Da Mei: das pressões familiares..

4.10.2012 -


Quando me dizem que está na hora de ser alguém de verdade eu penso: “minha nossa, quer dizer que não sou ninguém então? Não fui nada nesses meus vinte e quatro anos de bolachas recheadas e muita coca-cola?”.

Ter uma graduação em uma universidade federal, morar sozinha, trabalhar o dia inteiro, fazer a segunda graduação à noite – também na federal - não é o suficiente. Nunca é. Porque eu escolho pagar caro para não ter que pegar ônibus e morar perto do trabalho e da faculdade, eu escolho errado. Quando digo que não quero ter carro por ideologia e também economia, sou sem ambição na vida. E quando exponho desta maneira para alguns de meus entes queridos, estou fazendo papel de vítima. Como compreender essas pessoas?

A mesma boca que proferiu as palavras de ordem, quando eu estava na quarta fase do meu curso, querendo abandonar, proibindo-me de desistir e me fazendo esquecer a ideia de começar de novo, diz agora que eu desperdiço o meu talento não tentando entrar no mestrado ou dando aula.

Por que é tão difícil para nossos pais perceberem que eles não nos possuem mais? Eu respeito muito a história de vida dos meus. Cada um teve que se virar como pôde para estudar, se sustentar, tentar a vida em outra cidade, e não se dão conta de que o que eu faço é apenas um pouco do muito que eles também já fizeram um dia, e fizeram sem auxílio algum de seus respectivos pais ou perspectiva alguma de sucesso futuro.

Eu só queria fazer-me entender e mostrar que tenho todo o direito de não saber  e não querer saber o que quer que signifique “ser”. Poder demorar em escolher entre o “ser” e o “ter”. E se a escolha final for “nem ser, nem ter” , que me deixem em paz não sendo e não tendo. Afinal , quem escolheu fui eu. Pode ser que aquilo que dizem que sou seja exatamente o que não sou. Ou o que pensam que não sou é o que sou. Estou bem cansada de tentar me justificar.

A obediência tem prazo curto de validade, especialmente depois que se descobre que tudo que você pensa ser sólido se desfaz feito broa de polvilho quando entra em contato com a liberdade.

De verdade, que eu saiba, já sou. Aqui estão meus olhos em frente ao computador e meus dedos digitando este texto, que não me deixam mentir. Acontece que a minha verdade não é a mesma que a sua, nem a da minha mãe, nem a do meu avô.  Resta-me apenas esperar o dia em que os outros enxergarão isto.

2 Comentários:

  1. Mei ARRASOU nesse texto. Também compartilho dessas pressões familiares por todos os lados. :n

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  2. Sem mais, perfeito! As pessoas são assim, né? Que mania que têm de opinar em tudo e nada é suficiente... Nunca! sou uma pessoa muito mente aberta, e que acho que por isso, por não julgar ninguém e nem suas escolhas, odeio tanto ser julgada. Cada um sabe o que quer, e se não sabe tem total direito de escolha... Depois a única pessoa que arca com as consequências da escolha é a pessoa mesmo, né? Seu texto é maravilhoso, aliás, você escreve muito bem :))

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