No mundo da lua

1.19.2012 -

Cuido detalhadamente da maquiagem, pra que fique im-pe-cá-vel. Blush marrom-alaranjado, batom rosa nos lábios e rímel alongador. Vestes harmoniosas, pensadas por horas à fio. Ankle boots nos pés, e a rua como caminho notívago. Duas quadras, e ei moça: sua meia-calça está desfiada. À cem metros do salão de festas. E obrigada por avisar, mas que se dane. Presto atenção aos detalhes, e esqueço o conjunto inteiro. Cabeça nas nuvens, olhos na Lua. Distraída como sempre, é incontável o número de chaves perdidas, casacos esquecidos, bolsas em cima de mesas abandonadas. Dá pra prestar mais atenção, menina? Olha, dar, até dá. Mas quanto mais me empenho em me concentrar pra que tudo saía perfeito, e sem nenhum esquecimento, caio novamento em distrações febris e passageiras. Naquela esquina com cheiro de pizza de banana; na mancha avermelhada do meu vestido; naquela rima em verso, que grudou na cabeça e não saí. Nas partes bonitas, de um todo. O que nem sempre é distração, pode virar ação. Palavras, contextos, inspiração.

Tá me ouvindo, Camila? Sim, tô sim. Olha ali aquela placa enorme, que polui visualmente o ambiente. Tá vendo também, aquela moça que caminha apressada? Tem a bolsa igualzinha à minha, pode? Ah, eu escuto tudo o que você diz, sim. O difícil é entrar na mente, e ficar. Permanecer. Tudo vai sendo filtrado, e enfim, às vezes - e somente vezenquando - esqueço, oras. Não, não finalizei aquele texto, e muito menos o curso de inglês. Mas te contei que, me matriculei no italiano? E que, larguei o Direito pelo Jornalismo? Ah, sim. Não sei finalizar, mas adoro iniciar. O problema está em concluir algo, até o final. Mas finais são tristes, não acha? Eu acho. Dá aquela nostalgia, e a gente sente vontade de se tapar até a orelha, e tomar chá o dia inteiro, sentindo o saudosismo na alma. Latente.

Gosto de sentar num banco, e ver a vida passar. Observar os comportamentos, trajeitos pessoais de cada um, as particularidades de definem estereótipos, diferenças.Vejo aquela blusa rosa caminhando, e combino com o sapato preto, de salto. De duas pessoas diferentes, entende? E ouço aquela música, que me lembra um momento único, visto por apenas dois pares de olhos cúmplices. Me reporto ao instante, e quase vivencio tudo novamente, num golpe instantâneo de saudade. A água do chá, tá apitando! Oi? Ah, sim; não sei o que fazer na noite de hoje..Muito menos, sexta-feira, ou até mesmo sábado. Vamos decidir no dia, na hora, vai...Deixa o feeling tomar conta, a vontade apontar o rumo, o sentimento imperar. E então, tá decidido. Marcar hora, pode ser. Difícil é lembrar. Ou pior: chegar no horário. Ih, são quase quatro horas. Será que dá tempo? Desisto, não vou. Nem ligo. Acontece, não é mesmo? Sei, se eu tivesse me programado, e toda essa ladainha louca, tudo bem. Da próxima vez, prometo. É sim, pisei nessa defecação, na rua; não vi. Literalmente, que merda.

Não to muito afim de pensar no futuro não, a gente começa a pensar e nem se dá conta de que está enlouquecendo - ou então, envelhencendo. Vive agora! Ouve aquela música, curte esse momento que pode até ir, mas não volta. O que não vale é ficar parado, sonhar baixinho, e falar pouco. Ou demais. Eu falo muito, você pode estar vendo. Mas não se preocupe se eu falar demais. Comece a se preocupar quando eu calar a boca, e nada me fizer falar novamente. Ah, larga esse ofício todo e vamos pro parque. Lá a gente deita na grama, vê nuvens e divaga sobre a existência humana, os valores da sociedade, e um planeta só nosso. Mas tem que ter sapatos, chocolate, chimarrão e jornal diário. Tá ok, eu deixo ter um pouco te futebol, café e video-game. Antes disso, só vamos pensar no jantar da noite de hoje. E amanhã, em acordar cedo. E agora, vamos ao trabalho que sair disso que nem ao menos existe, dá trabalho. Pega a caneta, anota tudo o que eu disser, que exige concentração. Antes, peraí: pegou a chave de casa? Eu esqueci.

* Texto de Fev/2011

7 Comentários:

  1. Que cabeça distraída hein? E adivinha o que vou dizer? Sou exatamente assim. rs
    Esqueço tudo, absolutamente tudo. PArece que o espaço da minha memória é menor que o normal, aí guardo o que é mais selecionado. Nem sempre é o mais importante, como o documento que foi deixado na outra bolsa, e a chave da casa do namorado que ficou nessa bolsa e não no bolso dele.
    Ah, o mundo da lua ainda é perto. Onde foi parar o resto da minha memória é ainda mais distante! rs

    beijo enorme!

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  2. "Vejo aquela blusa rosa caminhando, e combino com o sapato preto, de salto. De duas pessoas diferentes, entende?" - Jurava que era a única que fazia isso! Esse texto me descreveu completamente. Vivo no mundo da lua!

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  3. "Não sei finalizar, mas adoro iniciar. O problema está em concluir algo, até o final. Mas finais são tristes, não acha? Eu acho. Dá aquela nostalgia..." Muito eu, também penso bem assim. E vivo com a cabeça no mundo da lua, rs

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  4. "Gosto de sentar num banco, e ver a vida passar. Observar os comportamentos, trajeitos pessoais de cada um, as particularidades de definem estereótipos, diferenças." Não sou a única então! A coisa mais incrível com os teus textos, é que eles me fazem sentir coisas diferentes quando lidos pela segunda, terceira vez.. Nunca é o mesmo, é sempre mais do novo, incrível isso.. Belíssimo aliás, esse texto!

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  5. As vezes os mais distraídos acabam notando coisas que passam despercebidas..

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  6. Também não sei findar as coisas. Não gosto de fim, mas também não gosto de interrupções, ainda que mude de ideias e planos o tempo todo.
    Quanto a parte de ficar sentada num banco e ver a vida passar, me lembrou muito Clarice Lispector ao escrever:

    "Há coisas secretas que eu sei como fazê-las. Por exemplo: ficar sentada sentindo o tempo."


    Estava com saudade daqui Camila, continua tudo lindo e com palavras fortes, intensas, mas quando combinadas tão dóceis.

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  7. Não tinha lido esse ainda. Amei, amo os seus textos - a maioria deles, pelo menos -, e estou adorando estes retornos. Bom ler de novo e de novo aquilo de que mais gosto, ou descobrir ainda mais coisas em comum entre a gente - e olha que às vezes acho impossível me identificar mais com você, mas daí tu posta um texto novo e, pimba, cá estou com os olhos brilhando de me ver em cada palavra tua. Linda :*

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