A gordinha do ensino fundamental

3.22.2012 -

Embora algumas pessoas questionem, eu conheço bem a gordinha do ensino fundamental. Aquela menina que comida escondida e sentia um remorso do tamanho do estômago depois, ao notarem a falta dos biscoitos, leite condensado ou chocolate. Que comparava roupa do tamanho menor para se sentir mais magra mas, com o efeito visual devastador, fazia parecer ainda mais graúda. Ouvia apelidos nada carinhosos, todos deixando em "larga" evidência a grandeza de bumbum, seios, coxas, mas também barriga, braços e rosto. Sempre muito bonito. Cabelos enaltecidos, o colo, como é bonito! Até mesmo o pé. Nunca uma dessas partes que quisesse dizer sensualidade, que fosse sinônimo de mulher bonita de verdade, dessas de capa de revista de dieta.

Adolescência sofrível, um trauma praticamente eterno. De franja, espinhas e um desengonço que só se ajeitou com o saudoso tempo. Embora hoje use manequim 38, seja considerada uma pessoa magra de saudável, olho no espelho e vejo aquela jovenzinha imatura, que chegava da escola e ia correndo chorar a tarde inteiro porque ou as roupas não cabiam, ou toda calça jeans ficava horrorosa, ou mais uma vez ouvira alguma maldade ferina tendo como mote o sobrepeso que os 1.68 carregavam. Segundo a cultura atual, ou se é magro, ou mesmo com os hormônios à flor da pele, se pertence à classe de pessoas que não merecem a felicidade. Os padrões de beleza só faltam nos cercar, de tão rígidos. E ser uma teenager "gorda" foi um pouco aprendizado, mas hoje é muito também um complexo. Sonhadora com os bonitões do colégio, a admiração que as amigas mais bonitas conquistavam e falar sem ser julgada por uma coisa ou outra de tão superficial.

Enfim. Hoje, a vida é outra. Caras que me zoavam já cansaram de pedir uma chance. "Amigas" que falavam mal nas costas, a elogiar a minha (atual) boa forma. Ou outras, inimigas de longa data, a invejar a perda dos quilos a mais. Mas meu recado é pra vocês, que tiram as gurias que, por culpa de algum medicamento, muita comida ou mesmo a bomba hormonal que são os djovens são gordinhas: feio se é pra sempre, gordo sempre tem a alternativa do emagrecimento. Querer é um primeiro passo. Se esforçar pra manter, o mais difícil. Agora, o sabor de vestir o número dos sonhos, impagável - embora, vez ou outra, o traumatismo de uns anos atrás e os apelidos do passado assombrem, sim. O jeito é acreditar nos elogios e manter acesa aqueles sonhos tão bonitos de quando ainda se sabia tão pouco sobre a vida e as pessoas e o mundo não parecia um lugar tão frio à noite e filmes e livros eram quase que confessos amigos. Um segredo: ainda são.

9 Comentários:

  1. Linda nas palavras. Adorei o texto, Camila. Somos julgados pela aparência. O magro é belo, o gordo é feio = escuto isso de pessoas próximas, acho terrível. E pessoas como você estão aí para nos mostrar que tudo é possível. E a beleza está no que a pessoa é e não naquilo que ela come.

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  2. Verdade Camila. E só quem sofreu isso sabe. Não olhando tanto pra mim,que não sofri tanto isso, mas por meu irmão. Mais velho que eu, lembro vagamente dele ser motivo de risos e brincadeiras totalmente idiotas e dispensáveis de uns coleguinhas aó por ele ser gordinho . Mal sabiam eles que ele tinha um seríssimo problema de saúde e que tomava um medicamento que o deixava com o peso tres, quatro vezes maior que o normal. Hoje, os tais ''brincalhões'' pediram desculpas pelo o que fizeram e são amigos do meu irmão...
    Lindo texto!

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  3. Eu, tive um trauma contrário.
    Sempre fui a mais alta da classe, a mais magra. A mais feia aos olhos dos rapazinhos e amiguinhas.
    Era nerd. Era a que todos viravam amiga pra poder se dar bem nas matérias.
    Mas aos poucos, fui me aceitando... o tempo tratou de moldar um corpo magro, pra um de mulher.
    Eu passei a gostar de mim como eu era, e as pessoas também.
    Os amigos que me chamavam "bambu de pegar estrelas" e "girafa feia", hoje me admiram. Todos amadurecemos. Ah, senhor tempo, muito obrigada! (:

    E você com esse rosto lindo e corpo escultural, tem mais é que agradecer também viu! Além de tudo, super talentosa e querida!
    Beijos Camila.

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  4. Adoreiii o texto...o meu caso foi ao contrário...sempre fui magricela...mas mesmo assim, ficava braba o pq sempre o tal "padrão de beleza" era ser magra e alta (coisa que eu nao era pq era mto baixinha) existem muitas gordinhas que são muito mais lindas e interessantes do que muita menina "pele e osso" que não tem nada na cabeça.
    Keep in this way ;)
    beijoca

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  5. Acredito que essa seja cada vez mais a realidade das crianças e adolescentes. E se não fizermos nada para mudar.. Psicologicamente falando, só piora cada vez mais. Vejo um mundo efêmero e que sinceramente não tem muito minha Fé. Mas é isso aí, fui "feinha", magrela e usava óculos garrafão e hoje é maravilhoso a sensação de reconhecimento pela beleza e inteligencia de pessoas que antes riam do "patinho feio."

    Pra mim, continua importando o que vêm de dentro das pessoas.

    Parabéns pelas palavras e a coragem, linda!

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  6. Nossa, Camila, não é a primeira vez que eu choro lendo um texto teu, mas dessa vez foi tão "pra mim"! Tô banhada em lágrimas. Mesmo.
    Esse texto trouxe de volta as tantas vezes que eu tive vontade de sumir por causa do meu corpo.
    Minha infância foi terrível. E, pior que tudo, que os apelidos na escola, na natação e na dança, era ter que ouvir da própria mãe que eu não estava "em forma" para usar determinada roupa.
    Ainda hoje sofro com isso. Os bonitões? Nem sou corajosa para tanto. A timidez e o medo de ser rejeitada - novamente - por causa do meu corpo me perseguem.

    Mas enfim, AMEI AMEI AMEI o texto. E eu queria que o mundo todo fosse capaz de ver que pessoas não são apenas estética, que elas têm uma alma, um coração. E isso é tão melhor.

    Beijão, linda!

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  7. Camila, esse texto mexe com qualquer um, muito mais com alguém que foge ou já fugiu dos "padrões" de beleza. Há alguns textos seus que não há o que comentar, eu simplesmente leio e concordo, meu coração concorda. Não é por preguiça, não é porque eu não leio, é porque não há como descrever. Já deve ser rotina pra você receber elogios, mas nunca acho demais, toda mulher ama. Você escreve maravilhosamente bem, uma escritora e tanto. Obrigada por postar textos como esse... que mexem com a gente e nos deixa sem saber o que dizer. Um grande beijo, continue escrevendo sempre, para sempre.

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  8. esse texto é bem a minha cara!
    Muito perfeito! se olhassemos "por dentro" das pessoas, talvez ninguém ficaria se sentindo inferior, como muitas vez eu me sinto rsrsrs..
    lindo demais *-*

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  9. ÓTIMO texto, camila! Também sofri muito - e confesso que ainda sofro - por conta dos quilinhos a mais tão discriminados por essa ditadura da magreza.

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