Calmila responde: Da amizade sem confiança

8.15.2011 -
 
 
Camila, que bom que se disponibilizasse pra ajudar as pessoas, muito bonito da tua parte. Pois então, a minha pergunta é em relação a amizade.
 
De nada, acho bastante válido que as pessoas tenham um espaço - no caso, meu e-mail - para quem quiser arriscar uma pergunta bem feita, que o faça. Prometo responder com minha habitual sinceridade de sempre. E amizade é algo que mal abordamos por aqui, desde o começo curti a inovada quanto aos temas a serem abordados.
 
Ano passado entrei na faculdade e no primeiro dia de aula já mantive uma comunicação com a Charlotte, a qual é uma das minhas (poucas) melhores amigas. O problema é que essa amizade já tem um ano e meio e eu ainda me sinto totalmente insegura em contar algumas coisas pra ela, tais como coisas sobre minha vida, sobre o que eu sinto... 
 
Ou você é uma pessoa bem fechada mesmo, ou não rolou uma confiança mútua desde o princípio. Ou pior: em um ano e meio a moça teve atitudes tão contraditórias que, não inspiraram mesmo a sua confiança. Complicado.
 
O que mais me deixa chateada é que ela me conta TUDO, e sinto que ela confia em mim, e claro, tem coisas minhas que ela sabe e são guardadas a sete chaves, mas outras, bem mais profundas, eu não falo pra ela, e as vezes ela me cobra pelo fato de eu ser tão fechada com ela. 
 
Cobrar já é péssimo da parte dela. Vocês não namoram, nem firmaram contrato nenhum. Contudo, se ela cobra, é porque nota que você não se abre, ou acaba (como uma corna) descobrindo depois, por outras pessoas. Porém, jeito é jeito. Se você demora pra adquirir confiança e se resguarda (o que é muito inteligente da sua parte, diga-se se passagem - preciso aprender), é porque ao longo do tempo e das suas vivências o seu mundo interno e suas relações desse jeito foram se adequando. Você não é obrigada a mudar por uma amizade. Ela que entenda essa grande diferença entre vocês.
 
Nós fazemos faculdade de Psicologia, ou seja, todo estudante de Psicologia tem que gostar de OBSERVAR, ANALISAR, essas coisas. E é disso que não gosto, pois ela é ''meio'' controladora, sinto isso algumas vezes, quando falo pra ela algum defeito meu, e mais tarde ela nota e fala: ''bem que tu disse que tu era assim''. Sinto que se eu me abrir mais ela pode usar isso contra mim, não pelo lado ruim, mas porque ela realmente percebe, e eu não gosto que me analisem, porque evito fazer isso com os outros. Acho feio analisar e ainda por cima ficar ditando comportamentos, ''inventando'' teoria pra tudo. 
 
Eu concordo. Sinto pavor de quem tenta me colocar "na linha", cabresto ou ditar suas próprias regras, para o MEU mundo. É um pé no saco gente querendo se infiltrar no que nós vivemos e tentar ficar jogando sete erros onde a gente acha - e às vezes está - acertando. Ela observa, você também. O problema é que a língua dela parece ser muito mais ferina que a sua, e o limite da amizade de vocês, na sua visão, ela extrapola. Cabe a você não contar mais nada, apenas assuntos sutis e futilidades ou quebrar o pau de vez. Mas limitar essa boca grande que tanto tem a irritado.
 
A questão é: não confio em alguém que confia tanto em mim, e acredito que devia ser mais aberta com ela, porque sei que ela é minha amiga, mas eu não consigo deixar esse medo de lado. Muitas vezes penso que se eu contasse algum problema sério pra ela, ela me ajudaria, pois as poucas vezes que me abri com ela, ouvi os conselhos mais sensatos possíveis. Ela é uma boa amiga, e além de tudo, confia em mim, sinto isso dela, sinto o olhar de sinceridade ao me contar as coisas, mas ela é meio carente, ou seja, tudo que faz necessita que eu faça junto, e às vezes isso me sufoca, pois não me abro pra conversar com outras colegas da aula, muitas vezes por causa dela. Sinto que ela dá muito valor à minha amizade, e sinto também que não estou retribuindo da mesma forma. A ''real'' é que me sinto presa a uma amizade pelo fato de ela querer saber tudo da minha vida, quando tem coisas que eu guardo só pra mim - o que muitas vezes ela não consegue entender.
 
Não há muito o que fazer. Você é de um modo, ela funciona de outro. Ela não irá mudar, assim como você não deve. Amigo a gente compreende e aceita, não questiona. Ou às vezes questiona, porém, com discernimento, e caso vocês já tenham conversado sobre esse impasse, só resta a ela compreender. Se nem isso for possível, se afaste um pouco. Somos seres humanos e temos um cérebro que conforta aprendizados, erros, catástrofes, traumas, momentos marcantes: coisas totalmente nossas, da nossa caixinha interna de vida. Como DNA, cada uma é unica.
 
