Temperamental

12.24.2011 -

No pacote recém aberto de quando nasci, podia se ver cada vez com maior clareza, o passar dos anos, o aviso grandioso de: cuidado, frágil. Na natureza que moldou todas essas minhas intempestivas reações, ciclotímica, era anunciado que o jeito de ser seria este e não havia chance de voltar atrás: com condimentos. Fora da neutralidade, com tanta pimenta que chega a doer o olhar alheio. Abundância em sal, que é pra ter gosto e dar sabor a quem prova. Satisfação a quem oportunidade de contato tem - mesmo que depois, litros e litros de água sejam então sorvidos. Aquela coisa talvez banalizada, mas aqui realmente seguida à risca: ame ou deixe. Se ficar, que seja para fazer parte do banquete de sensações ainda improváveis. Se for, já era tarde.

É preciso que tanto minha parte fria, quanto o calor dos meus atos seja sorvido com toda parcimônia possível. Que se feche as portas, e retire o cardápio das mãos, quando a agressividade bater. E depois de ingerida, compreendida seja. Minutos depois, a mesma facilidade ao riso, e à ironia; o de sempre. Na têmpera em que fui criada, o experimento entre misturar intensidade com volubilidade deu na bomba que é ter temperamento demais, para o não muito de vivência que até aqui desempenhei. Para toda essa gente que finge ser uma coisa, e na verdade é o oposto. Pra quem come pelas beiradas, e acaba se alimentando de restos mal cozidos.
Reações inesperadas, sangue quente. Se não consumida no momento exato, tão gélida quanto rochas marcianas. Mudo a receita a que pertenço a hora que bem entender, com rabiscos apressados, e decisões em cima da hora - às quais, também recorro e recorto do livro de culinária, se mais tarde se fizer necessário. Intempestiva, incluo em segredo, em alguma linguagem que apenas quem sente com todo o caráter pega a senha e tem acesso. Se chover, me torno a mais deprimente das pessoas presentes. 

Caso o sol saia, irradio na sala vibrante, querendo que se contagiem todos com a beleza do dia todo ainda pela frente. Se hoje te abraço, é preciso que você me dê colo até que saia forte e cordial, dos mimos que preciso. Sem tal toque, me recolho e apenas me abro a quem não promete, e sim cumpre; age. Se for preciso, disco o número que tenho em mente, em êxtase e sem pensamentos arrastados. Arrependida, mais tarde desculpas peço, sem dó nem culpa nenhuma. Irritadiça, resolvo num lampejo e com urgência as pendências que se apresentam. Relaxo, e sorrio, anestesiada. Colérica, quero o mundo, e quero já. Com algum sapato ou chocolate, quem sabe vestido ou maquiagem, sossego. Tudo porque o impulso é meu trampolim, e não canso de mergulhar ao fundo do que se misteria cada vez mais, e não encontro nunca as tais respostas corretas.

No adubo onde floresci, havia ainda um primeiro adendo, que esqueceram de inserir em meu manual de instruções - já perdido por aí, à esta altura do campeonato - e que em letras garrafais, proferia: cuidado, eu mordo. Especialmente no final de cada mês, quando contrariada, ou acordada com o telefone tocando sem parar. O aviso é possível, mas ainda desconheço quem ao ver a flor quieta, calma e em seu lugar não aventurou o dedo e terminou a visita com sangue jorrando. Perigo de quem se aventura, recompensa de quem perdura. Quem êxito tem, não vive sem.

6 Comentários:

  1. Não sei se estarei na rima quão igual lindo o maravilhoso que tem que ser.Pois mesmo assim buscarei não sem com apenas vento suave de uma chuva de verão, serei constante, não nas minhas irritações tão vivas quanto possíveis, mas leve o tanto que for preciso, não falarei do melhor que se pode esperar escultar, mas apenas vou dizer o que está por sair neste momento único de passar por aqui.
    Você até pode achar que falei muito, ou quase nada, pois apenas falei o instante que me era permitido, dizer com realidade que o tudo que aqui está escrito me fez ver lindo horizonte e sentir o quanto e importante está sentindo alguém falar assim, de tudo que podemos dizer, das coisas e pessoas ou sentimentos que temos em um momento qualquer.

    ResponderExcluir
  2. TODA A EQUIPE DO TEPEGONAMOITA TE DESEJA FELIZ NATAL

    http://tepegonamoita.blogspot.com/
    BEIJOS E SUCESSO AO BLOG E A TI

    ResponderExcluir
  3. Que descrição de você! Vi muito de mim aí. Damos trabalho, mas quando descobertas, valhe-se a pena tal esforço! Belo texto Camila, coooomo sempre (:

    ResponderExcluir
  4. Demais!! como sempre!! me identifiquei muito tb!!!

    ResponderExcluir
  5. Apenas a realeza de tudo que penso ser, a vida que busquei longe, mas as letras que não busquei assim eterna por onde passo, expressando o máximo de mim, de algo intenso, e não me confundido o que realmente é.
    Pois cada um sendo o que busca ser dentro da primazia da existência onde o amor é uma gota, do bom que acreditamos existir até o fim ou o começo da realidade de sempre.

    ResponderExcluir