Calmila responde: Entrega, medo e importância da camisinha.

9.23.2011 -


Oi Camila. Sou soropositivo, descobri isso em janeiro do ano passado, e em setembro comecei a terapia com antirretrovirais.

Putz, que barra.

Namorei por 4 anos com um garoto soropositivo. Ele me contou na primeira semana em que nos conhecemos e nao pensei duas vezes, continuei com ele. Em nenhum momento considerei esse motivo algo suficiente para terminar com ele.

Deve ser complicado mesmo. A gente, que está de fora, num primeiro pensamento julga. Mas e se no lugar do outro? E se o sentimento for maior que qualquer coisa e explodir dentro da gente a cada vez que vemos a pessoa, sentimos a pele dela na nossa, enfim. Complicado.

Não me arrependo e não o culpo por isso, apesar de todas as nossas diferenças, de nossas picuinhas, nunca joguei na cara dele que ele tinha me transmitido o vírus, e apesar de ter sofrido durante esse relacionamento que foi bastante conturbado, se voltasse no tempo faria tudo de novo.

Ok, vamos com calma. Você sabia do vírus, e aceitou a condição do seu namorado. Agora, a pergunta: por que não se cuidou, poxa? A aids é um assunto tão recorrente na mídia hoje em dia, todo mundo menos o Papa quase nos obriga a usar camisinha, e tendo conhecimento da disposição do seu amor, era só se cuidar direitinho que a sua saúde ficaria intacta. Tantos e tantos casais por aí em que um dos dois tem a imunidade comprometida e até filhos conseguem ter. Faltou usar a razão da sua parte, meu amigo. O amor é incondicional, mas a vida deve também ser, se com saúde nos cuidarmos.

Fomos irresponsáveis e em algumas ocasiões acabamos transando sem preservativo, às vezes bebados.

Bebida e sexo também são perigosos. Outra consequência se chama gravidez, que se não interrompida, evolui para "bebê", sinônimos de "ser humano" e "vida". Continuo não querendo julgar, até porque conheço pouco demais o mundo de quem é soropositivo. Mas poxa, faltou cuidado.

O que provavelmente tenha ocasionado a transmissão - não digo isso com certeza por que posso sim ter pego de outra pessoa, pois em meu outro relacionamento não tinhamos o hábito do preservativo.

Meu Deus, guri. Seu louco. Enfim, então talvez você já estivesse com Aids e não soubesse? E exames, não costuma fazer? Usar preservativo notei que não, mas é tão importante se cuidar e se colocar em primeiro lugar. Esse foi o pior e mais brutal erro na história toda. E como você não usava a camisinha antes, como vai ter certeza ou culpar seu último namorado? Também não rola.

É realmente incrível como isso ainda acontece, em plena era da informação.

Pera lá, que você também sempre foi informado e não usou. Não tem motivo nem desculpa plausível. Você se contradiz nessa frase, infelizmente. Sabia dos riscos, e agiu com imprudência. Como consequência, carregará para a vida toda (ou até que achem ou liberem alguma cura) uma doença que debilita a pessoa aos poucos, ainda também na era da informação.

Mas enfim, não adianta chorar pelo leite derramado. Minha questão é: como voltar a acreditar num outro relacionamento? Como contar para a pessoa que eu tiver me envolvendo que eu sou HIV positivo?

É algo por que não passo, nem espero passar, mas que você terá que aceitar e usar de cautela e delicadeza para adentrar o assunto aos poucos no relacionamento. Não será fácil, mas será essencial. Mostrará que você é honesto, e gosta e se preocupa com o outro.

Tô com medo da rejeição. Sei que posso procurar entre pessoas que tambem são, mas não queria ter de limitar minha escolha de um parceiro a soropositivos.

Também discordo nesse ponto. Apenas tem que achar alguém que entenda e não se assuste com a sua condição. E não, não será fácil. Infelizmente. Porém, se limitar é erro e forçar uma situação. Nunca saudável em nada.

