O amor da minha vida

6.03.2011 -

O amor da minha vida quase me mata de uma saudade enorme, mesmo não tendo esse tamanho todo. Um beijo na testa ao chegar, outro antes de sair. Nos alimentamos de pequenos gestos que mantém aceso esse meu sentimento colossal que atravessa mais de uma década, em diferença de idade. Me sorri com aqueles dentinhos tão minúsculos que enchem a boca, me assiste com as duas amêndoas que na verdade, são bolitas escuras em formato de íris, cílios e olhos. Vejo tracejar com rapidez a mãozinha pequena em papéis de rascunho, das princesas e castelos que tanto me fala; dos filmes que assistimos, cúmplices. Pede mais de mim, que só dou um milhão de abraços e um bocado de atenção em troca. Faz gesto de coração, me abraça apertado, conta da vida acadêmica recém iniciada. E é o amor mais simples e puro, ingênuo e pueril que já senti. Desses que fazem falta no cotidiano, que me acometem cheios de lembranças enormes de como a gente cresce e nem percebe; quando vê, tá desse tamanho todo, cheio de responsabilidades, alguns privilégios e obrigações também: adulto como nunca.

Essa é a razão do meu viver: gradual, contínua. E menina. Descobri que as relações fáceis, que fluem, e pessoas simples, que me ganham, são a chave de qualquer bem-viver que eu possa escolher. Sem ciúme ou coisa do gênero. Nenhuma posse, insegurança nula, toda doçura desse mundo, me reserva a menor pessoa mais importante da minha rotina. Tem vezes que meu amor inventa de ficar cheio de melindres, até mesmo arisca. Tento alisar o cabelo já de seda, lisérrimo, e levo um tapa no dorso da mão. Passo e cutuco, e ouço a voz mais doce do mundo esbravejar num grito inesperado de libertação. Tem seus momentos de bicho serelepe, boneca de pano viva, professora aplicada e apresentadora de programa infantil. Acha que é grande. Quer ser moça feita. Diz até mesmo, vezenquando, que quando "crescer" quer ser eu. Assim, como sou. Trabalhar no que nem sabe que faço, vestir as singulares peças que uso. E esse meu amor sonha alto. No mundo cor de rosa em que vive, de cima do altar colocada: é também o anjinho que rege meus dias, quer ajudar as pessoas e ser médica. Enquanto isso, se diverte brincando de casinha, boneca e pique-esconde.

Pior de tudo, é que essa minha paixão talvez saiba apenas que existe por meio dos meus atos descabidos de segunda mãe madrinha, no meu olhar sempre meigo e nunca feroz - não consigo, não dá. Por maior o estrago, o xingamento não sai. Quero apenas dizer que, quando o dia é uma merda, as horas não passam, a vida anda injusta: atento ao afeto mais bonito que os meus dias confortam. Sete anos já, fora os meses de existência em que, por uma tela, sonhava tanto em tocar a personificação em forma de paixão que nos desceu lá do céu. Que algum dia você que agora começa a escrever letras que logo serão sílabas, prontas para serem palavras inseridas em frases, espero que leia tudo isso com alguma felicidade ou fuga, adolescente quando eu já estiver no caminho para o envelhecimento. Que te amo muito, mesmo longe, sempre. Na minha rotina onde mal tenho tido tempo para respirar, não é cachorro nem caixa de mensagens a minha alegria diária: você, dona Alícinha.

23 Comentários:

  1. Que texto lindo! Acho que só nós, que temos irmãs pequenas, entendemos esse tipo de amor. É um amor diferente, sublime, que faz de nós pessoas melhores. Ter uma irmã pequena é um cursinho para futura maternidade, né?! Não consigo me lembrar da minha vida antes de Isabelle nascer.
    Um beijo para ti, e outro na pequena!

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  2. alguns chamam de amor fraternal...
    eu chamo isso : de ligações indivisiveis equacionadas entre duas almas quase iguais em perfeito estado de equilibrio.

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  3. que amor lindo! Tenho certeza que ela terá muito mais orgulho de você quando lê esse texto! Deve ser tão bom ter uma irmãzinha tão mais nova, e no seu caso ainda é sua afilhada!
    Muito linda a relação de vocês!
    beeijo ;*

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  4. Que LINDO esse amor, Camila. Como a Caterine mesma aqui escreveu, nós, as mais velhas temos mesmo um carinho todo grande e especial pelas pequenas que, muitas vezes, querem tanto da gente. Do carinho, do amor, do jeito da gente. Seja agora, seja no futuro. Ela também tem um anjinho, uma madrinha quase realizadora de pedidos: Dona Camila Paier.
    Beijos, pra's duas lindas.

