Ser magra

8.07.2011 -

Desfilam por nós mulheres praticamente esquálidas. Pernas sem covinha, bumbum murcho, braços finíssimos. Ancas marcadas, bochechas inexistentes. Os manequins, cada vez menores. A mulher brasileira, completa em carne e abundância, tem em sua maior referência feminina uma moça loura (que sabemos, não é maioria no país), branca e de corpo finíssimo. Sempre sinônimo de abundância, sensualidade e curvas a se perder, agora se incorporou ao mundo numa única coisa que tem importado à moças, idosas, jovens, todas mulheres: ser magra.

Não basta ter o emprego dos sonhos. Ter se esforçado e estudado feito louca, se ido atrás de promoção e mostrado competência. Ter ganho de homens e burocracias, tabus e preconceitos. Você é chefe, mas é magra? Se não, lá vai o estresse se impregnar no dia a dia corrido, em que se come tudo com calorias pela metade, se alimenta de forma precária, e claro, se inveja a secretária de corpo esguio. Ganha uma grana, e vejam vocês, não é magra.

Sempre sonhou e agora desfila por aí com o namorado quase dos sonhos a tiracolo. No espelho, sozinha em casa, se olha e pensa: e esse pneu? E aquela celulite? Vê só essa coxa grossa, tenebrosa. Começa a se questionar se engordou desde o início do relacionamento, e o moço, cúmplice da felicidade amorosa, fez voto de silêncio. Será? Prova todas as calça jeans do guarda-roupa apenas para constatar que o peso, ou talvez as medidas, continuem, as mesmas. E o que ele viu em mim, que não sou como as moças da televisão? Está comigo apenas por sexo ou cumplicidade, mas sente tesão em tudo quanto é magrela por aí? Tem o namoro abençoado, o casamento dos sonhos, o amor na palma da mão. Só não é magra - ainda que corra insistentemente atrás de assim se tornar, com finais de tarde em academia e ingerindo apenas 800 calorias.
Mora sozinha e é independente. Ganhou na loteria ou uma boa herança. Viajou o mundo inteiro ou mora fora do país. Fala três línguas com fluência, conserva um bom grupo de amigas há anos, tem na família o seu santuária. Ainda assim a neura frequente que a mídia tem imposto nas cabecinhas de cabelo comprido e cílios longos: ser magra.

Só assim a felicidade é possível: dentro de um padrão difícilimo de se corresponder. Deixando para trás uma vida de boa mesa e ótima culinária para aderir à exercícios quase que espartanos frequentes, cigarro para não sentir fome, e café? Apenas preto e passado. Recomendável se cuidar, o amor próprio apenas massageando o ego. Uma tarde no salão de beleza, com massagens na estética ou no shopping, cheia de sacolas com compras recém adquiridas. Porém, ser magra nos persegue. Em qualquer lugar que olhemos, para onde gostariamos de fugir. Porque para o século XXI, o indicativo é esse: nem dinheiro, nem amor, muito menos sucesso e paz: a magreza é quem tem feito a mulher. Ainda que em pequenas porções.

13 Comentários:

  1. tsc, Camila, para de postar sobre exatamente o que eu tô pensando... rs
    Semana passada iniciei uma dieta (JURO que vou cumprir!) e entrei pra academia. Cansei de não ser magra. Não sou gorda, mas magra? Tampouco. E isso incomoda, sim. Admiro quem vive bem resolvida com seus quilinhos a mais, mas eu não consigo =/ Parece que estamos constantemente sendo julgadas pelos pneuzinhos, pela celulite na praia, por vestir uma blusa G. Não sei qual é o mistério, só sei que é assim.

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  2. queria te dar um beijo e abraço neste momento!

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  3. Escrevi um baita comentário e deu erro. -.- Enfim, só queria dizer que ser magra não é tudo isso que ' a mídia ' te mostra ( tenho 19 anos e tô em busca dos 50kg hehe). Desencanem; tem muitas coisas mais pra nos fazer feliz por aí. (: - ok, se tô em busca dos 50kg, tb sou uma insatisfeita, só n deixo isso virar obsessão, sei lá; mas enfim, somos nós, mulheres, forever unsatisfied. haha
    Beeeijo da magrela:*

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  4. Toda mulher sofre disso, né? E sinceramente, acho que nem é a busca pela magreza em si, mas pelo corpo perfeito sempre. Mulher é perfeccionista e não tem jeito.
    Eu vivo nessa busca. Emagreço e às vezes sinto que to magra demais. Engordo, e já quero perder os quilinhos novamente.
    Bom é não deixar essa busca interferir na nossa auto estima, e se gostar independente do manequim. Até porque, sabemos, quem liga pra isso é mulher. Homem não tá nem aí pro nosso manequim haha

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  5. A verdade é essa: se você não é magra a sociedade te condena como uma pessoa que so come besteira, sedentaria e que não tem vida social!!

    Beijos, http://www.nadafutil.com/

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  6. Oi Camila!
    Quem disse que ser magrela é sinônimo de felicidade? Parece até que tu me descreveu rsrs, sou formada, trabalho no que gosto, moro só, sou independente, porém odeio ser magra, eu aceitaria até celulite se viesse acompanhada de uns quilinhos a mais... Detesto ser magra e minha luta é pra ganhar uns quilinhos... Sei que a essência do texto é falar da ditadura da beleza, em detrimento da inteligência,do amor verdadeiro, do ser em sí. Mas, só quiz mostrar que existe um outro lado nessa balança que sua pra conseguir o inverso também, os magros de ruim rsrs. Bjusss

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  7. Sou bem piradinha com essas coisas, não vou negar. Não sinto muita fome, consequentemente como pouco. Mas quando passo dos limites, o peso na consciência me faz companhia. É difícil lidar com tudo isso, com tudo que a sociedade exige de nós.. O importante é tomar cuidado para não passar dos limites, porque aí sim, as consequencias serão graves. Beijos, guria. Boa semana!

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  8. Dona Camila, dona das verdades.
    Eita mundinho hein?!
    A gordurinha extra me incomoda, confesso, mas nem por isso deixo de me fartar de tudo que é gostoso.
    Um pneuzinho aqui, uma celulite ali, normal gente. Mulher é mulher, não é Barbie.

    Texto mais que perfeito e verdadeiro.
    beijos

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  9. Bom texto.

    Visite (siga): antimateriadonada.blogspot.com

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  10. Dificil se contentar com o corpo que tem... difícil não quere voltar ao que já se foi, saber que se é muito mais bonita de um jeito... e achar que tudo ficaria melhor se estivesse de volta lá, magra...

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  11. Uma vez li em algum lugar que não lembro bem onde, que os homens até gostam das magras, na verdade gostam de desfilar com as magras, mas 'naqueles momentos' preferem as mais cheinhas, não obesas, mas que tem pelo menos umas voltinhas.
    Na escola é que vejo, na verdade comparo muito meu corpo, e mesmo não me achando muito, ainda acho que tô bem, tem umas minas tão magras que chegam a dar dó. Na moral. Ser magra não é tudo, na verdade, é quase nada!
    Gostei muito do texto. Infelizmente é este o bombardeio que recebemos todos os dias, nos resta saber lidar. ;)
    =*

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