Isso significaria que não tenho direito de me apaixonar por um soronegativo?

Você tem o direito de se apaixonar por quem quiser. Ser correspondido são outros milhões. A questão está justamente aí.

Como uma grande amiga minha me fala: o amor vai bem além de umas celulazinhas com deficiência de imunidade, e se tem preconceito não me serve pra parceiro na vida mesmo.

Talvez. O que há também são pessoas que não estão prontas para lidar com a situação. A cabeça de todos ainda é muito fechada, é essa a realidade.

Mas a insegurançaa me persegue. E gostaria de uma forma de abordagem. Eu tenho um discurso pronto. Mas não sei se vai adiantar alguma coisa. Nunca sei o alcance do preconceito das pessoas. Meu discurso inclui a informação de que com a terapia antirretroviral meu vírus fica indetectável, não causando assim nenhum risco de transmissão, e sempre usaria preservativo.

Acho justo, porém não ensaie nada. Se você saiba as informações, apenas seja sincero, olhe nos olhos, e repasse-a. É simples. E você ganha mais credibilidade ao invés de parecer um robô pré-programado.

A única diferença é que a pessoa saberia da minha situação. Apesar de tudo isso, o medo se instalou, e não sei como agir em relação a isso.

Deve ser complicado mesmo. Se eu disser que entendo e dar vários conselhos, seria tudo falso e não teria nem cabimento responder a sua pergunta. Você me enviou ela algumas vezes, e há algum tempo. Pensei bastante no que dizer, discorri sobre o assunto com uma amiga próxima. Acredito que sinceridade, no seu caso, em tudo e na vida, é bem importante. Não se apegue a esse medo da vida, do que vem pela frente, de amar. Apenas se cuide, e repasse a sua informação à frente. Parece difícil, mas é só o começo. Aperte start, deixe fluir e esqueça as preocupações. Você sabe quem você é e não tem o que temer. Boa sorte!

P.s.1 - Lembrando sempre que, a aids hoje em dia possui tratamento e não é transmitida por saliva, abraços, beijos ou suor. Apenas pela troca sanguínea ou sexo. Preconceito é burrice, todos sabemos.


P.s.2 - Quer enviar sua pergunta também? O e-mail, como todos sabem é simples e está disponível sempre: camilapaier@gmail.com

 Um beijo, seus lindos!

3 Comentários:

  1. Noossa, assunto bem importante de ser abordado, mas por vezs ainda surpreendente. Nunca tive a oportunidade de conhecer alguem soropositivo, tlvz até conheça, mas nao sei. Preconceito é algo para os FRACOS. Se entende por AMOR, tudo aquilo que é feito de coraçao e nos deixa mais 'leve'; só desejo que cada um encontre pessoas 'belas pelo caminho, pq tudo tem seu tempo, e sim, TODOS TEMOS O DIREITO DE AMAR.

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  2. Caramba!!! Barra pesada...n sei como lidar com isso, eu acho! De qualquer maneira, acho q a vida vale muito e q n podemos nos descuidar dela pelo peso de nao chegarmos inteiros ao fim de nossa jornada. Com o corpo e o coração aos pedaços!
    USEMOS ENTÃO A CAMISINHA!
    Beijos e Queijos

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  3. Eu não fazia a mínima ideia do que comentar, primeiro por ser um assunto tão delicado e segundo por nunca ter tido nenhum contato ou convivência com algiém que enfrentasse tal situação.
    Não queria apenas elogiar a tua postura diante do caso, mas de alguma forma tentar falar pra quem te enviou as perguntas pra não ter medo, eu sei do preconceito clamufado que esse país estampa, posso compreendeer tudo o que ele sente mas entender, acho que nunca, afinal não é na nossa pele certo? Eu desejo força não apenas a ele, mas a todos... E que pelo menos os leitores desse blog tenham consciência e que tomem cuidado! :))

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