Carta aberta a uma ex-amiga

4.27.2012 -

Fica difícil saber quando esse processo - agora doloroso - de diferenças, sumiços da vida da outra e cronograma em comum errôneo começou. Vai saber se foi você quem se fechou primeiro por causa da minha falta de tempo, do comportamento grosseiro de vez em quando, das intrigas que me fizeram inexperiente, culpada e vilã, ou se fui mesmo eu quem, aos pouquinhos, escolhi viver com quem tem mais a ver, botar a boca cheia de sinceridades no trombone ou me recusar a aceitar as críticas, os maçantes comportamentos, a tudo não ser mais tanto como é. A gente pensa sempre que é importante na vida dos outros, mas é quando eles silenciam, ao invés de defender, que o pensamento para por alguns instantes e avalia que talvez nada fosse mais tão bom assim.

Como fazer durar uma amizade que já se encaminhava pra um afastamento, com tão pouca coisa a ver, fases extremamente diferentes, assuntos que mal batem e acabam sendo quase sempre sobre as gentes alheias e o supérfluo, roupas, emprego, faculdade, nada de útil? Sinto como se, mais ou menos como aqueles chicletes vendidos por metro de quando a gente era pequenas, cada uma foi puxando para o seu lado. Vagarosamente. Na lentidão de quem não quer perceber que a força motriz da companhia de outros tempos já perdeu o sabor e deve estar beirando já o lixo. Puxando lá, eu caminhando rumo às novidades da vida, os problemas de mim, tentando preencher as faltas que em cada um de nós já nasce e: de repente, fraquinho. Pega o desfibrilador, tenta reanimar o sorriso de noites bêbadas e sôfregas, baladas decadentes, confissões sem nojo nem pena nem dor - assim como também a sinceridade - só que não. Nada acontece. Ver um negócio de ano respirar por aparelhos é de cortar o coração. Ou as relações. Enfim.

É o choque de se dar conta que o nosso muito, talvez fosse pra outra amiga, tão pouco. O medo de não saber daqui pra frente como vai ser, se sozinha é melhor assim, ou daqui um tempo talvez, tudo se resgate lá na frente. Por enquanto, muito vai sendo deixado pelo caminho: as coisas boas da vida que precisariam ser contadas, fofocas que vão surgindo semana após semana, as incontáveis lembranças sem espaços de rir junto ao se maquiar, dividir uma mesma chapinha, chiclete antes de festa, faculdade reunida e outras mais que não cabem em uma só. Mas compõe memórias, fazem volume. Uma certeza (a única): guardadas com carinho. Já que as dúvidas são milhões, a mágoa grande e o futuro incerto, que seja. Pequeno o sentido, menor ainda a predisposição. Passa o tempo, mudam as pessoas, que se conserve pelo menos, além das recordações, carinho e qualquer respeito bom. Um dia, se encontrando por aí, conversa descontraída e remorso já digerido, a gente aprende.

32 Comentários:

  1. Ai, que lindo! Tô emocionada. Não consigo encontrar palavras que possam descrever o que senti ao ler. Me encontrei nesse texto. Perfeito.

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  2. Bá, me serviu muito. Compartilhemos, para que o acaso permita chegar à quem deve chegar, hehe.
    Camila, sua linda: não canse nunca de me entender e me explicar em tuas curtas ou longas linhas.
    (ok, uma pitada de egocentrismo meu aí, mas tu entendeu - não deixe de nos entender/explicar pois sei que toda essa relíquia contida no Calmila serve para mim, para as gurias por aí e pra ti; patrimônio do Sul já haha)

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  3. Parece que você descreveu tudo o que sinto em relação as minhas amigas de infância e adolescência. Hoje, até o abraço de um reecontro casual, do destino, é frouxo.
    Infelizmente.

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  4. Caroline Schwanck27 de abril de 2012 15:49

    Acho que não temos como fugir da situação de uma amizade desgastada, o incrível é que tu sabes exatamente como traduzir essas fases tao chatas que não sabemos descrever. Te acompanho a muito tempo e tenho orgulho de divulgar os teus textos, tais quais me identifico muito. Parabéns!!

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  5. Que forte!
    Tantas emoções surgem simultaneamente à leitura, que fico até sem jeito de escrever algo.
    Fico assim porque vejo que na minha vida, os afastamentos foram inevitáveis, por esse ou aquele motivo, por minha culpa ou por culta de alguém.
    A gente vai crescendo e as ideias amadurecendo, cada fase da vida, parece pedir a companhia de alguém que se adapte à você, à gente, daí algumas pessoas pulam fora, ou a gente manda embora por um tempo.
    E claro, tem aqueles raros, que permanecem conosco dia após dia.

    Belíssima reflexão. (:
    Uma beijoca pra Camilota, da Anoca!

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  6. Ótimo texto! Muito do meu momento atual.
    Parabéns Camila!

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  7. É tão ruim perdemos pessoas que consideramos tanto,damos todo o nosso melhor e tudo mais. Mas quem sabe,um dia a gente se reecontra,e eu espero que nesse dia toda a decepção já tenha se esgotado e que no meu coração só tenha espaço pra esperança. Esperança de um dia ter tua amizade como era antes!

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  8. sério... eu estou sem palavras, até chorei.