O que acho que acontece é que eu NUNCA tive uma amizade em que me dessem tanto valor assim, que me quizessem sempre por perto, geralmente eu era quem corria atrás, a que contava tudo, a que fazia de tudo pra agradar etc. Hoje sinto que isso reverteu.
 
Ou vai ver, pela primeira vez, alguém te dá TANTO valor que não deixa você valorizar um pouco também em troca. É complicado, mas é a mesma coisa quando a gente quer muito quem não nos quer. Basta um tempinho longe, uma saudadezinha qualquer, que se há mesmo um sentimento bacana, a coisa toda disperta e o valor retona de algum buraco, cinzas ou fundo falso de bolso.
 
Gosto muito dela, senti falta dela nas férias, ela me alegra, me faz rir, me faz eu me sentir uma pessoa melhor, mas não consigo demonstrar os meus sentimentos. Confesso que tenho medo.
 
Não sei se é justificável esse seu medo. Do quê? De que ela seja um ser vivo e real e com defeitos também? Não compreendi bem, acredito eu. Vá em frente. Entregue um pouco de você pra ver o que ela faz com essa matéria prima sua: se estilhaça, propaga ou guarda bem guardadinho como você diz guardar esses seus segredos e medos e neuras e enfim.
 
Então, a questão é que não esta havendo uma reciprocidade da minha parte, tenho esse medo de confiar demais e depois quebrar a cara (como acontece na maioria dos meus relacionamentos). Sei que é errado ficar comparando as relações antigas, mas enfim... Queria uma opinião tua, qual a tua visão disto tudo. Eu estou agindo de forma errada com ela?
 
Obrigada pela atenção. Beijos

Confie aos poucos. Confie na medida certa: sem exagero, mas sem ser em falta. Vai que a Charlotte é uma boa amiga - contato que, um pouco enérgica sim - mas de bom coração, e você aí cheia de medos porque ela acha ser a dona da verdade e do mundo? Tudo bem dosado e homeopaticamente, tudo numa boa. Nisso que eu creio.
 
 
Quer enviar sua pergunta também? Prometo anonimato, que claro, aqui ninguém é doente. Mudo nomes, respondo sincera e talvez te ajude. Envie para: camilapaier@gmail.com e caso esteja coerente e bem escritinha, basta aguardar que sai respondida aqui, sim.

Beijocas!

4 Comentários:

  1. Acho que sou bem assim, tenho medo de me entregar às pessoas, mas aí quando me entrego, quebro a cara. Meu maior defeito, talvez, seja ser amiga demais.
    Nossa, amei a sinceridade nas resposta, Camila.

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  2. Poxa Camila. Tão sincero que me faz refletir e muito. Eu passo por essa situação também, acredito que todas a pessoas devem ter algo guardado que não se possa contar pra ninguém.. Eu tenho um probleminha, sempre analiso as pessoas, mas nunca julgo nem cobro, porque sei que as pessoas devem ser o que realmente querem ser. Ela como é tanto sua amiga assim, deve entender seu lado, não de desconfiança, mas de que há coisas que você gosta de guardar só pra você. Se quer um conselho, faça feito eu. Eu sempre me coloco no lugar da outra pessoa para saber se eu iria aceitar... é complicado, mas para mim tem dado bons resultados. Falar a verdade sempre é o melhor caminho, chegar nela e falar o que realmente sente e quer. Amizade sem confiança não é amizade. Você nunca vai saber se algo é verdadeiro se você não for completamente verdadeira.

    Falo demais né? rsrs
    Beijos Linda!

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  3. É, com certeza o chapéu serviu pra mais gente!! A tua sinceridade me fascina cada vez mais, Camila =)

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  4. Eu sou igualmente fechada, mas porque quero mesmo. Não é por medo nem nada, é só meu jeito de ser e meus amigos todos aceitam muito bem isso. No início alguns estranham, mas depois entendem que não é falta de confiança, só uma personalidade que varia um pouco das demais.
    No caso dela, acho que ir homeopaticamente é o melhor mesmo. Confiança se conquista aos poucos, ela sendo desconfiada, tem que ir devagar que daqui a pouquinho a confiança cresce. Cobrar amizade é que não dá, amizade é coisa que se doa.

    Achei super legal a ideia, Camila! Vai ser interessante porque acredito que cada pergunta que você publicar, será a resposta pra várias outras que infernizam nossas cabecinhas aqui. Seu blog ficando cada vez melhor!

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