Eu preciso falar sobre o Kevin

3.02.2012 -

Faz quase um mês, fui jantar com uma amiga que estava na cidade de passagem. Combinamos o habitual pastel bom e barato do Bom Fim, local que ficava perto para ambas. Me ligou avisando que estava saindo do cinema, talvez demorasse uns bons (para mim, sempre péssimos) dez minutos no trajeto até o restaurante. Na chegada, contou do estremecedor filme que havia assistido há pouco. Culpa compartilhada entre mãe e filho, drama em tons de vermelho, algum suspense e um bom massacre finaleiro. Estava extasiada. Ela precisava me falar sobre o Kevin.

Tentou contar pouco, pois como a cultura geral recomenda, não devemos detalhar demais filmes bem recomendados. Conseguiu, porém, atiçar em mim uma curiosidade desigual. Não muito habituada a leituras, confidenciou que talvez, eu devesse ler o livro. E claro, foi exatamente o que fiz. Precisamos falar sobre o Kevin mexeu com meu intacto e sublime, até então, instinto materno. Ao conseguir uma vida profissional estável num trabalho prazeroso e que ama, chega a dúvida de um filho. O sonho da maternidade, antes tão adiada em troca de uma felicidade quase idealista - e então, obtida - sonolento mesmo após o choro berrante  do tal menininho que futuramente seria o conhecido KK nos assusta, nos primeiros capítulos. Pode uma mãe ter culpa de um comportamento repulsivo, teimoso ou até mesmo ultrajante, de um adolescente que usa roupas diminutas, com pouquíssimos amigos, e de uma inteligência mal aproveitada? Acredito que não.

O código genético deve interferir em alguns traços da personalidade, sim; porém, aquele componentezinho que a gente não sabe de onde saiu mas faz toda a diferença é o principal quanto a demarcar um caráter. É a cicatriz rugosa de cada um de nós: não passa por gerações, vem desde cedo, tatuado em comportamentos e ações, falas e gostos pessoais. Kevin desconstrói para construir. Erra para, depois de algum tempo, se permitir um aprendizado. Desgosta do mundo, caçoa da vida, leva a sério apenas sua balestra, a coleção de vírus de computador e o cinismo em frente ao pai, americano saudosista e mais um entre todos os patriotas estadunidenses. Invadindo a derme de Eva, a astuciosa mãe, é fácil começar a questionar a maternidade. E se nascer um bebê que, desde a primeira mamada deteste não só a mim, mas também ao meu leite, meu jeito desprevenido de mãemãe de primeira viagem, o amor que deveria de imediato reluzir mas pisca só de vez em quando? Pelo visto, é o que de vez em quando acontece. Uma admiração tão intrínseca e disfarçada que parece chega a parecer desprezo. Só que, ao longo da leitura - desculpem se despagino demais os detalhes -  de repente, aparece.

Com certeza, ser a madre, ainda que não Teresa e muito menos de Calcutá, de um rebento que já estreia no mundo com papel de sociopata é um desafio e tanto. Poucas realmente teriam a força de vontade para manter o casamento em pé e um bom sorriso esboçado no rosto, sendo sra. Katchadourian Plakett. De atuações ótimas e uma montagem um tanto quanto singular, o filme é muito bom. Pode ser caracterizado como ótimo, com toda a certeza. Agora, o livro, sim: maravilhoso. Transfere pra gente a dor e a cruz carregada ao longo dos anos por uma mulher que, se esforçava, mas sentia falta da companhia do marido como parceiro afetivo, e não então, um pai babão. Descobre mais tarde o prazer de ser mãe de menina (o que, também, me fez repensar muita coisa) e que, a doçura do mesmo pode compensar a dificuldade com a outra criança gerada. Mesmo após anos de devastação pessoal, financeira e na profissão, sozinha em um duplex com um carro bem mais ou menos e muito dinheiro no ralo em processos por conta de Kevin, ainda tenta fazer funcionar o estranho amor que nutrem um pelo outro. E que cada vez mais é construído a partir de um desastre para poder ser refeito novamente.

Embora a raiva consiga ser sentida pelo leitor, o anti-heroísmo do protagonista, detestado e a história paralisante, vale a pena que continuemos a falar sobre Kevin. Agora que dei minha versão dos fatos, repasso até vocês. 

8 Comentários:

  1. ahhh apareci no post :a
    adorei o filme, realmente não li o livro
    Eva só podia mesmo ser a primeira filha do criador pra aguentar aquela cria, chamanda Kevin.
    Continua a sim, não leio o blog, mas sei que ele é muito bom!

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  2. Precisamos mesmo falar sobre o Kevin, e eu falo dele constantemente para familiares, colegas, amigos e etc. É um livro surpreendente, me deixou paralisada do início ao fim. Questionei meu lado maternal, também. Fiquei tentando me colocar no lugar de Eva, e cheguei a uma conclusão: cada um carrega a cruz que aguenta. Achei surpreendente a força dela.

    PS: achei muito engraçado o comentário e a sinceridade da tua amiga no comentário ali de cima. heheh!

    Beijão, bom fim de semana!

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  3. Oi, vim avisar sobre a super PROMOÇÃO que está tendo no meu blog, concorra a um Perfume Christina Aguilera e mais!

    acesse:http://kli-che.blogspot.com/2012/03/promocao-kliche-2.html

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  4. Preciso ler sobre Kevin, é uma questão de vida!
    Estou acompanhando sua empolgação com o livro pelo twitter e olha, fiquei com muita vontade de conhecer Eva.
    Meu lado maternal grita, e pede pelo amor de Deus desde que nasci quase... e sempre me pergunto o quão forte eu seria se Deus colocasse diante de mim um desafio em forma de filho.

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  5. Li o livro faz tempo mas nenhum outro me marcou tanto quanto ele, adorei saber que virou filme, é daqueles livros que a gente indica pra todo mundo sem arrependimento! hahaha
    muito boom :)
    beijos

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  6. Maravilhoso guria, vi o filme e fiquei com medo do livro, de ficar naquela angústia que o filme passa. Ficou um texto maravilhoso do ponto de vista jornalístico, tá de parabéns. Beijão

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  7. Olha só você atiçou a comprar o livro, vou já providenciar e se você indicou deve ser ótimo. Adoro histórias que tratam sobre família.

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  8. Tinha lido essa postagem a alguns meses, porém só assisti ao filme ontem. É impressionante como desde o começo ele prende a atenção. Assustei-me no começo, mas depois comecei a entender esse drama tão complicado e também diferente. Achei o filme ótimo, inclusive as atuações de Ezra Miller (Kevin) e Tilda Swinton (Eva).

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