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  9. Não pode deixar de ler e comentar esse tempo, enquanto a professora explica lá na frente, me encaixo nas suas palavras. Primeira coisa que me chamou atenção, você também fala ex-amiga, todo mundo acha estranho quando digo que fulana é minha ex-amiga, mas acontece né? Realmente é uma situação difícil, mas acredito que se a vida nos "deu"isso, é por algum motivo e porque aguentamos.
    Saudades de te ler, a vida anda me deixando sem tempo demais!rsrs
    beeeijo

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  10. Se eu falar que tava precisando de um texto assim, tu acredita guria? Pois bem, muita coisa - em pouco tempo, foi perdida e me parece, que não tem como recuperar. Talvez eu tenha me afastado: comecei a namorar, estudos, estudos e mais estudos e aqueles velhos problemas de sempre ou ela, por não "aceitar" muito bem tudo isso e também, por achar que o meu muito era pouco.
    Enfim, que assim seja e quem sabe um dia, mais para frente em um futuro incerto, as risadas voltem a ser compartilhadas.

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  11. Muito bom, texto ótimo como sempre ;D
    Parabéns Camila !

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  12. Júlia, não foi a única. rs
    Camila tem o dom de mexer lá no fundo...
    E foi bem em cima. Mas acho que - mesmo que tudo isso aconteça - são caminhos diferentes que a vida quis dar pra pessoas diferentes que cedo ou tarde iriam tomam um rumo contrário ao nosso. Nem sempre dá certo. Nem sempre é justo. Mas é o que a vida oferece. Sinto falta sim das ''ex-amigas'' mas hoje vejo que não era pra ser mesmo. É como um namoro desequilibrado onde um dá demais e recebe de menos. Até nas amizades precisamos de equilibrio. Não dá pra ser metade amiga'. O afastamento nesses casos é o melhor a se fazer.
    Lindo Camila, me fez pensar bastante.

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  13. Quando você escrevia esse texto, você lembrou alguma vez da Tassyane Nunes?

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  14. Te manifesta aí anônimo, relembrando coisas do arco da velha, meu Deus...nem lembrava mais dessa pessoa, e tenho certeza que esse texto não é pra ela NÃO!

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  15. Jura, nem sei quem é Tassyane Nunes.

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  16. Por que tanta raiva, mulher?

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  17. Olha só, tudo que eu senti uns anos atrás traduzidos em palavras... É difícil se afastar de quem se gosta, mas a vida tem dessas coisa, não é? O tempo passa e novas amizades surgem e essa que foi desgastada fica como lembranças de momentos bons. E no futuro, quem sabe, é isso que acontece:
    " Um dia, se encontrando por aí, conversa descontraída e remorso já digerido, a gente aprende."

    Pra variar um pouquinho o texto tá lindo, Camila.

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  18. Como sempre, ótimo texto. Acho muito triste quando isso acontece, muito triste nos afastarmos das pessoas que amamos e que outrora já foram muito importantes. Beijos!!

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  19. Não sabe? Sua mãe parece que sim...

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  20. Esse texto retrata absurdamente em cada linha o que passo com uma amiga, é incrível que venho há alguns meses tentando expressar em palavras e ao ler o que escreveu, é justamente as palavras que gostaria de ter escrito.

    Por um lado é triste, mas ao reconhecer, é também necessário e verdadeiro.

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  21. Mas da onde tem raiva nesse texto Juliana Anônima?
    Tá precisando de óculos querida?

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  22. Melhor texto que você já fez na minha opinião... perfeito!

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  23. Nossa, quanta grosseria, e tudo porque falei em Tassyane. Agora eu entendo certas coisas...

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  24. Nossa, sempre lia teu blog e já adorava, mas com esse texto tu te superou! Por favor, escreve mais sobre amizades! Tu arrebentou, guria! Beijão!

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  25. Acho que a anônima não entendeu que esse texto é pra ela, e não sabe que está sendo monitorada...ahahah e ainda fica jogando verde! mostra tua cara!

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  26. sugestão pro próximo texto Camila, um sobre gente recalcada que vive no passado e não te esquece, pelo amor de Deus. Te toca esse texto é agora pra gente de 2012!

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  27. Esquece ela é ótima hahahahahahahahahahaha menina queria copiar tudo que eu fazia, e vem comentar como anônima. Certas coisas não mudam mesmo. Nunca foi considerada amiga minha, e nem será. Pena, é isso que eu sinto. Não sabe da minha vida e acha que pode vir aqui e falar. Hellou, eu tenho um namorado. E olá, amigas que se afastaram por causa disso. Tassyane, larguei mão de ti já tem dois anos, agora faz o favor de dar meia volta e tchau, menina hahahahaha piada.

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  28. Parabéns, Linda! Tenho uma amizade, tive aliás, que me encontrei perfeitamente nesse texto. Você como sempre, consegue fazer nós se encontramos neles. Muito sucesso! :f

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  29. Um dia, se encontrando por aí, conversa descontraída e remorso já digerido, a gente aprende.

    Nossa sei bem o que é isso, principalmente quando somos nós mesmas que pelos nossos esforços esgotados, o tempo atribulado, e por ações indigeríveis da outra pessoa nos afastamos . Contudo ainda que não queiramos nos vem aquelas lembranças!

    TEXTO LINDO, PARABÉNS GURIA(plagiei) RSRS!!!

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  30. Linnnnndo texto. Já pensei em escrever uma carta aberta pra um ex amiga e não consegui! E você me fez pensar em muita coisa com palavras suaves!

    Parabéns pelo texto e pelo blog! Passarei a ler! Entra pra lista do favoritos!

    Ummm beeeijo.

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