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  5. As pequenas: só quem convive com elas sabe bem como é: um amor singular. Sem palavras para descrever todo amor do mundo que eu sinto pela minha pequena... É magnifico!

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  6. Sei também como é esse amor, tenho dois afilhados, que são primos, mas o amor por eles é tão bonito que o vi descrito aqui. As vezes me sinto mal, penso em desistir de tudo, e eles estão ali, sempre do meu lado, me amando não importa como eu sou.

    Um beijo, minha doce Camila

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  7. Em minha rotina - também - apertada, fico cem mil anos sem passar por aqui.
    Regresso e me deparo com esse encanto de declaração. E de um amor sincero e eterno. Irmãos como um todo nos trazem isso. Mas os menores despertam a proteção, como se fossem, mesmo, filhos.

    É doce.
    Um beijo. =*

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  8. Ah Camila, que doce esse seu texto...
    É muito bom ter uma criança para adoçar nossa vida de sentimento puro de amor, não é? Você, como madrinha querida quem-eu-quero-ser-quando-crescer, tem mais influências nela que os próprios pais, eu sei, venerava assim uma prima minha... :) Aproveita isso, ensina... que a melhor recompensa é ver na criança que amamos o fruto da sementinha que plantamos.
    Beijinhos!

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  9. Que lindo, amor de irmã é mesmo único. Eu e minha irmã também temos muitos anos de diferença, 9 anos, mas o amor é muito grande que conversamos de igual para igual. Sou a mais nova, mas mesmo assim ela é a minha princesa, meu exemplo, meu TUDO.

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  10. Ah que amor guria, esses pequenos sempre nos fazem esquecer de tudo e nos mostram todos os dias sentimentos que por vezes venhamos a esquecer. Texto lindo ;)

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  11. Que amor lindo e sincero Camila, lindo demais este texto.

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  12. Que texto maravilhoso, Camila! Eu, nenhum pouco sentimental que sou, chorei lendo cada palavra que carrega um pouco de seu amor. Amor de criança é sincero e nos devora de tal forma que quando percebemos já estamos entregues a todo encanto e simplicidade. Se fosse para eu ter um irmãozinho (ou irmãzinha), acredito que seria um pouco como você. Achei linda a forma que você a vê e fala sobre ela, uma segunda mãe mesmo.
    Beijos.

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  13. E sempre não tem mais o que falar! Lindo! Beijos

    Julia,

    http://juruzando.blogspot.com

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  14. Este comentário foi removido pelo autor.

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  15. É incrível o que pessoinhas tão recém-chegadas ao mundo são capazes de fazer com nossos corações e instintos. Tudo se abrange e passamos a entender o que é amor puro - da forma mais singela que existe.
    Um conforto tão imenso que sopra um friozinho lá dentro do peito.
    Faço minhas as suas palavras e ouso dedicá-las também a outra pequena florzinha: Maria Eduarda.
    Achei lindo e de todo o coração Camila.
    Um grande beijo

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  16. Desde a primeira vez que cliquei num link nomeado "Calmila" e aqui cheguei, tendo a oportunidade de ler seus textos fiquei feliz. Me senti honrada por poder ler textos tão completos e simples. Tão inteligentes, acima de tudo. Você é um exemplo, Camila. É muito bom ser blogueira e ter a oportunidade de ler textos de outras blogueiras. Sou super fã das suas palavras. Quanto a este texto, lindo esse amor. Tenho 2 irmãs e um irmão - todos mais novos que eu - e apesar de muitas vezes eles me tirarem a paciência, não me vejo sem eles. Não vejo vida sem eles. Não vejo sorrisos diários nem mesmo felicidade. Quem tem irmão ou irmã sabe. Quem tem irmão ou irmã conhece o verdadeiro amor incondicional. Lindo o novo layout, já disse isso? :*

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  17. Que coisa mais linda esse sentimento!
    Saudade de ser criança exatamente por essa inocência boa!
    Linda essa sua princesinha hein!

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  18. Amor fraternal é um amor muito bonito. Aquela pessoinha, muitas vezes mais nova que a gente, era uma sementinha num dia e já está querendo ser moça no outro. A gente cuida como segunda mãe, cobre, dá comida e muitas vezes ainda sente que falta algo. Seu texto é lindo, coração. Parabéns mesmo.

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  19. Coisa linda essa sua relação com a Alícia viu.
    A minha princesa já está quase do meu tamanho, todos os dias lembro dela com saudade daquele bebê lindo que ela foi e sinto uma esperança gigante quando imagino o futuro dela. Se eu pudesse mandava ladrilhar aquela rua, só pra ela, só pra ela passar.

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  20. Bela declaração Camila! Aposto que o coração da destinatária ficou feliz! bjs

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