejo profundo - assim como tomar café, ler um livro, dormir uma horinha ou todas essas coisas que repicam leveza na existências humana. Mas nada funciona se cada uma dessas pequenas coisas estiverem alinhadas, os 98% de êxito são tão pouco para os outros 2% que podem ser uma mensagem com elogio, promoção no trabalho, aquela proposta que se sonhou por meses, uma viagem relâmpago - sonhamos alto, talvez. Queremos muito e possuímos uma insatisfação feroz, atenta, vivinha da Silva.

Esmiuçamos situações, revemos mentalmente conversas, ensaiamos futuras falas, dizemos frases que querem dizer outras palavras, que na verdade, tem outros sentidos. Um "mais" esquecido depois do "eu te amo" e o surto de desespero e insegurança tem uma presa fácil. A falta de um elogio quando a roupa é nova, o corte de cabelo a estreia da semana ou o feedback de um presente, carta, bilhete, mesmo que tardio ficam tão grudados na nossa mente como um post-it paranoico quanto aquela ofensa em briga irracional, já falsamente superada.

Se somos o casaco descombinado para casar bem com o sapato, o coque mal feito de propósito, um abraço apertado na cozinha, o silêncio contido de quem precisa se expressar e não sabe como, o choro soluçante de quem desaprendeu a viver uma vida que funcione, a cara amassada de acordar, tatuagem escondida em lugar estratégica, jeitinho de beber na xícara, a estabanação ambulante; o olhar fundo de quando o desejo de uma conexão maior ainda, as frases marcantes que são todinhas nossas, gírias improvisadas, alimentos que detestamos, as histórias da infância, todas essas particularidades assumidas que nos fazem além de autoconhecedoras próprias, de identidade; humanas.

Pensa bem quem para por alguns minutos e se permite flutuar como o outro: muito mais que jóias caras, vida de luxo, carro importado, bíceps definido ou um cara de estilo do lado, cuidem dos nossos detalhes. Alimentem nossos sonhos com sinceras - mas ponderadas - opiniões, bilhetes dentro da mala, eu te amos mais gostosos de se escutar ao pé do ouvido para dormir levinha, suave, em paz. Permitam-se navegar nesses nossos baús de memórias lotadas daquilo que a gente planeja esperando que alguém venha com uma lupa paralisadora e, veja. Notem a lingerie, o cuidado das palavras postas na mesa, as unhas e depilação em dia, o que ela diz e prefere não falar. Não precisa ser sempre: sendo de vez em quando a felicidade começa a existir, se torna fácil manter aceso um desejo de melhoria constante (que movimenta o mundo, as relações humanas, nós todos e quem vem a seguir).


8 Comentários:

  1. Realmente, nós mulheres temos uma necessidade constante de detalhes, que fazem sim, tanta diferença. E nos ganham e nos perde também. AMEI o texto guria. Sucesso sempre.

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    1. Nos perdemos, nos embaraçamos, nos tentamos? Nem sempre. Acho que seríamos mais felizes se olhássemos o todo ao invés de focalizar em cada pequena coisinha, mas fazer o que se somos assim, tão constantemente detalhistas? Acontece! hahaha
      Beijo, guria!

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  2. Faz tempo que não venho aqui (pra comentar, pois ler eu leio quase sempre) com o intuito de analisar meticulosamente suas palavrinhas mágicas que sempre formam um post generoso.

    Lembro-me da primeira vez que encontrei o Calmila e de como existia algo de peculiar em seu espaço.
    Você era uma sonhadora que não perdoava os clichês humanos de relacionamento e escancarava com méritos todas as insatisfações de seu cotidiano.

    Amor sempre era um tema central mas você sabia colocar os temperos certos nessa refeição lexical. Tem algo seu que funciona (principalmente com o público feminino) como um catalisador de boas sentenças e faz até os mais incultos pararem pra ler o que você diz.

    Hoje eu decidi escrever pois esse tema que aborda agora é de uma verdade apoteótica.
    As mulheres realmente tem os detalhes como seus grandes feitos e não deveria ser preciso o melhor observador do mundo para que tais esforços fossem notados.

    A mente intrínseca sempre foi uma de minhas paixões - o que certamente é loucura - e agora isso ficou um pouco mais evidente.
    Ainda que não seja fácil parecer diferente do comum, é preciso que se dedique mais ao complexo e delicioso planeta feminino e suas vontades.

    Vocês dão dicas ocultas o tempo todo, só é preciso educar um pouco mais os ouvidos para distinguir o caminho certo.

    Acho que essa sensibilidade pode garantir que a felicidade de duas pessoas seja diária e não apenas em datas comercias dos protocolos de relacionamento.

    Fico feliz que continue firme em seus propósitos.
    Continua sendo a escritora mais honesta que conheço. E honestidade é quase tudo que as pessoas precisam pra acreditar em alguém e reverberar suas palavras.

    Parabéns Camila Paier.

    Saudades de você no Teatro.

    (Ele mudou de endereço, deixarei aqui se me permitir:

    http://oteatrodosonhos.blogspot.com.br

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  3. Adoro os textos da Camila, são simplesmente o máximo, e acaba sempre alguma frase dela batendo com algo que digo ou que acho.

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    1. Que fofa! Muito obrigada, seja você quem for! hehehehe só de ganhar um elogio desses, fico feliz. Beijoca!

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  4. Bem posto o que Jackelline disse: detalhes que nos perdem também.

    Dentro de mim, uma batalha constante: querer saber se estou pedindo demais ou se ,de fato, a entrega foi feita de menos.
    Não sei se erro nosso ou erro deles,
    o fato é que somos e - ainda que tentemos - parece impossível mudar.

    Meu medo é os (raros) grandes sentimentos poderem se perder justamente por descuido aos nossos meticulosos detalhes.

    Ainda assim, sei que só sei, detalhadamente, sentir.



    Para mim, bons textos são os que me inspiram. E o seu está excelente.

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    1. "Meu medo é os (raros) grandes sentimentos poderem se perder justamente por descuido aos nossos meticulosos detalhes."

      Pois é justo esse o meu medo também. Pra nós, é importante, poxa. E fica tão complicado endurecer e parar de achar que aquilo tudo nem é tão relevante assim, né? Difícil a vida, guria! Beijocas pra ti

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  5. Suspirei uma, suspirei duas, suspirei várias vezes .. rsrsrs

    Ai, Ai.. são só detalhes.. se eles entendessem..

    Parabéns pelo texto Camila!

    http://omundomay.blogspot.com.br/

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